Envenenamento por picada de cobra: mais mortal das DTN

Publicação: 10 de abril de 2022

Estima-se que ocorrem cerca de 5,4 milhões de acidentes ofídicos por ano no mundo

A cada hora cerca de 15 pessoas morrem no mundo devido ao envenenamento por picada de cobra, a mais mortal doença tropical negligenciada, que afeta sobretudo os mais pobres

As picadas de cobras são um problema de saúde pública negligenciado em muitos países tropicais e subtropicais. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada ano ocorrem cerca de 5,4 milhões de acidentes ofídicos, causando entre 1,8 e 2,7 milhões de casos de envenenamento, dos quais entre 81 e 137 mil resultam em mortes e aproximadamente três vezes mais levam a amputações e outras incapacidades permanentes. O envenenamento por mordida de cobra, leishmaniose e tripanossomíase africana estão entre as Doenças Tropicais Negligenciadas (DTN) que causam mais mortes em todo o mundo. Embora evitável, a morte por mordida de cobra precisa de uma resposta rápida, mas infelizmente para a maioria das vítimas, o acesso aos cuidados é muito difícil. Além disso, há fatores socioeconômicos e culturais que influenciam na busca por tratamento e fazem com que muitas vítimas optem por práticas tradicionais em vez de recorrerem ao atendimento hospitalar. A maioria dos casos ocorre na África, Ásia e América Latina. Na Ásia, até dois milhões de pessoas são envenenadas a cada ano, enquanto na África há uma estimativa de 435 mil a 580 mil que precisam de tratamento anualmente. Os acidentes tendem a ocorrer em mulheres, crianças e trabalhadores rurais de comunidades pobres em países de baixa e média renda, com sistemas de saúde precários e poucos recursos médicos. Os efeitos são geralmente mais graves em crianças, que têm menos massa corporal.

O Professor Emérito do Instituto Clodomiro Picado e da Faculdade de Microbiologia da Universidade da Costa Rica, Dr. José María Gutiérrez admite que o envenenamento por serpentes é um relevante problema de saúde pública no país, assim como no restante da América Central. Segundo ele, na Costa Rica, ocorrem cerca de 500 casos de acidentes ofídicos por ano, o que corresponde a uma incidência de 10 casos por 100.000 habitantes. Entre eles, entre uma e quatro pessoas morrem anualmente como consequência desses envenenamentos. “Um número desconhecido de pessoas ainda desenvolve sequelas físicas e psicológicas, aspecto que precisa ser mais estudado e gerenciado. Grande parte dos casos ocorre nas planícies úmidas do Pacífico Sul, Caribe e regiões do norte do país, afetando predominantemente os trabalhadores de saúde rurais”, acrescenta. A maioria dos acidentes, e os mais graves, são causados pela espécie de viperídeo Bothrops asper, conhecida localmente como terciopelo.

O Dr. Abdulrazaq Habib, médico de doenças infecciosas e tropicais e epidemiologista da Universidade Bayero, Kano, Nigéria, reconhece que na África Ocidental a picada de cobra também é um grande problema médico, responsável por substancial morbidade, mortalidade e carga de saúde pública. “Na sub-região, estima-se que cerca de 5 mil pessoas morrem anualmente dela. A carga é maior na savana da Nigéria, Gana, Burkina Faso, Camarões, Costa do Marfim e Níger. Os outros países também relatam morbidade e mortalidade”, frisa. Ainda segundo ele, o tema foi negligenciado e não teve recursos proporcionais alocados para o seu controle, apesar de representar uma carga modestamente alta na sub-região da África Ocidental. “Os governos da África Ocidental não responderam ao problema. Embora existam prioridades concorrentes nesses países, os recursos alocados permanecem excessivamente pequenos quando comparados a outras doenças com similar ou até mesmo menor peso, por exemplo, úlcera de Buruli, infecções por nematoides intestinais, leishmaniose, oncocerquíase, tracoma e tripanossomíase”, lamenta o Dr. Abdulrazaq ao complementar que o financiamento é um grande desafio e deve ser substancialmente aumentado para melhorar o cuidado e a pesquisa. Em 2020, um estudo publicado na PLoS Neglected Tropical Disease, tendo o Dr. Abdulrazaq como autor principal, revelou que a Nigéria precisaria gastar cerca de 63 vezes mais em medicamentos para picada de cobra, enquanto Burkina Faso precisaria aumentar seus gastos em mais de 11 vezes para atingir as metas acordadas pela OMS.

No Nepal, segundo o Dr. Sanjib Kumar Sharma, Professor de Medicina Interna do Instituto B. P. Koirala de Ciências da Saúde (BPKIHS, na sigla em inglês), em Dharan, e especialista em picadas de cobras, devido à alta densidade de pessoas e de cobras que vivem nas planícies de Terai, no Nepal, esse encontro leva à ocorrência frequente de picadas. Além disso, o hábito de dormir no chão também predispõe os moradores a acidentes noturnos. Existem várias espécies de cobras altamente venenosas no Terai, como Naja naja (cobra comum), Ophiophagus hannah (cobra real), Bungarus caeruleus (krait indiano comum), Bungarus fasciatus (krait bandado) e Daboia russelii (víbora de Russell, restrita ao oeste do Nepal).

Embora os incidentes por picadas de cobra e mortes resultantes sejam comuns no Nepal, a questão ainda permaneça grosseiramente negligenciada e os especialistas chamam de crise invisível à espreita. A subnotificação é um problema comum. Para se ter uma ideia, dados do Ministério da Saúde e População mostram apenas cerca de 20 mil internações anuais e mil mortes causadas por picadas de cobras, enquanto o artigo publicado em março intitulado Snakebite epidemiology in humans and domestic animals across the Terai region in Nepal: a multicluster random survey  revela uma taxa de incidência ajustada muito alta de picada (251 por 100.000), envenenamento (49%) e letalidade (7,8%). “Entre as vítimas, mulheres e crianças representaram 3/4 das mortes. Isso extrapola para 26.749–37.661 pessoas mordidas e 2.386–3.225 mortes a cada ano – muito mais do que o estimado anteriormente”, diz o Dr. Sharma. Ainda segundo ele, a extensão das amputações, cirurgias e sequelas incapacitantes é impressionante. “A alta frequência de sintomas psicológicos relatados, como ansiedade ou medo de retornar ao local do acidente, evidencia a necessidade de apoio em saúde mental”, completa ao sublinhar que a picada de cobra, certamente é a mais mortal das DTN, e um importante contribuinte para a mortalidade, saúde física e mental no Nepal, como observado neste estudo epidemiológico, o primeiro sobre o tema realizado no país que abrangeu todo o Terai rural e aplicou uma metodologia original que incluiu a abordagem One Health.

No Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, em 2020, foram registrados nos sistemas oficiais 31.395 acidentes com serpentes, dos quais 121 levaram as vítimas ao óbito. A jararaca é responsável por 70% dos acidentes; seguida da cascavel, cerca de 9%; surucucu 1,5%; e coral verdadeira com menos de 1% dos registros. Grande parte desses acidentes incidem em grupos de maior risco, como trabalhadores rurais e populações indígenas. O País se destaca pelos acidentes ofídicos, principalmente na região amazônica. Para se ter uma ideia, em 2016, das 26.244 notificações do tipo, mais de 8,6 mil foram em estados do Norte, segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde (Sinan/MS). Atualmente são cerca de 30 mil acidentes registrados por ano, sendo que esse número deve ser maior, uma vez que muitos casos não são notificados. Alguns estudos realizados na Amazônia demonstraram a existência de subnotificações, em especial em comunidades mais distantes dos centros urbanos onde se concentram as populações mais vulneráveis e o acidente ofídico é relativamente algo mais frequente. No Rio Grande do Sul, o número de acidentes registrados com cascavel aumentou significativamente e a região Serrana do Rio de Janeiro tem enfrentado uma infestação por cobras, entre elas, a cascavel.

O professor do Centro Multidisciplinar, campus Floresta da Universidade Federal do Acre (Ufac), Dr. Paulo Sérgio Bernarde, enfatiza que em meio às diferentes facetas que o acidente ofídico pode demonstrar em cada região, é fundamental que a existência de populações “invisíveis” que vivem em comunidades relativamente mais distantes e onde o acidente é um perigo constante, tenham atenção especial para resolução da problemática. “Essas populações consideradas invisíveis precisam entrar para as estatísticas epidemiológicas para que a dimensão do problema seja oficialmente notada pelos programas de Saúde dos governos. Cabe aqui melhorias nos censos demográficos e nas coletas de dados epidemiológicos nessas regiões onde ocorrem essas falhas. Dessa forma as autoridades podem ser cobradas em relação às necessidades desse público”, defende o pesquisador.

Falta de dados

Os dados epidemiológicos sobre acidentes ofídicos são escassos. No Ceará, por exemplo, o único relatório sobre o assunto foi publicado pela última vez em 1997. No entanto, de acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), mais de 13 mil acidentes ofídicos foram registrados desde 2001 no estado. Um estudo inédito, que teve como objetivo incentivar a implementação de políticas públicas, realizado por um grupo de cinco pesquisadores autônomos, brasileiros, africanos e norte-americanos, publicado na revista The International Journal of Health Planning and Management, intitulado Drought, desertification and poverty: A geospatial analysis of snakebite envenoming in the Caatinga biome of Brazil revelou que as picadas de cobra na Caatinga brasileira ocorrem predominantes em áreas de baixa renda, com acesso limitado a hospitais e a medicamentos, assim como também acontece em áreas rurais da África Subsaariana, consideradas regiões negligenciadas. O estudo comparou dados públicos sobre acidentes ofídicos do Sistema Brasileiro de Vigilância Epidemiológica (Datasus), registros pluviométricos, mapas avançados de desertificação, pastagens e informações socioeconômicas dos 184 municípios cearenses entre 2001 e 2017. Durante o período de investigação, foram registrados 8.945 acidentes ofídicos, a maioria (93,8%) envolvendo serpentes peçonhentas.

Outro estudo publicado recentemente na revista científica on-line Plos One aponta que, em grande parte dos municípios brasileiros onde há maior risco de picadas de cobra, o tempo para se obter o soro antiofídico pode ser fatal. O artigo Geographical accessibility to the supply of antiophidic sera in Brazil: Timely access possibilities traz informações sobre a possibilidade de se chegar às unidades de saúde provedoras de soro antiofídico a partir da relação entre distribuição populacional e tempo de deslocamento, considerando que o tempo estimado ideal para a aplicação seria de até duas horas após a picada. O levantamento cruzou dados populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com informações do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox/Icict/Fiocruz) e Sinan, além de usar sistemas como Google Maps e Google Street View, e até mesmo o NASA’s SRTM – Shuttle Radar Topography Mission.

O Dr. Sharma atenta ainda que a carga global de envenenamento por picada de cobra em animais era totalmente desconhecida antes do estudo publicado em março. “Encontramos uma alta incidência (42-202/100.000/ano) e mortalidade (79-100%) em vários tipos de animais, principalmente aves, bovinos e caprinos. Como o Nepal é predominantemente agrícola, com 80% da sua população que depende dessa atividade para subsistência, as perdas de seus animais impacta e aumenta o fardo da picada em humanos”, assinala.

Em 2004, a Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene (ASTMH, na sigla em inglês) publicou o relatório Impact of snake bites and determinants of fatal outcomes in southeastern Nepal no qual destacou que dados confiáveis sobre morbidade e mortalidade por picada de cobra eram escassos devido à falta de pesquisas comunitárias. Ainda segundo o documento, o sistema de notificação existente de picada de cobra no Nepal depende de dados hospitalares que provavelmente subestimam grosseiramente tanto a incidência quanto a mortalidade, como mostrado em outros lugares.

Em muitos países onde as picadas de cobra são comuns, os sistemas de saúde geralmente carecem de infraestrutura e recursos para coletar dados estatísticos confiáveis sobre o problema. Avaliar o verdadeiro impacto é ainda mais complicado pelo fato de que os casos relatados por clínicas e hospitais aos ministérios da saúde muitas vezes representam apenas uma pequena parte do problema real, já que muitas vítimas nunca chegam aos departamentos de saúde. Como visto, os acidentes acometem principalmente pessoas que vivem na área rural e em florestas de regiões relativamente mais pobres, muitas vezes não sendo vistas pelos sistemas de Saúde e também pelas políticas públicas de uma forma geral.

Baixa produção de antídotos

Um estudo de 2010 estimou que apenas 2% de pessoas mordidas por cobras venenosas na África subsariana teve acesso a antídotos de qualidade, e pouco mudou desde então. Em situações em que os dados sobre envenenamentos por picada de cobra são escassos, é difícil determinar com precisão as necessidades de soro antiofídico. Isso leva as autoridades sanitárias nacionais a subestimar essas necessidades, com a consequente redução da demanda por fabricantes de antídotos e, em alguns casos, sua retirada do mercado.

A baixa demanda levou vários fabricantes a pararem a produção e o preço de aumentou drasticamente nos últimos 20 anos, tornando o tratamento inacessível para a maioria das pessoas que precisam. O aumento dos preços reduziu ainda mais a demanda, a ponto de o tratamento ter diminuído significativamente, ou até mesmo desaparecido, em algumas áreas. A introdução de antídotos inadequados, não testados ou mesmo falsificados em alguns mercados minou a confiança geral no tratamento. Muitos acreditam que um colapso no fornecimento de antídotos na África e em alguns países asiáticos é iminente se uma ação forte e decisiva não for tomada rapidamente.

“Sendo predominantemente uma doença dos pobres, o enfrentamento dos acidentes ofídicos em âmbito global e regional deve se basear em uma filosofia de integração, cooperação e solidariedade, longe da filosofia lucrativa, nacionalista e individualista que, infelizmente, muitas vezes prevalece na arena global. A cooperação entre países e regiões, incluindo países do Sul Global, é de suma relevância”, assegura o Dr. Gutiérrez, ao citar como exemplo a Rede de Laboratórios Públicos de Fabricação de Antivenenos (RELAPA) que existe na América Latina, e o fomento de redes de pesquisa e a integração de iniciativas comunitárias que estão sendo desenvolvidas em muitos países. “Esforços coordenados regionais e globais devem ser promovidos e fortalecidos, com a participação do maior número possível de interessados, a fim de reduzir o sofrimento e o desespero humanos causados pelos acidentes ofídicos”, aconselha.

Na opinião do Dr. Sharma, como a produção de soro antiofídico é impulsionada pelo mercado e ele é limitado, uma vez que a picada de cobra ocorre na população rural financeiramente desfavorecida, é provável que as farmacêuticas não estejam suficientemente motivadas para investir em P&D e na produção de antiofídicos. Para ele, o envolvimento de organizações de desenvolvimento e filantrópicas provavelmente pode mudar o cenário e há indicações nessa linha. Todas as partes interessadas devem se apresentar para ser a voz dos sem voz, ou seja, as vítimas de picada de cobra.

Para o Dr. Bernarde, a falta de atenção dos governos se reflete na falta de voz política dessas populações e da indústria farmacêutica por priorizar, muitas vezes, doenças presentes em populações de países mais ricos, que possibilita maior lucro de seus investimentos em pesquisas. “O acidente ofídico não é um agravo à saúde que possa ser erradicado, pode apenas ter diversas ações que podem contribuir para o seu controle e melhor desfecho dos casos de envenenamento. Para mudar esse cenário é necessário criar ações de conscientização nessas populações mais vulneráveis e implementar medidas que possam facilitar o acesso das vítimas a um tratamento com qualidade capaz de reverter o quadro clínico do envenenamento”, lembra.

Exemplo de política pública

Desde o século XX, a Costa Rica desenvolve esforços sustentados na prevenção e controle de acidentes ofídicos. O Instituto Clodomiro Picado, produz todos os antídotos necessários ao país. Além disso, o país possui um sistema de saúde pública robusto que fornece soro e tratamento médico gratuito a todas as pessoas que sofrem picadas de cobra. A experiência adquirida nas últimas décadas está sendo projetada regional e globalmente para apoiar outros países da América Latina e da África Subsaariana no enfrentamento dessa DTN. O Dr. Gutiérrez explica que historicamente o país tem enfrentado o problema por meio de uma estratégia nacional pública integrada e concertada que envolve a produção local de soros e sua distribuição em todos os níveis do sistema de saúde, fortalecimento do sistema público de saúde que tem cobertura universal, capacitação de médicos e profissionais de enfermagem para o diagnóstico e manejo dos acidentes e  desenvolvimento de agenda ativa de pesquisa científica e tecnológica. Também são realizados programas permanentes de prevenção em grupos vulneráveis, incluindo comunidades indígenas, com o envolvimento ativo de organizações locais. Mais recentemente, uma nova legislação foi editada no país para oferecer suporte indenizatório e de reabilitação aos trabalhadores rurais acometidos pelas sequelas dessa doença. Assim, a Costa Rica construiu uma forte plataforma para estudar, prevenir e tratar o envenenamento por picada de cobra.

Outro exemplo vem do Nepal. Segundo o Dr. Sharma, que também é membro do Grupo de Trabalho em Acidentes Ofídicos da OMS e faz parte da diretoria da Iniciativa Global em Acidentes Ofídicos, o governo sempre deu prioridade à picada de cobra, sendo o primeiro país na região a fornecer soro antiofídico gratuito às vítimas desde 1999. Além disso, a seção de Epidemiologia e Controle de Doenças também realiza treinamento regular para profissionais de saúde em manejo de picada de cobra. “Temos nossa própria Diretriz Nacional baseada em evidências sobre manejo de picada de cobra, o que geralmente é feito em colaboração com o escritório nacional da OMS. Porém, o Nepal não produz soro antiofídico e depende da produção na Índia. Mas o mais importante, nossos dados baseados em campo podem ajudar a desenvolver estratégias intersetoriais sobre o envenenamento por picada de cobra, incluindo interações no Nepal entre Ministérios da Saúde e População, Agricultura e Desenvolvimento Pecuário, Florestas e Meio Ambiente e agências correspondentes da ONU (por exemplo, OMS, UNICEF, FAO, PNUMA). As perdas de animais devido a picada de cobra aumentam esse fardo em humanos e exigem ações intersetoriais da One Health”, conclui.

Brasil como referência na produção de soros antiofídicos

Antes da criação do soro antiofídico no País por Vital Brazil em 1901, a letalidade dos envenenamentos por serpentes era de 25%. Essa taxa reduziu ao passar dos anos com a ampliação da produção e distribuição do antiveneno no Brasil, tendo atualmente uma letalidade de aproximadamente 0,4%. Para o Dr. Bernarde, mesmo tendo aspectos a serem melhorados, como a demanda de soro ser devidamente atendida e eficientemente distribuída para estar disponível de forma suficiente tanto espacialmente como sazonalmente, podemos dizer que o Brasil é um exemplo em lidar com o ofidismo. Entretanto, para o pesquisador, apesar de o Brasil ser considerado um exemplo, ainda há muitos aspectos que podem e precisam ser melhorados. “Aparentemente a produção de soro pode não ser suficiente para atender a demanda nacional, ou então, algo não está sendo suficiente em relação a distribuição nas unidades hospitalares, uma vez que é comum a falta de ampolas em determinadas localidades ao longo do ano”, avalia. O pesquisador lembra ainda que muitas comunidades na Amazônia não apresentam energia elétrica e condições assim ideais para manutenção dos soros, que precisam estar devidamente refrigerados para serem utilizados. Nesses casos, a produção de soro liofilizado poderia contornar o problema. “Um grupo de trabalho do Ministério da Saúde poderia reavaliar esses aspectos que podem e devem ser melhorados para que todo o processo, que vai desde a produção, disponibilização e alcance da população, até a devida aplicação”, sugere.

O Instituto Butantan é o maior produtor e entrega 275 mil frascos-ampola de antiveneno ao Ministério da Saúde anualmente para distribuição aos estados e municípios. Agora, uma parceria entre o Instituto e a Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado da Universidade do Estado do Amazonas (FMT/UEA) pretende aumentar o acesso de indígenas, ribeirinhos, agricultores e outros moradores de áreas remotas da Amazônia ao tratamento. Por meio da parceria, foram doados 800 frascos de soro antiveneno de serpente para serem usados em unidades de baixa complexidade, destes, antibotrópico (pentavalente) e 100 antibotrópico (pentavalente) e antilaquético, indicados contra picadas das serpentes peçonhentas que mais protagonizam acidentes do tipo na Região Amazônica. O local registra cinco vezes mais acidentes do que no resto do País, porém os hospitais habilitados para aplicação do soro antiofídico ficam geralmente em áreas urbanas, a quilômetros de distância da zona rural e de floresta.

Desafio local e global

O Dr. Gutiérrez reforça que por ser uma “doença dos pobres”, historicamente, e com poucas exceções notáveis, a picada de cobra não recebeu a atenção que merece. Para ele, isso se reflete no baixo perfil desse tema nas agendas globais de pesquisa, indústria farmacêutica internacional e autoridades de saúde pública. “Felizmente, esta situação começou a mudar na última década devido aos esforços conjuntos de muitas pessoas e organizações em todo o mundo, que têm defendido maior atenção a esta doença. Como consequência dessas iniciativas, a OMS incluiu o envenenamento ofídico em sua lista de DTN em 2017, uma resolução sobre o assunto foi adotada pela Assembleia Mundial da Saúde em 2018, instando os Estados-membros a desenvolver programas para reduzir o seu impacto, e uma estratégia global para a prevenção e controle de acidentes ofídicos foi emitida com a OMS em 2019. Assim, o cenário de negligência está se transformando em um cenário de compromisso, embora ainda haja um longo caminho para o cumprimento deste meta”, encerra o Dr. Gutiérrez.

O Dr. Sharma concorda. Para ele, se faz necessário esforços combinados e coordenados de todas as partes interessadas, conforme descrito pela OMS como quatro pilares para atingir esse objetivo: garantir que o tratamento seguro e eficaz seja disponível e acessível a todos; capacitar comunidades nacionais, locais e regionais para medidas proativas, assim como melhorar a conscientização da comunidade; fortalecer os sistemas de saúde para proporcionar melhores resultados, aqui ele destaca a formação inadequada dos médicos ao manejo de picada de cobra, levando a uma força de trabalho ineficaz para lidar com vítimas; e, por último, desenvolver forte coalizão global de parceiros para construir a defesa, mobilizar recursos, coordenar ações e garantir que a implementação do roteiro seja bem-sucedida.

O conhecimento adequado da magnitude do fardo e das consequências que as picadas de cobras podem levar é essencial para a adoção de medidas adequadas de prevenção, detecção e controle. Por fim, o Dr. Sharma menciona a formulação de um conjunto adequado de intervenções para melhorar o acesso aos cuidados de saúde (antiofídicos, ventiladores) e implementar atividades de prevenção (calçado, análise ocupacional, promoção do transporte de motos etc). “Embora tenha permanecido negligenciado no passado, com a resolução da OMS e a publicação do roteiro para implementar estratégias para prevenir, reduzir e controlar o fardo da picada de cobra, o tema levou a novos horizontes e tenho muita esperança de que o objetivo para reduzir as mortes relacionadas à picada de cobra para 50% seja alcançado até 2030”, finaliza o Dr. Sharma.

O Dr. Bernarde pontua outro aspecto que considera de suma importância: o notório despreparo de uma parte significativa dos profissionais de Saúde em lidar com os casos de acidentes ofídicos, o que reflete provavelmente a falta de disciplinas nos cursos de graduação específicas sobre animais peçonhentos, bem como cursos de capacitação para os profissionais de Saúde que estão na linha de frente nos pronto-socorros, que recebem pacientes picados por serpentes. Para ele, os editais de fomento à pesquisa e as ações de extensão na área de Saúde também deveriam contemplar os acidentes ofídicos, uma vez que a OMS inclui estes na lista de doenças tropicais negligenciadas. “Medidas simples podem ajudar muito. Um estudo publicado em 2017 na revista Journal of Occupational Medicine and Toxicology com o título Prevention of krait bites by sleeping above ground: preliminary results from an observational pilot study demonstrou que a simples doação de camas para moradores em dois vilarejos com altos casos de mordida por kraits (serpente que morde as pessoas principalmente quando estão dormindo no chão) no distrito de Kilinochchi (Sri Lanka), proporcionou uma redução dos casos de envenenamento por essas serpentes”, exemplifica.

As serpentes estão na natureza em vários habitats naturais e antrópicos, desempenhando importante papel nos ecossistemas. Cabe ao ser humano encontrar estratégias que permitam reduzir os riscos de acidentes ofídicos e buscar condições adequadas que possibilitem o melhor desfecho possível em caso de envenenamento. “Condições estas que envolvem desde o conhecimento das condutas corretas de primeiros socorros, veículos que possibilitem o rápido deslocamento até o atendimento hospitalar, que deve ter as condições de infraestrutura suficiente, profissionais da saúde preparados para lidar com o ofidismo e o antiveneno disponível”, arremata o Dr. Bernarde.