Em tempos de COVID-19, crianças sob violência e fome nos Trópicos

Publicação: 8 de setembro de 2020

Vulnerabilidades das crianças que vivem em países afetados por crise humanitária e pobreza vão persistir e devem ser agravadas pelas consequências da pandemia

O impacto da violência se tornou ainda mais grave pela atual pandemia. Restrições de movimento devido às medidas de isolamento dificultaram a capacidade das organizações humanitárias de fornecer ajuda

Enquanto o mundo está unido em uma luta contra um inimigo invisível, as sérias consequências que desafiam os Trópicos vão além da pandemia e são agravadas por ela. São os impactos não tão ocultos: o drama das crianças sob violência e fome.

No Iêmen, após cinco anos de conflito, a crise alcançou níveis sem precedentes, onde crianças lutam dia após dia para sobreviver. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) declarou estado de emergência para as crianças iemenitas, que enfrentam a fome como resultado da falta de assistência humanitária e da devastação do país. Segundo o último relatório do Unicef, 30 mil crianças podem desenvolver desnutrição aguda, sob risco de vida, no decorrer dos próximos seis meses; o número total de crianças desnutridas abaixo de cinco anos de idade pode aumentar para 2.4 milhões de crianças.

Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que o Iêmen está retornando a níveis alarmantes de insegurança alimentar. As restrições da pandemia, remessas reduzidas, gafanhotos, enchentes e subfinanciamento significativo referente ao auxílio deste ano agravaram ainda mais a situação de fome já crítica, após cinco anos de guerra. Entretanto, a crise de fome jamais foi declarada oficialmente no Iêmen.

A violência sofrida por crianças também chama atenção. Segundo um inquérito do Comitê Internacional de Resgate (CIR), há mais relatos de crianças e adolescentes desacompanhados, bem como de abusos físicos e emocionais. O maior número refere-se ao sul do Sudão e a República Democrática do Congo (RDC). De acordo com o documento, um bilhão de crianças enfrenta atualmente abusos e, com a pandemia, mais 85 milhões de jovens podem ser afetados. A nível mundial estima-se que 152 milhões de crianças já estavam em situação de trabalho infantil antes da pandemia, com 73 milhões envolvidas em trabalhos muito perigosos.

Crianças forçadas a participar em conflitos

Recentemente o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou estar particularmente chocado com o número de crianças mortas ou mutiladas em conflitos armados, desde que a agência começou a monitorar e denunciar essa violação grave, em 2018. Mais de 12 mil meninos e meninas teriam sido atingidos, um número sem precedentes.

Segundo a organização War Child, 75% dos conflitos armados no mundo têm crianças no combate. Sudão, Somália, Nigéria, Serra Leoa, Uganda, Ruanda, Costa do Marfim, Etiópia, Afeganistão, Myanmar, Colômbia, são países no qual crianças participam ou já participaram nos conflitos. Infelizmente o número de crianças-soldado vem aumentando. De acordo com o relatório da ONG Save the ChildrenStop the War on Children“, quase uma em cada seis crianças no mundo vivia em áreas de conflito em 2018, o que representa 415 milhões com menos de 18 anos de idade. O número é mais que o dobro do que em 1995.

O Sudão do Sul, por exemplo, sofre com uma das piores crises de violência do mundo e com graves problemas como insegurança alimentar, desnutrição infantil e doenças. O país registra ainda inúmeros casos de morte, violência sexual e desnutrição. O conflito provocou um impacto devastador na vida das crianças, que representam mais da metade dos mais de 2 milhões de sul-sudaneses que vivem exilados. A violência não afasta as crianças apenas de suas famílias, lares e infâncias, mas também deixa milhares delas cuidando delas mesmas. Cerca de quatro mil pessoas fogem diariamente do Sudão do Sul para Uganda. Estima-se que 80 mil sul-sudaneses fugiram para o país desde o início dos conflitos em 2013. Deste total, 85% são mulheres e crianças. Sempre que uma das facções conquista uma região, os encarregados devastam as propriedades, destroem os meios de subsistência, matam ou deslocam o maior número possível de civis.

Nove anos após a independência do Sudão do Sul, sete anos depois do início de uma guerra civil sangrenta e dois anos após as partes no conflito assinarem um acordo de paz, ainda há muito a ser feito no país mais jovem do mundo para garantir um futuro seguro e estável para suas crianças e para o seu povo.

Impacto do retorno do Ebola sobre crianças na RDC

A OMS declarou, no dia 17 de julho, o surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) uma emergência de saúde pública de interesse internacional, uma denominação pouco comum, que só é usada em epidemias mais graves. O Representante do Unicef na RDC, Edouard Beigbeder, disse que o Ebola afeta crianças de várias maneiras, além do risco imediato da infecção e morte, tendo realçado a necessidade de minimizar o impacto da doença no bem-estar das crianças. Dados do Unicef mostram que mais de 20 crianças, entre 2 e 17 anos, passaram por um dos quatro centros de tratamento do Ebola, com infecção ou suspeitas de infecção. Além de surtos de Ebola, o país é atualmente afetado por outros surtos importantes, como COVID-19, sarampo, cólera, varíola dos macacos, poliomielite e a peste bubônica.

Nas mazelas dos trópicos

Em tempos de COVID-19, a pandemia expõe ainda mais as mazelas dos Trópicos, que persistem e avançam como metástase pelo mundo. As mazelas roubam a infância de milhares de crianças, infância esta que deveria deixar saudades e doces lembranças. Mas não, para essas crianças, as lembranças serão de tristeza e desesperança, porque tiveram a infância roubada, escondida nos lixões, nos sinais de trânsito, nos conflitos armados e no não menos duro trabalho doméstico. Todos os dias, crianças perdem suas infâncias porque são as principais vítimas da desnutrição, das doenças, da fome, da falta de saneamento básico e da pobreza. Segundo o Unicef, 1 bilhão de crianças sofrem com a pobreza no mundo em desenvolvimento, 50% de toda a população infantil nesses países. Em um mundo cheio de injustiças, a infância roubada pede esmola e milhares de crianças seguirão em busca da infância perdida até o fim da vida.