Estudo dá esperança no combate ao eumicetoma, uma das doenças mais negligenciadas do mundo

Publicação: 11 de janeiro de 2016

Desenvolvimento do trabalho conta com menos de US$ 2 milhões; estudos semelhantes feitos por grandes empresas farmacêuticas custam mais de US$ 160 milhões

Doença conta com poucas alternativas de tratamento e os pacientes têm raras opções além da amputação dos membros afetados

Doença conta com poucas alternativas de tratamento e os pacientes têm raras opções além da amputação dos membros afetados

A eumicetoma, uma infecção cutânea ou subcutânea crônica causada por fungos do gênero Eumicetos, é um dos problemas mais crônicos nos países pobres. Sequer há números oficiais sobre a enfermidade, que está há apenas dois anos na lista de doenças negligenciadas da Organização Mundial de Saúde (OMS). A moléstia acomete principalmente pessoas do sexo masculino que vivem em áreas rurais. Com raras alternativas de tratamento, os pacientes geralmente têm poucas opções além da amputação dos membros afetados. Uma esperança para o problema, porém, pode finalmente estar próxima.

Um trabalho desenvolvido pela iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) estudará pelos próximos dois anos um remédio contra a infecção, que pode afetar qualquer parte do corpo, principalmente os pés. Trata-se do fosravuconazole, fármaco com propriedades antifúngicas desenvolvida pela empresa japonesa Eisai.

O estudo, do tipo duplo-cego, envolverá 138 pessoas que moram no Sudão, na África, diagnosticadas com micetoma em estágios precoces. O trabalho comparará a eficácia do fosravuconazole com o atual tratamento padrão, o antifúngico itraconazol – medicamento ineficiente (com taxa de cura entre 25% e 37%), tóxico e com custo alto para os pacientes.

“O tratamento [com itraconazol] é extremamente caro – para alguns sudaneses pobres em áreas rurais, pode custar até metade de seus salários mensais. Pacientes recorrem a curandeiros que usam métodos tradicionais de cicatrização e há relatos de métodos dolorosos como o uso de ácido de bateria”, explica Ed Zijlstra, consultor da DNDi.

O trabalho no Sudão, no entanto, terá uma série de obstáculos. O principal deles é a verba de menos de US$ 2 milhões para o estudo – grandes empresas farmacêuticas chegam a investir mais de US$ 160 milhões no desenvolvimento de uma nova droga, de acordo com o DNDi. Outros empecilhos incluem a falta de estrutura local, como a carência de hospitais bem equipados e vias de acesso precárias aos pacientes.

Mesmo assim, caso haja resultados positivos, o medicamento deverá ser disponibilizado a preços acessíveis, segundo Zijlstra. “Ao elaborar seus projetos de P&D (pesquisa e desenvolvimento), o DNDI coloca as necessidades dos pacientes no coração de cada projeto. Os produtos devem ser acessíveis, fáceis de utilizar e utilizáveis em ambientes tropicais e de poucos recursos”, afirma.

Ate hoje, praticamente não há nenhum trabalho para o desenvolvimento de drogas contra micetoma. À exceção de alguns pesquisadores na Holanda e no Sudão, foram poucas as pesquisas sobre essa doença. “Também existe pouca informação sobre a doença – depoimentos de uma vila visitada por nossa equipe no estado de Gezira (área endêmica), no Sudão, mostrou prevalência de 4% – considerada muito alta”, diz Zijlstra.

O desenvolvimento do trabalho conta com o apoio de instituições como a Fundação Bill e Melinda Gates e do Médicos Sem Fronteiras (MSF). Você também pode contribuir com essa e outras iniciativas do DNDi clicando aqui.…