Epidemia cruzada: em meio à apreensão com o coronavírus, autoridades alertam para o aumento de casos de dengue

Publicação: 11 de março de 2020

Os números de casos de dengue no país devem crescer, já que o pico da epidemia acontece entre os meses de março e maio

Apesar de acometerem a população no mesmo período, a dengue e o coronavírus têm mecanismos completamente diferentes de contágio

Enquanto o Brasil envida esforços para se prevenir de uma possível epidemia do coronavírus, o País vive um estado de alerta pelo surto de uma doença tropical velha conhecida: a dengue. Dados do mais recente boletim epidemiológico do Ministério da Saúde mostram que o número de casos prováveis da doença, aqueles que são notificados pelos estados, cresceu 19% nas cinco primeiras semanas de 2020 em comparação com o mesmo período de 2019. Entre 29 de dezembro e 01 de fevereiro foram notificados 94.149 casos prováveis, enquanto no mesmo período do ano passado foram contabilizados 79.131. Em 2019 foram registrados cerca de 2.242 milhões de casos da doença. Acre, Mato Grosso do Sul e Paraná são os estados com situação mais preocupante até o momento. O avanço de casos é comum no início do ano por conta das chuvas, que aumentaram nas últimas semanas. A diferença deste momento é que vivemos um novo surto da doença, algo que historicamente acontece entre dois e três anos por conta da recirculação de novos tipos de vírus.

Enquanto pessoas dirigem o próprio carro, sozinhas, com máscara, vidros fechados, ar condicionado ligado, se protegendo de si mesmas, o cruel Aedes aegypti continua voando livre, leve e solto espalhando a doença. E os casos devem continuar a crescer, já que o pico da epidemia acontece entre os meses de março e maio. Só neste início de 2020 ao menos 14 pessoas morreram. O Brasil, atualmente, tem em média 44 casos de dengue para cada 100 mil habitantes, um aumento de 70% em relação ao ano passado. O que preocupa as autoridades de saúde é a existência de um novo subtipo do vírus – tipo 2, que ocasiona a dengue hemorrágica, que é letal. O Brasil ocupa o primeiro lugar em casos de dengue nas Américas. Quando a pauta é saúde ambiental, o Brasil parece trilhar uma linha tênue e perigosa, nos quesitos precaução, prevenção e efetividade.

Na opinião do professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o virologista Gúbio Soares, um pânico exagerado e desnecessário foi criado em cima do coronavírus. A principal preocupação do pesquisador, agora, é de que a atenção para o coronavírus cause um surto de dengue. “Um grande erro está sendo cometido. Estamos em pleno crescimento do surto de dengue em Salvador. Chikungunya está crescendo na Bahia e Zika também, temos inclusive um surto em Periperi, situado no Subúrbio Ferroviário de Salvador, de uma doença misteriosa. A campanha de dengue está esquecida, em pleno verão. E não vemos uma campanha efetiva. Isso é um perigo, pois poderemos ter muitas mortes no Brasil”, alerta. Ainda segundo ele, o combate ao coronavírus, junto com a dengue, exigirá muito do Sistema Único de Saúde (SUS). “Vai ter um custo alto no controle e na prevenção e para isso o governo deverá investir mais recursos para controle e prevenção destas enfermidades”, enfatiza.

O professor de infectologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Dr. Unaí Tupinambás alerta para o risco real de ocorrer as duas epidemias no Brasil ao lembrar que a entrada do outono reduz os casos de arboviroses e aumenta o risco de doenças respiratórias. Segundo ele, caso tenhamos epidemia do coronavirus o seu controle passará obrigatoriamente pela Atenção Básica, uma vez que mais de 80% dos casos são brandos. Os profissionais da Estratégia Saúde da Família (ESF) do Ministério da Saúde serão os primeiros a ‘entrar em campo e os últimos a sair’. “Neste momento de desmonte destas equipes, bem como com redução do financiamento na Saúde – para se ter uma ideia a Saúde deixou de receber R$ 9 bilhões de reais em 2019 – o combate ao coronavírus, junto com a dengue, demandará um SUS forte. O enfrentamento passa obrigatoriamente por ele, mesmo ameaçado pela redução de investimentos e do programa de saúde da família. Essas questões todas se somam à Emenda Constitucional 95, que estabeleceu o teto de gastos públicos”, ressalta. De acordo com o professor, para o enfrentamento deste vírus emergente teremos que repensar no financiamento do SUS, caso contrário nosso enfrentamento corre o risco de ser muito aquém do necessário para a contenção e o cuidado das pessoas acometidas.

Riscos de epidemia cruzada à saúde pública

Doutor em Estatística e Pesquisador do Programa de Computação Científica (PROCC) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, Leonardo Bastos explica que a epidemia cruzada seria um grande problema para o serviço de saúde, principalmente com um aumento de casos graves das duas enfermidades. “Em termos de comparação podemos observar o registro das internações por Influenza e dengue do SIH/SUS no gráfico abaixo onde notamos que o volume de casos de Influenza é menor que o de dengue, e no nível nacional não chegamos a ter um cenário de epidemia cruzada. Somente em 2009, com a chegada do H1N, tivemos um grande número de casos de Influenza, possivelmente relacionados com a chegada do H1N1, mas a epidemia não coincidiu com a epidemia de dengue daquele período”, pondera.

Número de intenções por dengue (dengue grave + dengue hemorrágica) e internações por Influenza, por mês: janeiro de 2008 até dezembro de 2019. Gráfico elaborado pelo Dr. Leonardo Bastos a partir de dados do Datasus (http://datasus.saude.gov.br/acesso-a-informacao/morbidade-hospitalar-do-sus-sih-sus/)

Ainda de acordo com o Dr. Leonardo, usualmente a epidemia de gripe ocorre no inverno enquanto o pico da epidemia de dengue e outras doenças transmitidas pelo Aedes acontecem no final do verão / início da primavera. Portanto, se o novo coronavírus se comportar como a Influenza sazonal, então a epidemia desse ano não deve coincidir com a da dengue. Outro problema, segundo ele, a ser considerado no caso das duas epidemias acontecerem ao mesmo tempo seria a falta de conhecimento a respeito dos efeitos da co-infecção entre as arboviroses e o coronavírus.

A tendência para a dengue é ter uma escalada no número de casos, as arboviroses têm uma forte dependência do clima, uma vez que o ciclo de transmissão depende de certa combinação entre temperatura, umidade e precipitação. Então podemos observar nas próximas semanas um aumento significativo nos casos de arboviroses. “Quanto ao coronavírus, podemos ver um aumento de casos importados e, possivelmente, alguns casos autóctones, mas se ele se comportar como outros vírus da gripe, diria que não iremos observar números altos, principalmente em termos relativos quando comparados aos números da dengue”. Por outro lado, se uma possível epidemia do coronavírus se comportar como a epidemia de H1N1, então teremos uma explosão de casos no final da primavera / começo do inverno podendo coincidir com o final da epidemia de gripe”, assinala o pesquisador da Fiocruz.

Membro da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), Diretor da Sociedade Mineira de Infectologia (SMI) e Relações Internacionais da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), o Dr. Carlos Starling é categórico ao afirmar que existe sim o risco do acúmulo de casos de dengue, coronavírus e Influenza nos próximos meses. Ele descreve que o pico da dengue ocorre de fato entre abril e maio, época em que devemos ter mais casos de coronavirus, que está chegando agora e cada pessoa pode transmiti-lo para outras duas ou três, e isso vai ocorrer no período de maior incidência da dengue, entre março e maio, quando há mais infestação do Aedes aegypti. “Neste período também começam os casos de Influenza. O que nos alenta é que o governo está adiantando corretamente a vacinação para o final de março”, aponta. Vale lembrar que para dengue também existe vacina específica para pessoas que já tiveram a doença, além das medidas de contenção do Aedes. Já em relação ao coronavírus, temos apenas as medidas de prevenção, de contenção e de higiene pessoal e coletiva. “Mas o risco de uma coincidência de fato existe, o que pode levar à sobrecarga do sistema de saúde. Podemos ter um problema agravando o outro, congestionando o sistema de saúde”, atenta.

O risco, talvez mais do que a epidemia em si, é de que o pânico da população possa levar a uma corrida desnecessária e uma sobrecarga do sistema. De acordo com o Dr. Starling, a arma mais poderosa para evitar o pânico e o stress da população em relação a esses problemas que podemos enfrentar é a informação. Ele reforça a necessidade de manter a divulgação de informações, a comunicação transparente, além da adoção de medidas de orientação para o tratamento domiciliar dos casos, principalmente de coronavírus, que não necessitem internações. “Quanto menos as pessoas permanecerem dentro de hospitais em pronto atendimento menor é o risco de transmissão e de causar um problema que nos preocupa muito que são as infecções em profissionais de saúde, que causa muito absenteísmo, e acaba por sobrecarregar ainda mais o sistema”, diz. Outra medida sugerida é monitorar os pacientes cada vez mais no domicílio, com orientação e contato fluído do sistema de saúde, fazendo uso da tecnologia, como por exemplo, do WhatsApp, o que pode dar mais tranquilidade às pessoas. “Apesar de ser uma situação nova é algo que vamos ter que aprender a fazer”, reconhece. Outra preocupação mencionada pelo Dr. Starling diz respeito às pessoas com menor poder aquisitivo, as quais devem fazer maior uso dos serviços gratuitos oferecidos pelo SUS. “Será que ele terá estrutura para assistir a todas essas pessoas que precisarem e, principalmente, para monitorá-las em casa, considerando que e o número será bastante expressivo”, questiona.

Epidemias passadas mostram que o coronavírus deve ser controlado. Pânico não ajuda a resolver um problema de saúde coletiva. Mas se não tivermos um sistema de saúde muito fortalecido, vamos ter uma dificuldade enorme para conter essa epidemia nova e as velhas já conhecidas.

Brasil amplia diagnóstico para o coronavírus

O Ministério da Saúde vai ampliar a capacidade laboratorial para diagnóstico do coronavírus em todo o território nacional com a distribuição de 30 mil kits para teste diagnóstico (protocolo de Berlim) específico para o COVID-19. Depois, gradativamente, serão ampliados para todos os 27 Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENs) do País. O anúncio foi feito no dia 02 de março pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Inicialmente, serão distribuídos 10 mil kits de diagnóstico aos LACENs dos estados do Amazonas, Pará, Roraima, Bahia, Ceará, Pernambuco, Sergipe, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, contemplando todas as regiões do País. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, por meio do laboratório de Biomanguinhos, iniciou a produção e distribuição dos testes no dia 04 de março.

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson de Oliveira, destacou que a Pasta vai capacitar todos os laboratórios centrais do País para aumentar a vigilância para a doença. “Esses estados serão os primeiros que passarão a realizar os testes e, dentro de 20 dias, teremos todos os laboratórios centrais do Brasil realizando o teste específico. Temos que ampliar a vigilância. Estamos capacitando os estados e, desta forma, teremos mais capacidade de realizar os testes. Estamos ampliando principalmente porque estamos entrando no período de sazonalidade das doenças respiratórias”, concluiu o secretário.

Atualmente, quatro laboratórios realizam o teste para diagnóstico do coronavírus: laboratórios de referência nacional, Fiocruz, no Rio de Janeiro, Instituto Evandro Chagas (IEC), no Pará, e Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, além do Laboratório Central de Goiás, que foi capacitado para realização do exame específico para coronavírus dos brasileiros repatriados da China que ficaram na base aérea de Anápolis (GO). A expectativa é que os laboratórios que receberem os kits já estejam preparados para iniciar o processo de diagnóstico para o coronavírus em até 20 dias. Além do teste diagnóstico do protocolo de Berlim, o laboratório de Biomaguinhos também dará início à produção de 3 mil testes do protocolo CDC, que serão utilizados apenas como contraprova. Além disso, os profissionais desses laboratórios também serão treinados por equipes da Fiocruz e IEC, para a realização do procedimento de forma qualificada. Os treinamentos serão in loco a partir da chegada dos kits nos estados.

Para manter a população informada a respeito do novo coronavírus, o Ministério da Saúde atualiza diariamente, os dados na Plataforma IVIS, com números de casos descartados e suspeitos, além das definições desses casos e eventuais mudanças que ocorrerem em relação à situação epidemiológica.