Em meio à pandemia, doença de Chagas segue em busca de visibilidade

Publicação: 7 de abril de 2021

Pessoas com doença de Chagas e, em particular, aquelas que desenvolveram uma grave patologia cardíaca ou digestiva, têm uma vulnerabilidade adicional à COVID-19

Menos de 10% das pessoas com doença nas Américas são diagnosticadas, e somente cerca de 1% dos acometidos recebe tratamento antiparasitário

Embora em um ano a COVID-19 tenha superado marcas históricas de doenças causadas por agentes infecciosos nas últimas quatro décadas, a exemplo da doença de Chagas, esta doença tropical negligenciada (DTN), segue como um enorme desafio à saúde pública e ao desenvolvimento econômico em algumas das áreas mais vulneráveis do mundo. Historicamente relegada tanto por tomadores de decisão quanto pela indústria farmacêutica, ela é a enfermidade parasitária mais letal da América Latina, levando 14 mil pessoas à morte por ano. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a doença de Chagas é uma das DTNs que afeta 1,7 bilhão de pessoas em todo o mundo, principalmente em países pobres.

A OMS calcula que, das mais de 6 milhões de pessoas com doença de Chagas, menos de 10% sejam diagnosticadas e, destas, muito poucas recebam o tratamento de que necessitam. Para 30% a 40% das pessoas infectadas, a doença progride para um estágio final da fase crônica. Destas, a maioria sofrerá danos cardíacos, frequentemente resultando em morte súbita ou insuficiência cardíaca progressiva. A doença pode causar ainda o aumento do trato gastrintestinal e dos órgãos e transtornos motores gastrintestinais.

Atualmente, há somente dois tratamentos disponíveis para tratar a doença: benzonidazol ou nifurtimox, ambos desenvolvidos há décadas com um longo período de tratamento, 60 dias (8 semanas), e efeitos colaterais frequentes, especialmente em adultos. Estima-se que até 20% dos pacientes abandonam o tratamento devidos a esses efeitos colaterais, representando uma barreira importante para o início do tratamento. A implementação de um tratamento mais curto pode ajudar à implementação do tratamento em larga escala e renovar as esperanças para as pessoas acometidas pela doença. Pensando nisso, a Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês) fez um estudo clínico randomizado, duplo-cego de fase 2, com o objetivo de avaliar a eficácia e segurança de novos regimes de benzonidazol no tratamento de adultos com doença de Chagas crônica indeterminada.

“Nossos resultados sugerem que o regime mais curto de 2 semanas mantém eficácia semelhante ao regime padrão atual (8 semanas), com segurança superior – nenhum paciente apresentou eventos adversos graves ou eventos adversos que levaram à descontinuação do tratamento”, explica a Dra. Fabiana Barreira, Gerente de Ensaios Clínicos para Doença de Chagas da DNDi. Ainda segundo ela, o próximo passo é a confirmação desses resultados em um estudo de fase 3, mais amplo, o que já está sendo implementado pela DNDi em conjunto com outros parceiros. Se a eficácia do tratamento de 2 semanas for confirmada, facilitará a adesão dos pacientes, melhorando o acesso ao tratamento, além de contribuir para a redução de demandas e custos com saúde. Confira aqui o artigo publicado no The Lancet intitulado “New regimens of benznidazole monotherapy and in combination with fosravuconazole for treatment of Chagas disease (BENDITA): a phase 2, double-blind, randomised trial

 

Assassino silencioso no México

A maioria dos infectados no México nunca é testada ou tratada, o que os coloca em risco de coração dilatado e morte súbita. Alguns vivem com Chagas há décadas sem sintomas, revelaram acadêmicos em uma reportagem publicada na Reuters. Ainda segundo a publicação, a pandemia desacelerou os testes já limitados do México e o número de diagnósticos caiu mais da metade em 2020 em comparação com 2019, quando a COVID-19 sobrecarregou o sistema de saúde. Gustavo Sanchez, chefe do Centro Nacional de Programas Preventivos y Control de Enfermedades (CENAPRECE), atribuiu a queda ao atraso de pacientes crônicos em buscar ajuda e ao menor número de pessoas doando sangue para os bancos, cujo exame detecta muitos dos casos. Ele também disse que a capacidade do governo de processar os testes foi reduzida. “Não podemos negar que o trabalho de diagnóstico, não apenas para Chagas, mas para outras doenças, foi afetado pela pandemia”, disse ele na reportagem.

A matéria veiculada na Reuters destaca ainda que entre 2003 e 2020, o governo do México confirmou apenas 11.980 casos de Chagas, segundo dados obtidos por meio de um pedido de liberdade de informação. Entretanto, acadêmicos estimam que o país tenha de 1 a 2 milhões de casos, números que o governo rejeita. A matéria diz ainda que em 2020, o número de pessoas tratadas caiu para apenas 391, de mais de 850 em 2018 e 2019, segundo o governo. À reportagem, Sanchez informou que o governo em breve começará a testar crianças e mulheres em idade fértil em 78 áreas de alto risco para encontrar novos casos agudos, e testes mais amplos para encontrar todos os casos crônicos não fariam sentido epidemiológico. Confira o Boletim Epidemiológico do México Número 10 | Volumen 38 | Semana 10 | Del 7 al 13 de marzo del 2021.

Principais desafios da doença de Chagas

Doenças como Chagas já eram negligenciadas antes da COVID-19. Agora, novos desafios são impostos à luta contra esta e outras DTNs devido ao destino de recursos para a luta contra a pandemia, a pressão sobre centros de saúde, o medo dos pacientes de contrair o coronavírus e o conhecimento ainda limitado que se tem sobre a interação entre as doenças e os medicamentos usados no tratamento. O Dr. Sancho, Coordenador da Coalizão Global da Doença de Chagas, reconhece que depois de um tempo em que se avançou muito no controle de vetores, agora se trata, além de manter esse esforço, de alcançar avanços semelhantes no acesso à atenção integral às pessoas acometidas. “Neste momento, estima-se que o acesso ao tratamento para as pessoas que podem ser afetadas é muito baixo (algumas estimativas falam de apenas 1%). Em países onde o impacto é estimado em centenas de milhares ou milhões de pessoas, a taxa de pessoas tratadas é extremamente baixa. Junto com o acesso, o controle de outras vias de transmissão, como de mãe para filho, é vital. Há um consenso mundial em se empenhar mais nas ações de controle da transmissão vertical, ampliando o diagnóstico para mulheres em idade fértil e crianças, uma vez que o tratamento é altamente eficaz nessas idades com detecção precoce”, assinala. O diagnóstico de Chagas juntamente com doenças como HIV ou sífilis nas atividades do sistema de saúde é um dos grandes avanços propostos, conforme apresentado na estratégia Elimination of mother-to-child transmission (EMTCT, na sigla em inglês) juntamente com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). E está alinhado com a abordagem de integração das DTNs em todos os níveis do sistema de saúde.

A erradicação da doença até 2030 é uma das metas da OMS. Entretanto, a erradicação ou mesmo a diminuição dos casos das DTNs passa necessariamente pela compreensão dos agentes infecciosos e pelo desenvolvimento de medicamentos e vacinas seguras, eficazes e acessíveis. Para isso, o investimento em pesquisa e desenvolvimento é essencial, mas infelizmente, no século 21, não foi produzido nenhum medicamento inovador para qualquer uma das 20 doenças tropicais negligenciadas.

Em janeiro, a OMS definiu metas globais para erradicar 20 das DTNs, incluindo a doença de Chagas, até 2030, com os governos se comprometendo a apoiar os esforços que levaram 42 países a erradicar pelo menos uma DTN na última década. Porém, especialistas alertam que a pandemia pode reverter parte desse progresso. Para o Dr. Sancho, esse roteiro aprovado pelos países membros da OMS tem um ponto de partida muito difícil. “Em primeiro lugar, é importante notar que este roteiro, com seus objetivos e metas, e sua mudança de foco é muito ambicioso, em um sentido positivo. Implica integrar as DTN na rotina do sistema de saúde, com um enfoque muito mais transversal e abrangente. Mas são os países que precisam descobrir como aplicá-lo, bem como os recursos necessários para isso. E aí está o problema: o roteiro foi projetado em um mundo onde a pandemia ainda não havia entrado e foi aprovado em meio a uma pandemia. O plano estabelece algumas fases de revisão (a primeira em 2023)”, observa. Em sua opinião, o que está claro é que o ponto de partida não é o mesmo para doenças negligenciadas como Chagas, pois vemos um sério retrocesso nos avanços feitos antes de 2020. “Acho que as metas e as expectativas teriam que ser reajustados”, atenta.

Ainda segundo o coordenador da Coalizão, para que as medidas propostas pela OMS sejam implementadas, falta compromisso e vontade por parte das autoridades políticas, financiadores e também da sociedade civil, bem como recursos que acompanhem esses compromissos. Também é preciso facilitar o acesso das pessoas afetadas aos instrumentos de controle, diagnóstico e tratamento disponíveis atualmente, bem como aos novos que estão sendo investigados. E por último, lembrar que os países são, em última instância, aqueles que devem se apropriar do roteiro e adaptá-lo ao seu contexto com a colaboração de todas as partes interessadas (primeiro, as populações em risco, além de especialistas e organizações nacionais e globais).

Chagas em tempos de COVID-19

No início da pandemia, a coalizão de Chagas divulgou um guia de recomendações com as poucas evidências que havia na época para os chagásicos. Posteriormente, em publicação conjunta com diversos membros da Coalizão, foram estudadas as implicações da COVDI-19 para as pessoas que conviviam com Chagas, de forma mais detalhada, destacando a maior letalidade do coronavírus na população com cardiopatia chagásica e maior risco de prevalência em grupos marginalizados, entre outros fatores. As informações podem ser acessadas aqui: https://globalheartjournal.com/articles/10.5334/gh.891/.

“No que diz respeito à luta global contra as doenças, se há algo de positivo nesta pandemia, é a consciência cada vez mais compartilhada de que não existe uma única doença que devamos deixar sem cuidados ou uma única pessoa sem cuidados. Nenhuma doença é uma ilha, copiando a frase do autor John Donne. Todos são parte e responsabilidade de toda a humanidade. A consciência da importância de se envolver mais na saúde global é maior do que antes da pandemia”, admite o Dr. Sancho. Para ele, esperançosamente, essa conscientização também beneficia as DTNs que tendem a afetar principalmente as populações já negligenciadas.

Por fim, o coordenador da Coalizão lembra que avanços e trabalhos realizados durante a pandemia em diferentes partes do mundo merecem reconhecimento. “Apesar da redução de pessoal e orçamento, além das limitações de mobilidade e atenção pessoal impostas pela COVID-19, tem sido possível continuar a manter as atividades, embora um pouco reduzidas, em muitos locais. Isso dá uma grande esperança para impulsionar o progresso da doença, que ganhou mais visibilidade desde a aprovação do Dia Mundial da Doença de Chagas, em 2019, pela OMS. Agora, precisamos que o compromisso se traduza em maior bem-estar às pessoas acometidas e às populações em risco”, conclui.

Dia Mundial de Combate à Doença de Chagas

A Federação Internacional de Associações de Pessoas Afetadas pela doença de Chagas (FindeChagas) escolheu o dia 14 de abril como “Dia Internacional das Pessoas Acometidas por Chagas”, pelo simbolismo deste dia. A data tem sido usada pela FindeChagas para cobrar melhores estratégias de enfrentamento à doença. A criação de um Dia mundial foi colocada para os estados membros da OMS como uma oportunidade histórica de transformar a realidade de milhões de pessoas, suas famílias, e comunidades. A FindeChagas foi criada oficialmente em outubro de 2010 e é composta por mais de 20 associações espalhadas no mundo (Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, Itália, México, Suíça e Venezuela).

A data também é importante porque se refere ao dia em que Carlos Chagas, na pequena cidade mineira de Lassance, fez o primeiro diagnóstico de um caso humano da doença causada pelo Trypanosoma cruzi (descrito por ele em 1908). O 14 de abril é uma oportunidade para se pensar na ciência brasileira e nas pessoas acometidas pela doença de Chagas e outras DTNs que afetam principalmente as populações negligenciadas. É um dia para lembrar do passado, com os olhos no presente e no futuro.