Ebola: Novos focos aumentam risco de disseminação do vírus

Publicação: 9 de outubro de 2018

OMS alerta para ameaças à resposta humanitária à epidemia de Ébola na RD Congo

Na RDC, com medo, algumas pessoas estão fugindo para a floresta para evitar terapias de acompanhamento e exames de Ebola

Os novos focos do vírus Ebola na República Democrática do Congo (RDC) ameaçam o progresso no combate à doença e aumentam o risco de disseminação, alertou, no dia 21 de setembro, a Organização Mundial de Saúde (OMS). Até o momento, o nordeste do país contabiliza 142 casos e 97 mortes. “Riscos significativos para a disseminação da doença continuam”, disse a porta-voz da OMS, Fadela Chaib, em Genebra. Ainda de acordo com ela, os desafios contínuos incluem atraso no reconhecimento do vírus nos centros de saúde, prevenção e controle de infecções precárias nestes centros e relutância de alguns em serem tratados nos centros de tratamento.

Além disso, a OMS alertou para a ameaça à resposta humanitária para a epidemia na RDC devido aos confrontos. As suas atividades em Beni foram suspensas no final de setembro. “Estamos receosos de que diversos fatores possam se somar nas próximas semanas e meses para criar uma tempestade perfeita em potencial”, disse o chefe de reação de emergência da OMS, Peter Salama, em Genebra. Ele declarou ainda a preocupação com a segurança da equipe, manifestando-se perturbado com a exploração da epidemia pelos candidatos às eleições de dezembro. Algumas pessoas estão fugindo para a floresta a fim de evitar terapias de acompanhamento e exames de Ebola, às vezes se afastando centenas de quilômetros.

“Estamos num ponto crucial da epidemia”, disse Berangère Guais, coordenadora de emergência organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), em Beni, Kivu do Norte. Ela ressaltou que, apesar ter caído significativamente, novos casos, causados por diferentes cepas do vírus, surgiram nos últimos dias. Segundo ela, é preciso continuar trabalhando na comunidade para construir confiança e assegurar que todos que apresentarem sintomas de Ebola sejam isolados e testados rapidamente. “Não podemos baixar nossa guarda até que o fim da epidemia seja declarado”, completou. Atualmente o MSF conta com quatro centros de tratamentos, localizados nas cidades de Makeke, Butembo, Beni e Mangina, epicentro do surto.

Em Makeke, foi estruturado um centro de triagem de sete leitos (na fronteira do Kivu do Norte com Ituri), no dia 28 de agosto, como uma medida temporária, por causa do número de casos na região e da resistência da comunidade em buscar tratamento em Mangina, enquanto outra organização construía um centro de tratamento. Assim, os pacientes suspeitos podem ser isolados e testados para o Ebola mais perto de suas casas e só serão transferidos para centros de tratamento caso o teste seja positivo. Já em Kivu do Norte, onde foi declarada a epidemia em 1º de agosto, uma das áreas mais instáveis da região em virtude de conflitos, o MSF informou que, mesmo com a tensão local, permanece com o tratamento de combate ao surto, levando ajuda médica aos pacientes, bem como medicamentos e profilaxias aos profissionais de saúde locais.

MSF enfatizou que no momento centra seus esforços no tratamento dos pacientes infectados, na rapidez do diagnóstico e na contenção da transmissão do vírus o mais rápido evitando que a doença volte. Para eles, a experiência adquirida nas epidemias anteriores tem ajudado a reagir de forma mais efetiva nos episódios recentes. Além disso, estão realizando vacinação com o método conhecido como anel (imunização dos contatos de pessoas doentes e seus respectivos contatos). Por fim, a organização humanitária se diz preocupada com os seus profissionais de saúde, os quais estão recebendo vacina. “Infelizmente, nesta epidemia, vimos pelo menos 17 profissionais de saúde infectados com o Ebola”, lamentou Berangère Guais.

O ebola é endêmico no vasto país da África Central, que registrou 10 surtos nas últimas quatro décadas. A superação desse último surto na região de Kivu do Norte está se mostrando complicada devido ao deslocamento em massa ligado a dezenas de grupos armados e a outras ameaças à saúde, incluindo poliomielite e cólera. Os confrontos obrigaram à suspensão de algumas medidas das autoridades sanitárias, assim como de organismos humanitárias no terreno como o Conselho Norueguês para os Refugiados. “Ainda não cogitaremos a necessidade de evacuar, mas estamos desenvolvendo uma variedade de planos de contingência para ver onde nossos agentes ficam mais bem localizados”, observou Petter Salama.…