Em meio à guerra da vacina, Brasil segue contabilizando vidas perdidas

Publicação: 5 de fevereiro de 2021

Guerra essa que ameaça adesão à imunização e que nos faz assistir o aumento diário no número de infectados e mortos

Quase 103 anos se passaram após a gripe espanhola, mãe das pandemias recentes, assolar o mundo e a COVID-19 coloca a prova o conhecimento científico, mostra o quanto as notícias falsas e o negacionismo da população e dos governantes podem prejudicar a saúde pública

Amargando os piores números no combate à pandemia e contabilizando números recordes de óbitos, o Brasil vem sendo placo de uma guerra em torno das vacinas contra COVID-19. De um lado estão os governantes e de outro está o povo brasileiro, que se vê em meio a uma disputa política que opõe governadores ao presidente da República e que levou à Justiça planos e estratégias de imunização. Guerra essa que ameaça adesão à imunização e que nos faz assistir o aumento diário no número de infectados e mortos.

A politização de questões relativas à vacinação obrigatória contra a COVID-19 encontra semelhança (luta contra uma grave epidemia, disseminação de informações falsas sobre efeitos colaterais da imunização, negacionismo e uma população desconfiada de uma simples picada no braço) em um dos mais notórios episódios de saúde pública brasileira: a Revolta da Vacina de 1904.

Mas se há algo que se apresenta para um debate inútil é sobre a importância e a necessidade da vacinação. Ela é uma das estratégias de política pública mais eficazes para a prevenção de infecções e epidemias. Os séculos passaram e infelizmente o Brasil está entre os países em que uma parcela da população não confia na eficácia e ainda teme as vacinas. As teorias são praticamente as mesmas, de que as vacinas têm efeito contrário, mesmo com números mostrando o oposto. A guerra de narrativas e de desinformação afeta o trabalho de cientistas e profissionais da área de saúde.

Será que estamos vivendo uma nova Revolta da Vacina? Voltando um pouco no tempo, a Revolta de 1904 que teve como estopim as discussões sobre a lei que tornou obrigatória a vacinação contra a varíola, surgiu de uma combinação de fatores que desencadearam um enorme descontentamento popular tendo por base uma campanha de desinformação mobilizada por opositores do governo do então presidente Rodrigues Alves e do médico responsável pela ação de imunização, o sanitarista Oswaldo Cruz, então secretário da Saúde Pública. O motim de 1904 nos deixou como lição a eficácia das vacinas na longevidade humana e que a revolta de hoje é por vacina e não contra ela.

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que tornou obrigatória a vacinação contra a COVID-19 em dezembro de 2020, com sanções aos que decidirem não tomar o imunizante, representa uma grande vitória. Ao colocar o interesse coletivo acima de decisões individuais, o STF deu um passo decisivo na batalha contra a pandemia.

Atenta ao movimento político em torno da guerra das vacinas, o povo brasileiro e a ciência por meio de seus pesquisadores acompanham com preocupação as discussões que colocam em lados opostos as instâncias de Governo. Vale ressaltar que não existe ganho para qualquer nível de Governo ao politizar ou impedir o uso de uma vacina. O que se faz necessário é empenho e soluções imediatas do governo para combater o coronavírus.

Devastadoras pandemias, COVID-19 é pior que gripe espanhola

Quase 103 anos se passaram após a gripe espanhola, mãe das pandemias recentes, assolar o mundo e a COVID-19 coloca a prova o conhecimento científico, mostra o quanto as notícias falsas e o negacionismo da população e dos governantes podem prejudicar a saúde pública. E, assim como no passado, mais uma vez na história, além de buscar medicamentos e vacinas, a ciência precisa lutar contra notícias falsas que tentam deslegitimá-la. As dificuldades enfrentadas anteriormente servem de espelho para a forma correta de lidar com a situação atual.

Na pandemia da gripe espanhola, os idosos também foram a faixa etária mais atingida e assim como na da COVID-19, a principal medida para evitar a expansão do contágio foi o isolamento social. Recomendava-se que a população evitasse tossir, espirrar, cuspir ou assoar o nariz em público e o uso de máscaras. As aglomerações foram desestimuladas e, com isto, a vida na cidade, parou, e a população economicamente ativa, entre vinte e quarenta anos, foi a mais atingida.

De janeiro de 1918 a dezembro de 1920, a gripe espanhola infectou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Estima-se que o número de mortos esteja entre 17 milhões[ e 50 milhões, e possivelmente até 100 milhões, tornando-a uma das epidemias mais mortais da história da humanidade. A gripe espanhola foi a primeira de duas pandemias causadas pelo influenzavirus H1N1, sendo a segunda ocorrida em 2009. No Brasil, a pandemia resultou em, ao mínimo, 35 mil mortos, incluindo o presidente Rodrigues Alves. Em um único dia, o Rio de Janeiro chegou a somar mil mortos. A segunda onda da pandemia foi muito mais mortífera.

Mais de um século após a gripe espanhola, as lições desta epidemia global ainda salvam vidas. Métodos de prevenção como máscaras faciais e distanciamento social podiam parecer práticas estranhas no Brasil, mas já eram familiares àqueles que lutaram contra a pandemia de 1918.

Confira algumas imagens históricas e as lembranças da gripe espanhola, relatadas em uma carta escrita pela mãe do Professor aposentado do Departamento de Medicina Tropical, Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, Dr. Fernando Dias de Avila Pires, dona Maria de Lourdes Dias de Avila Pires.

 

 

 

Fotos: Imagens da Internet.

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