Envenenamento por lacraia (Chilopoda): Relato de caso

Publicação: 9 de julho de 2022

As picadas de lacraias fazem parte do imaginário popular como envenenamentos graves e potencialmente fatais, mas essa não é a realidade observada nos casos relatados

O veneno das lacraias contém histamina, serotonina e toxinas com efeitos cardiotóxicos, miotóxicos e neurotóxicos. Raramente, picadas podem causar efeitos sistêmicos, e relatos clínicos apontam para a possibilidade de reações alérgicas graves, especialmente em vítimas com alergias a picadas de abelhas e vespas

Haddad Jr V et al. – Envenenamento por Lacraia

Vidal Haddad Junior[1], Paulo Cezar Haddad de Amorim[1], Carolina Rassi da Cruz[1] e Antônio Lucas Sforcin Amaral[2]

[1]. Universidade Estadual Paulista, Faculdade de Medicina de Botucatu, Disciplina de Dermatologia, Botucatu, SP, Brasil.

[2]. Instituto de Biociências, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, SP, Brasil.

Autor correspondente: Vidal Haddad Junior. e-mail: vidal.haddad-junior@unesp.br

Contribuição dos autores

PCHA, CRC, ALSA: Concepção e desenho do estudo, Obtenção de dados; Redação do artigo, VHJ: Análise e interpretação dos dados, aprovação final da versão a ser submetida.

Conflito de interesses

Os autores declaram não haver conflito de interesses.

Apoio Financeiro

Os autores declaram que não há apoio financeiro para este trabalho.

Resumo

As lacraias são artrópodes venenosos que possuem corpo alongado, divididos em vários segmentos, apresentando um par de pernas em cada segmento, pares adaptados de patas que simulam presas e injetam veneno causando dor intensa, com eritema local e edema, e raramente, bolhas e necrose cutânea. Apresentamos o caso de uma jovem picada no lábio superior com intenso inchaço e dor local e discutimos o real perigo de envenenamento e as medidas terapêuticas que devem ser tomadas.

Palavras-chave: Chilopoda. mordidas e picadas envenenamento por lacraia.

Introdução

As lacraias são artrópodes peçonhentos das classes Miriápode e Chilopoda, que possuem um corpo alongado dividido em vários segmentos, apresentando um par de pernas em cada segmento (Figura 1). Aproximadamente 8.000 espécies de lacraias vivem em ambientes úmidos, escondidas no solo e sob cascas de árvores1.

Eles são predadores muito eficazes, caçando vertebrados como pássaros, cobras, morcegos e anfíbios, mas preferem baratas e outros invertebrados, o que os levam a entrar ocasionalmente em casas através de esgotos. São ágeis, ao contrário do milípede (Diplópode) com o qual se confundem1,2.

Suas forcípulas são pares adaptados de patas que simulam presas (Figura 1) e injetam veneno, o que causa dor intensa, eritema local e edema, e raramente, bolhas e necrose cutânea. Em alguns casos, dores de cabeça, febre, mal-estar, ansiedade e tontura também foram observadas. O envenenamento não é descrito como potencialmente fatal, mesmo em crianças, mas esses animais podem picar repetidamente, o que aumenta a dor3,4,5,6. Os relatos raros de mortes humanas não são convincentes e a infecção secundária é a principal complicação da lesão6. Quase todos os envenenamentos causados por lacraias se resolvem espontaneamente sem complicações. O local da mordida deve ser lavado com sabão, e compressas de água fria são úteis. Analgésicos sistêmicos são recomendados para o tratamento da dor.

O veneno das lacraias contém histamina, serotonina e toxinas com efeitos cardiotóxicos, miotóxicos e neurotóxicos. Raramente, picadas podem causar efeitos sistêmicos, e relatos clínicos apontam para a possibilidade de reações alérgicas graves, especialmente em vítimas com alergias a picadas de abelhas e vespas7

No Brasil, as espécies mais comuns são Scolopendra viridicornis e S. subspinipes, que podem atingir até 12 cm de diâmetro, especialmente S. viridicornis1.

Relato do Caso

Uma paciente de 21 anos estava dormindo e sentiu uma forte dor de queimação no lábio superior no meio da noite. Como a sala estava escura, sua reação foi colocar a mão na boca e, ao puxar algo pendurado do lábio, sentiu que estava firmemente aderido, levando alguns segundos para ser removido.

Quando a paciente acendeu a luz, já sentindo dor intensa no local da mordida, viu que seu lábio tinha um pequeno corte e leve sangramento quando notou uma grande lacraia (aproximadamente 10 cm) na colcha (Figura 2).

À medida que a dor aumentava de intensidade, a paciente era levada para um pronto atendimento, onde o animal capturado era identificado como uma lacraia, sem registro da espécie. A paciente sentiu inchaço labial, dor de garganta e falta de ar (Figura 3). A paciente foi tratada com anti-histamínicos (prometazina) e analgésicos injetáveis (dipirona) e tranquilizada quanto à intensidade do envenenamento, permaneceu sob observação por 2 h e foi liberada após o controle da dor. O edema diminuiu em aproximadamente 2 dias.

Discussão

O envenenamento relatado causa dor, eritema e edema. Neste caso, o tecido conjuntivo frouxo na região apresentou edema mais intenso. Apesar de intensa, a dor diminuiu com analgésicos injetáveis. Os anti-histamínicos foram aplicados devido ao edema do lábio superior (uma condição clínica semelhante ao angioedema alérgico).

O controle da dor contribuiu decisivamente para o tratamento do envenenamento, pois as dificuldades respiratórias observadas podem ter sido provocadas ou agravadas pelo estresse causado pela urgência e pela dor. As picadas de lacraia fazem parte do imaginário popular como envenenamentos graves e potencialmente fatais, mas essa não é a realidade observada nos casos relatados.

Aprovação Ética

O relato de um caso não precisa ser submetido à Aprovação Ética do CEP da Faculdade de Medicina de Botucatu.

Agradecimentos

A Srta. Nataly Galdino contribuiu decisivamente para a descrição do caso.

Orcid

Vidal Haddad Junior: https://orcid.org/0000-0001-7214-0422

Paulo Cezar Haddad de Amorim: https://orcid.org/0000-0002-9946-1864

Carolina Rassi da Cruz: https://orcid.org/0000-0003-4104-7748 

Antonio Lucas Sforcin Amaral: https://orcid.org/0000-0001-9903-1509

Referências

  1. Amaral ALS, Castilho AL, Haddad Jr V. Guia dos Animais Peçonhentos e Venenosos dos Campus da UNESP de Botucatu. 2ª edition (on-line). Disponível em:

https://www.researchgate.net/publication/341803955_Guia_dos_Animais_Peconhentos _e_Venenosos_dos_campus_da_UNESP_de_Botucatu_-_2a_edicao_-

2020_Guide_of_the_Poisonous_and_Venomous_Animals_of_the_Campus_of_the_Sao _Paulo_State_University_in_Botucatu_2nd_e?fbclid=IwAR2GH1aT0DGJEqPGx-xHQMoeAyGo0tyPH1JYy_9KN2kApFnTe8cX8mcNKQA

 

  1. Remington CL. The bite and habits of a giant centipede (Scolopendra subspinipes) in the Philippine Islands. Am J Trop Med. 1950;30(3):453-55.
  2. Molinari J, Gutiérrez EE, de Ascenção AA, Nassar JM, Arends A, Márquez RJ. Predation by giant centipedes, Scolopendra gigantea, on three species of bats in a Venezuelan cave. Caribb. J. Sci. 2005;4(2):340–6.
  3. Bush SP, King BO, Norris RL, Stockwell SA. Centipede envenomation. Wild Environ Med. 2001;12(2):93–9.
  4. Veraldi S, Cuka E, Gaiani F. Scolopendra bites: a report of two cases and review of the literature. Int J Dermatol. 2014;53(7):869–72.
  5. Haddad Jr V, Cardoso JL, Lupi O, Tyring SK. Tropical dermatology: venomous arthropods and human skin: part II: Diplopoda, Chilopoda and Arachnida. J Am Acad Dermatol. 2012;67(3):347.e1-9.
  6. Undheim EA, King GF. On the venom system of centipedes (Chilopoda), a neglected group of venomous animals. Toxicon. 2011;57(4):512-24.

Recebido em 18 de outubro de 2021 – Aceito em 25 de março de 2022

FIGURA 1. Lacraia (Scolopendra sp.)

As forcípulas são responsáveis pela inoculação do veneno

FIGURA 2. Edema intenso no lábio superior da paciente causado pela picada da lacraia

FIGURA 3. Regressão do edema após 2 dias e pequenas marcas da mordida no lábio superior da paciente