Estudo publicado na Nature investiga ressurgimento da dengue após epidemia de Zika

Publicação: 7 de junho de 2021

Pesquisa identifica possíveis respostas à diminuição de casos de dengue entre 2017 e 2018 e quais as origens dos vírus que causaram a epidemia de 2019 no Brasil

Estudo aponta que grande parte da população ao ser infectada pelo vírus Zika pode ter produzido imunidade cruzada contra a dengue, o que diminuiu o número de casos entre 2017 e 2018

Um estudo publicado em maio na revista científica Nature Communications intitulado Lying in wait: the resurgence of dengue virus after the Zika epidemic in Brazil buscou entender quais fatores determinaram o declínio no número de casos de dengue no Brasil em 2017 e 2018, anos subsequentes à tríplice epidemia dos vírus Zika, dengue e Chikungunya, que ocorreu em 2016. A pesquisa também analisou quais as origens dos vírus que causaram a epidemia de 2019 no Brasil, quando foram registrados 2,1 milhões de casos. De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil foram registrados 273.193 casos prováveis de dengue no mesmo ano. O vírus da dengue é uma das maiores ameaças à saúde pública nas regiões tropicais, em especial, no Brasil, onde epidemias anuais levam ao adoecimento de milhares de pessoas. Os resultados deste estudo revelam que o vírus pode suportar períodos de baixa suscetibilidade da população e ressurgir quando as condições são adequadas. Um achado importante foi que as condições ambientais provavelmente não foram a principal causa das flutuações na incidência da dengue no Brasil. Além disso, as intervenções de saúde pública após a epidemia de Zika podem ter impactado a transmissão.

De acordo com o pesquisador do departamento de Epidemiologia de Doenças Microbianas, da Universidade Yale, nos Estados Unidos, Anderson Brito, um dos autores do estudo, a queda drástica no número de casos de dengue se deu em parte graças à baixa taxa de transmissão do vírus, em função da redução do número de pessoas suscetíveis aos principais sorotipos em circulação na época: dengue 1 e dengue 2. “Outra provável explicação são as campanhas de controle de vetores que ocorreu em 2016, em resposta à Zika, não só no Brasil, como em diversos países da América Latina, que tiveram apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e aporte substancial de esforços para eliminar os mosquitos por parte de governos locais”, destaca. Para o Dr. Brito, isso pode explicar por que além do Brasil, todas a regiões mais afetadas por dengue também observaram uma forte queda no número de casos da doença. Para que se possa entender com precisão como as linhagens do vírus da dengue podem permanecer não detectadas por longos períodos de baixa transmissão são necessárias novas pesquisas.

O estudo se concentrou principalmente em dois estados: Paraíba, no Nordeste do Brasil, e São Paulo, no Sudeste do Brasil. Localizados em diferentes regiões do País, diferentes municípios desses estados tiveram grandes surtos de dengue nos últimos anos, após anos de baixa incidência. Em 2014, o número de casos notificados foi baixo em ambos os estados, mas em 2015 e 2016, eles aumentaram em muitos municípios. Em 2017, a incidência caiu para mínimos históricos na Paraíba e em São Paulo, atingindo níveis que se assemelham aos de 2014. Já em 2018, alguns municípios desses estados sofreram grandes surtos, entretanto foi em 2019 que a dengue ressurgiu com força total, voltando com picos recordes em São Paulo, enquanto que na Paraíba ela ressurgiu em municípios específicos, principalmente no entorno da região metropolitana da capital, João Pessoa.

“Os surtos de dengue em 2018 e 2019, na Paraíba e em São Paulo, foram causados, respectivamente, por linhagens de dengue vírus sorotipo 1 e 2 que já circulavam no Brasil há cerca de 10 anos. Estas linhagens persistiram no País mesmo no período de baixa transmissão (2017 e 2018), e então reemergiram em grandes surtos locais, quando todas as condições eram favoráveis ao surgimento de casos”, detalha o Dr. Brito. Os resultados do estudo sugerem que, em comparação com outros estudos já publicados, grande parte da população foi infectada pelo vírus Zika, o que pode ter produzido imunidade cruzada contra o vírus da dengue resultando em uma grande diminuição do número de casos em 2017 a 2018. Esse efeito também pode ter sido causado pelo aumento da imunidade da população, devido às altas taxas de infecção pelo próprio vírus da dengue nos anos anteriores a 2016 ou a uma combinação desses fatores.

O estudo combinou dados genômicos, ecológicos e epidemiológicos para investigar a dinâmica do reaparecimento do vírus. Foi utilizado o sequenciamento genômico do vírus da dengue de amostras coletadas no Nordeste e Sudeste do Brasil para investigar o motivo de terem sido reportados poucos casos da doença em 2017 e 2018 e quais as origens dos vírus que causaram a epidemia de 2019. A pesquisa foi desenvolvida em parceria por pesquisadores da Fiocruz Pernambuco; das universidades norte-americanas de Yale, Flórida e Notre Dame; da Universidade de São Paulo (USP / Ribeirão Preto) e do Rega Institute for Medical Research (Bélgica).

Impacto da COVID-19 nas notificações

Todos os anos, o Brasil enfrenta uma ameaça constante causada pela dengue. Em 2020, foram registrados quase um milhão de casos prováveis no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. Em 2021, até meados de abril, são 228.485 casos prováveis da doença. O número teve queda de 65,7% em comparação com o mesmo período do ano passado, de acordo com o Boletim Epidemiológico. As hipóteses mais prováveis são redução da mobilidade humana e as subnotificações em função da pandemia. Embora, até o momento, o País não enfrente uma epidemia, a doença acende um alerta. Atualmente são mais de 205 mil casos prováveis. “Com receio da COVID-19, muitas pessoas, em especial em 2020, evitaram se expor a ambientes hospitalares, fator que pode ter favorecido subnotificações de casos sintomáticos. Além disso, como os vírus (dengue e Zika) dependem de mosquitos para serem transmitidos de uma pessoa para outra, a restrição de movimentação das pessoas nas cidades brasileiras certamente dificultou também a transmissão desses arbovírus para longas distâncias, já que os vôos dos mosquitos cobrem áreas pequenas (poucas centenas de metros quadrados)”, diz. O Dr. Brito observa ainda que vírus transmitidos por mosquitos se mantém em circulação, mesmo que em baixa transmissão, e tudo o que precisam são de condições favoráveis para ressurgirem em grandes surtos das doenças que causam.

A pandemia também impactou o levantamento epidemiológico e muitos municípios brasileiros deixaram de realizar o Levantamento Rápido de Índice de Infestação por Aedes Aegypti (LIRAa). “O manejo ambiental para impedir a proliferação do mosquito é essencial. Ou seja, a falta do levantamento sobre a infestação por Aedes aegypti pode favorecer surtos de dengue, em especial quando as condições são favoráveis à transmissão viral, como temperatura, umidade, mosquitos e pessoas suscetíveis. Quando estes fatores estão presentes, arbovírus como os vírus da dengue, Zika, e Chikungunya circulam com mais facilidade”, assinala o Dr. Brito. O pesquisador enfatiza que como os sintomas destas doenças são semelhantes, o sequenciamento genético de amostras de indivíduos sintomáticos é ideal para a identificação do agente infeccioso.

Em uma comparação entre COVID-19 e arboviroses causadas por flavivírus, estas têm sintomas mais característicos, que servem para diferenciação do diagnóstico. Porém, alguns sintomas como febre e mialgia são compartilhados entre estas doenças, o que pode gerar dúvidas. “Essa pandemia mostrou a importância do diagnóstico molecular de viroses. Dengue é com frequência diagnosticada com base na sintomatologia, e a falta de testes moleculares mais precisos, como RT-PCR ou sequenciamento permitiu que o vírus da Zika circulasse no Brasil por mais de um ano sem ser detectado, provavelmente com casos sendo reportados com dengue, baseado apenas nos sintomas. Espero que essa pandemia deixe como legado uma maior disponibilidade e uso de testes moleculares, para detecção precoce de surtos virais”, ressalta o pesquisador.

Por fim, o Dr. Brito reconhece que a rápida transmissão da COVID-19 e a elevada carga que ela impõe repentinamente aos sistemas de saúde são as principais razões de preocupação para os gestores em saúde. “A pandemia tem levado os hospitais e os profissionais de saúde ao limite, e sabendo-se que outras questões de saúde continuam a existir, doenças tratáveis não estão sendo diagnosticadas nem acompanhadas em tempo adequado. E mesmo com a vacinação em curso, medidas de proteção são essenciais para preservar vidas e a capacidade de atendimento do sistema hospitalar”, finaliza.