Diversidade de temas relevantes à Saúde Pública brasileira foi destaque na programação do MedTrop 2018

Publicação: 9 de outubro de 2018

Com o tema “Doenças transmissíveis, predição e desafios para o enfrentamento de novas e velhas epidemias”, o MedTrop 2018 reuniu a comunidade tropicalista de 13 países de quatro continentes

Além dos brasileiros, o Medtrop2018 teve a presença de vários participantes do exterior, como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia, Estados Unidos, França, Inglaterra, Portugal, Espanha, República Checa, África do Sul, entre outros, que estiveram no Recife para debater os desafios de doenças emergentes e avanços nas pesquisas em doenças tropicais e negligenciadas no Brasil e no mundo

Sucesso absoluto define a 54ª edição do Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop), que ocorreu no Recife, entre os dias 02 e 05 de setembro. A edição 2018 contabilizou 3.406 Congressistas, 470 Palestrantes e 86 membros das Comissões Organizadora e Cientifica, além de 23 empresas e instituições expositoras, 78 profissionais e 184 monitores que trabalharam com dedicação para o sucesso do congresso. A programação foi extremamente rica de atividades com apresentação de 242 trabalhos em temas Livres Orais e de 3.444 em E-posters, 05 oficinas, 20 cursos pré-congresso, 42 mesas redondas, 11 conferências, 21 palestras, 04 reuniões satélites (VII Workshop da REDE-TB; Workshop de Genética e Biologia Molecular de Insetos Vetores de Doenças Tropicais, o Entomol7_SOVE Brazil; XXXIII Reunião Anual de Pesquisa Aplicada em Doença de Chagas e XXI Reunião Anual de Pesquisa Aplicada em Leishmanioses/ChagasLeish 2018 e XV Reunião Nacional de Pesquisa em Malária), 03 simpósios satélites de patrocinadores e exibição de documentários no CineMedTrop. A programação científica contemplou temas relacionados aos avanços no diagnóstico, tratamento e controle de doenças infecciosas e parasitárias, com ênfase especial às doenças de populações negligenciadas.

A programação científica do evento promoveu discussões sobre doenças endêmicas virais, bacterianas, parasitárias, bem como a da entomologia medica e de vários aspectos dessas doenças, como o desenvolvimento de vacinas, diagnóstico, controle, pesquisas básicas e aplicadas. A grade científica foi bastante diversificada, com palestras simultâneas, colocou em evidência assuntos de grande relevância.

O Congresso conseguiu avaliar, em conjunto com os profissionais e autoridades em saúde a efetividade dos programas de controle e vigilância da saúde pública, no caso da emergência e reemergência de epidemias. Outros temas relevantes abordados foram o andamento de estudos de coortes sobre Zika, Síndrome Congênita em bebês, com consequências de microcefalia e problemas neurológicos; além da avaliação sobre cursos de pós-graduação na área, publicações em revistas científicas e os problemas de saneamento básico no país.

A preocupação com vírus mais agressivo da dengue e que tem preocupado especialistas ganhou destaque no MedTrop. “O sorotipo 2 da dengue começa a voltar, principalmente em Goiás, onde é feita uma boa vigilância dos casos. Isso se considerarmos a possibilidade de se repetir a situação que enfrentamos anos atrás (na década de 1990, o DEN-2 trouxe os casos de dengue com hemorragia). Como a chance existe, recomenda-se que as autoridades de saúde estejam preparadas da melhor forma para enfrentar um possível aumento de casos”, destacou o médico e farmacêutico Dr. Felipe Lorenzato, em mesa-redonda.

A reemergência do sarampo foi outro tema das mesas-redondas. A prevenção e o controle da doença foram preocupações destacadas pelo subdiretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), Jarbas Barbosa, que apresentou em sua conferência um novo marco para eliminar doenças transmissíveis até 2030. Dr. Jarbas Barbosa reafirmou ainda o compromisso da OPAS em trabalhar junto aos países da região das Américas para eliminar doenças transmissíveis neste prazo. Um novo marco de ação foi apresentado no Congresso.

O Zika vírus e os desafios impostos à saúde pública foram tratados na primeira conferência do evento e lembrou a resposta brasileira à epidemia. A conferencista Maria de Fátima Pessoa Militão de Albuquerque, integrante do Grupo de Pesquisa da Epidemia da Microcefalia (MERG) da Fiocruz Pernambuco, apresentou uma linha do tempo da epidemia, que teve lugar primeiramente no Brasil, espalhando-se depois para mais de 40 países.

Já a Dra. Ana Carolina Faria e Silva, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) no Brasil, e o Dr. Renato Vieira, coordenador geral de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, participaram da mesa-redonda “Global vector control response/2017-2030: é possível alcançar?”. Na ocasião foi citada a ferramenta da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o controle de vetores, bem como o “Global vector control response 2017–2030”, documento adotado na Assembleia Mundial da Saúde em maio de 2017 e que tem como principal objetivo apontar intervenções para reduzir a carga das doenças causadas por vetores que afetam seres humanos.

A preparação e a resposta a pandemias de Influenza, como a que ocorreu em 2009, também foram temas abordados. Na oportunidade foi apresentado o “Pandemic Influenza Preparedness Framework (PIP)”, ferramenta que tem como principal objetivo criar um sistema para melhorar e fortalecer o intercâmbio de vírus gripais com potencial pandêmico no ser humano e conseguir com que os países que necessitam de vacinas e medicamentos para salvar vidas tenham um acesso mais previsível, eficiente e equitativo em futuras pandemias. A Dra. Nancy Bellei, infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), falou sobre a droga utilizada atualmente no Brasil para Influenza, o oseltamivir, além dos medicamentos que estão em processo de desenvolvimento e testagem e que, em breve, devem estar disponíveis, como outras opções de tratamento.

O MedTrop 2018 contou ainda com mesa-redonda sobre animais peçonhentos, em que biólogos de quatro estados brasileiros debateram a epidemiologia e o tratamento dos acidentes por animais peçonhentos no País. A Dra. Maria da Graça destacou que nos últimos três anos houve uma queda de investimentos, mesmo assim há quatro institutos produzindo soros no Brasil. O Butantã é o principal, sendo responsável por 80% da produção no país, mas que ainda são necessários soros apropriados para algumas espécies.

A mesa-redonda “Situação epidemiológica e prevalência de HIV, sífilis e hepatites virais em populações vulneráveis às IST no Brasil”, apresentou a situação epidemiológica e prevalência das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) em populações vulneráveis no País. Os estudos são as evidências que fundamentam a Agenda Estratégica para ampliar o acesso e o cuidado integral de população-chave em HIV, hepatites virais e outras ISTs, lançada em março de 2018 pelo Ministério da Saúde (MS).

Durante a mesa-redonda “Chikungunya na prática e os seus desafios”, o Dr. André Siqueira, pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia (INI), apresentou a exposição que trouxe como tema “História Natural de Chikungunya: o que esperar?”. Ele abordou os sinais apresentados pelos pacientes quando estão na fase crônica da doença, tais como poli artralgia, que pode durar de semanas a anos ou dores articulares. Entretanto, 95% dos adultos são assintomáticos para a doença. Qual a proporção de complicação e cronicidade? Existem fatores de risco/predição que identificam indivíduos que ficarão crônicos? Quais as fisiopatologias da doença crônica? Como podemos alterar esse curso da história natural da doença? “São essas as questões que nós, pesquisadores, estamos trabalhando e aprendemos sobre a chikungunya a cada dia”, ressaltou.

A mesa “Novos Cenários Clínico-Epidemiológicos que emergem com a expansão da Leishmaniose Visceral“, coordenada pela Dra. Dorcas Lamounier Costa, descreveu a evolução territorial da doença detalhando seu avanço nas regiões sul e sudeste. De acordo com ela, no passado a Leishmaniose estava confinada nas regiões Norte e Nordeste, mas agora está mostrando tendência de avanço, inclusive em regiões de Mata Atlântica de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, estados que eram considerados imunes. Na ocasião, ainda foram apresentadas as diferenças genéticas no parasita como um caminho para entender o avanço da doença nos territórios, na infecção de insetos vetores e nas características clínicas da evolução dos pacientes. Por fim, foi mostrado o grande impacto que este agravo representa na saúde da população indígena.

O Dr. Carlos Henrique Nery Costa, pesquisador da Universidade Federal do Piauí (UFPI), traçou um panorama das migrações internacionais das leishmanioses, ao longo dos anos a partir do Brasil e os riscos que esse movimento traz para diferentes populações do mundo durante a mesa-redonda “Migrações Latino-americanas: novo desafio para o controle das Doenças Tropicais Negligenciadas”. Já as palestrantes Aryadne Bittencourt, da Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro, e Maria Aparecida Shikanai-Yasuda, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), apresentaram as dificuldades que os imigrantes vindos da Venezuela e Bolívia encontram quando buscam acesso ao sistema de saúde brasileiro. Segundo elas, os problemas enfrentados ao começar uma nova vida no Brasil são praticamente os mesmos para ambos, com precariedades de alimentação, habitação, emprego e dificuldade financeira. “Se faz necessário repensar as políticas e ações de saúde brasileiras de forma que os profissionais da atenção primária forneçam um atendimento mais integral e inclusivo, atravessando, principalmente, as barreiras de comunicação e de vulnerabilidade social”, destacaram as palestrantes.

Lançamento do Boletim Epidemiológico sobre experiências de programas de controle da TB

Dentro da programação do 54º MedTrop ocorreu o lançamento do Boletim Epidemiológico sobre experiências de programas de controle da tuberculose  : ‘Porque juntos iremos detectar, tratar e acabar com a tuberculose como problema de saúde pública’. O boletim traz relatos das experiências de estados e municípios brasileiros na elaboração e implementação de ações para o enfrentamento da tuberculose como um problema de Saúde Pública no Brasil. As experiências relatadas, além de valorizar o protagonismo dos programas de controle da tuberculose, estabelecem um diálogo entre os serviços de saúde e a sociedade.

Homenagens e Premiações movimentam solenidade de abertura do 54º MedTrop

 A solenidade de abertura foi palco de várias homenagens e premiações, a primeira delas a Medalha Mérito Científico Carlos Chagas 2018 para o pesquisador sênior SBMT, concedida ao professor Jeffrey Jon Shaw.

Em seguida, a professora Antoniana Krettli prestou uma homenagem póstuma à imunologista brasileira Dra. Ruth Nussenzweig, que dedicou sua vida para descobrir uma vacina contra a malária, produzida a partir dos estudos que ela e seu marido, o também imunologista Dr. Victor Nussenzweig, desenvolveram nas últimas décadas. A honraria foi recebida pela filha do casal, Sonia Nussensweig.

Também foram homenageados um pesquisador na área de Leishmaniose, o Dr. Edgar Marcelino de Carvalho, e outro em Doença de Chagas, o Dr Wilson de Oliveira Jr. Além deles foram homenageados outros 37 pesquisadores pelo trabalho desenvolvido na resposta da comunidade científica brasileira à epidemia de zika e microcefalia, entre eles o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Dr. Amilcar Tanuri, que lamentou o incêndio ocorrido no Museu Nacional, no mesmo momento em que ocorria a solenidade.

A SBMT premiou ainda comunicadores científicos com os prêmios: Jornalista Tropical, nas categorias TV, Impresso e Online, e a NHR Brasil concedeu prêmio específico a matérias relacionadas à hanseníase.

Foram concedidas também premiações aos jovens pesquisadores: Daniele Pelissari, técnica do Programa Nacional de Controle da Tuberculose da Secretaria de Vigilância em Saúde (PNCT/SVS), ganhou o primeiro lugar na Categoria Doutorado com o trabalho “Impacto do encarceramento na incidência da tuberculose e sua interação com a desigualdade da distribuição de renda”. Ana Beatriz Giles ficou em primeiro lugar na Categoria Graduação, com o trabalho “Caracterização de imunocomplexos mediadores de neutralização ou imunoamplificação da infecção pelo Zika vírus in vitro”. Laila Rowena Babosa ficou em primeiro lugar na Categoria Mestrado com o trabalho “Avaliação da qPCR 18S e qPCR Pv MtC0X1 na identificação de resistência do P. vivax à Cloroquina”.

Já o pesquisador André Siqueira, do Laboratório de Pesquisa Clínica em Doenças Febris Agudas (INI/Fiocruz), recebeu o Prêmio Young Investigators 2018, oferecido pelo Instituto Mérieux em parceria com a SBMT. A honraria busca estimular jovens pesquisadores brasileiros que se destacam no campo da Medicina Tropical.

55º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical

O próximo congresso da SBMT será realizado em Belo Horizonte (MG), em julho do próximo ano. A grande novidade é que ele vai ocorrer simultaneamente com o XXVI Congresso Brasileiro de Parasitologia (Sociedade Brasileira de Parasitologia), além da Reunião de pesquisa aplicada ChagasLeish 2019. Esperamos todos lá!…