EPIMOL perde seu grande criador, líder de renome mundial no campo de doenças infecciosas e vacinologia

Publicação: 3 de novembro de 2022

Professor Lee W. Riley baseou o EPIMOL em uma disciplina que ele ministrava na Universidade da Califórnia

Uma homenagem ao Dr. Riley está prevista para o XXI EPIMOL, que deve ocorrer em conjunto com MEDTROP 2023, que será realizado em Salvador

O XX Curso Internacional de Epidemiologia Molecular em Doenças Infecciosas e Parasitárias Emergentes (EPIMOL), que foi realizado entre os dias 13 e 26 de agosto de 2022, após dois anos de atividades interrompidas por conta da pandemia de Covid-19, ficou órfão no dia 20 de outubro com a inestimável perda de um de seus criadores, Dr. Lee Riley, líder de renome mundial no campo de doenças infecciosas e vacinologia. O EPIMOL, curso que foi e continuará sendo um grande legado do Dr. Riley, terá continuidade e uma homenagem está prevista para a próxima edição, que deve ocorrer em conjunto com o 58º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP), que será realizado em Salvador (BA), em 2023. A vigésima edição do EPIMOL contou com a destacada participação do Dr. Riley.

Em mais de 44 anos de experiência na área médica, o professor Riley atuou como presidente da Divisão de Doenças Infecciosas e Vacinologia da Universidade de Michigan e concentrou sua pesquisa em doenças infecciosas de importância global, bem como doenças que são prevalentes em favelas em países em desenvolvimento. O Dr. Riley foi muito importante na formação de médicos, professores e pesquisadores e, com a sua visão de que a aquisição das habilidades e conhecimentos científicos eram necessários para atingir os objetivos de pesquisa e a sua crença na necessidade de tornar a ciência compreensível para o público, deu sua contribuição à ciência, à educação e ao treinamento de profissionais de saúde e cientistas. No Brasil, desenvolveu projetos de pesquisa em colaboração com pesquisadores nacionais para estudar doenças infecciosas e parasitárias. O professor Riley dirigiu um laboratório de pesquisa focado em: patogênese da tuberculose, desenvolvimento e diagnóstico de vacinas, patógenos bacterianos Gram-negativos resistentes a medicamentos, desenvolvimento de vacinas, anti-resistência a medicamentos, epidemiologia molecular de doenças infecciosas e saúde global visando doenças de favelas urbanas.

A Dra. Ethel Maciel, presidente da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose REDE-TB, destaca que o Dr. Riley teve uma importância muito grande para muitos cientistas brasileiros, sendo responsável pela formação de vários durante os últimos vinte anos, em que colaborou de forma intensa com as universidades no País. “Fui influenciada e agraciada pela possibilidade de fazer um pós-doutorado com ele na Faculdade de Saúde Pública, na universidade da Califórnia, em Berkeley. Nesses últimos dez anos colaborei com ele em diversos artigos e muitas pesquisas. Ele foi especialmente muito importante na consolidação da minha carreira científica no Brasil”, acrescenta a epidemiologista e professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

O presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), Dr. Julio Croda, lembra que a história do Dr. Riley com o Brasil é de décadas. Ele trabalhou no País por muitos anos, contribuindo muito na parte de resistência microbiana e também na parte de tuberculose e doenças em populações vulneráveis. A partir de 1996 estabeleceu com diversos pesquisadores brasileiros colaboração forte e efetiva de troca de conhecimento, de financiamento de projetos e artigos contínuos entre Berkeley e outras instituições brasileiras. “O Dr. Riley marcou a minha vida, foi fundamental para a minha primeira experiência nos Estados Unidos, em 1999, quando tive a oportunidade de passar três meses em seu laboratório sequenciando uma nova proteína para leptospirose, identificada através de triagem com soro de pacientes de Salvador (BA) que tiveram a doença”, enfatiza o médico infectologista e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Ainda segundo o Dr. Croda, o sequenciamento dessa proteína permitiu que ela fosse testada tanto para diagnóstico quanto para vacina, e atualmente é utilizada no teste rápido para leptospirose produzido pela Bio-Manguinhos/Fiocruz. “O Dr. Riley faz parte dessa patente, faz parte da minha história e faz parte da história de dezenas de alunos que fizeram o estágio com ele”, diz.

O Dr. Alberto Ko, que também ajudou na criação do EPIMOL, assinala que o Dr. Riley foi um companheiro da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em todos os sentidos, como um líder e colaborador que criou com seus colegas brasileiros novos paradigmas nas pesquisas da saúde pública, como mentor de um número grande de alunos e jovens cientistas em Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e muitos outros locais no País, e como um amigo sensível e carinhoso. “Ele deixou um impacto enorme nas vidas de seus colegas e futuras gerações de jovens na Fiocruz. Vamos sentir sua falta”, lamenta o Raj e Indra Nooyi Professor da Saúde Pública da Yale School of Public Health e pesquisador colaborador do Instituto Gonçalo Moniz Fiocruz.

O Dr. José Roberto Lapa e Silva, membro da Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose REDE-TB, lamentou imensamente a perda do amigo e colega, que segundo ele, foi uma das pessoas mais importantes para a construção de um grupo de pesquisa no Brasil e nas doenças prevalentes e reconheceu o importante trabalho desenvolvido na área de tuberculose e em outras doenças infecciosas, como infecções hospitalares com diversos grupos. “Ele foi uma pessoa extremamente importante e nos ajudou desde 1994, quando fizemos as primeiras atividades relacionadas à tuberculose e montagem de um grupo muito sólido hoje de pesquisa nessa área e especialmente na capacitação para pesquisa, sendo um dos investigadores principais de um projeto de capacitação em pesquisa na área de TB/AIDS, que durou 12 anos, sendo responsável por mais de 2.500 atividades de capacitação. E uma perda irreparável, exatamente no momento em que precisamos de tanto apoio para manter viva a chama da pesquisa no Brasil, diante dos inúmeros problemas que temos enfrentado ultimamente”, lastimou o médico pneumologista e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Após a triste notícia de seu falecimento, imediatamente se criou uma rede internacional de solidariedade e apoio, que já conta com centenas de pessoas. “Isso emocionantemente demonstra como uma pessoa, ao longo de suas quatro décadas ou mais de atividade, foi capaz de tocar tanta gente pelo mundo afora. Essa solidariedade se traduziu com muitas fotos em que o Dr. Riley aparece durante seus trabalhos, suas aulas, mas também em momentos de lazer e de confraternização que ele sempre pontificou. Esperamos que esse grupo de solidariedade que se montou possa perpetuar o seu legado”, complementa o Dr. Lapa. Para acessar o Lee Riley Memorial Gallery, clique no link: https://photos.app.goo.gl/riWyVN3FhMyATj6p8. Para gravar sua história, homenagem ou memórias, clique no link: (https://www.videoask.com/fjmb4s1wr) e siga as instruções.

O professor Riley também estudou cepas de Escherichia coli resistentes a antibióticos. Escherichia coli O157:H7—Clinical aspects and novel treatment approaches. A O157:H7, tipo de infecção por E. coli, que leva a falência renal aguda e hemólise, foi descoberta pelo Dr. Riley. Confira a matéria publicada em 2019 no The New York Times.

Sobre o EPIMOL

A primeira edição ocorreu em 2001, por iniciativa dos pesquisadores Dr. Mitermayer Galvão dos Reis e Dr. Lee W. Riley, que baseou o curso em uma disciplina que ele ministrava na Universidade da Califórnia. O curso, realizado pelo Instituto Gonçalo Moniz (IGM/ Fiocruz Bahia), inspirou outras versões levadas pelos pesquisadores ao Paraguai, Portugal e Rio de Janeiro, realizado em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal Fluminense (UFF).

O EPIMOL iniciou com foco em doenças infecciosas e bacterianas, seguido pelas arboviroses, como Zika e Chikungunya, pela Influenza e, em 2022, a atenção foi dedicada a Covid-19. O curso foca ainda no estudo da resistência antimicrobiana, classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2017, como o maior desafio da humanidade.

O curso é uma disciplina obrigatória para os alunos de pós-graduação em Biotecnologia em Saúde e Medicina Investigativa (PgBSMI). Com o tempo, passou a ser integrado ao ensino de outros cursos de pós-graduação e os créditos de participação no evento podem ser reaproveitados pelos discentes.