Dengue: casos disparam no mundo e doença se torna problema global

Publicação: 2 de outubro de 2019

Mesmo com os conhecimentos científicos e os recursos tecnológicos atualmente disponíveis, a eliminação desse vetor parece inexequível nos dias de hoje

Organização Pan-Americana da Saúde ativou alerta epidemiológico na América Latina após a região registrar mais de dois milhões de casos de dengue este ano, o maior número desde o grande surto de 2016

De janeiro até 24 de agosto de 2019, o Brasil registrou 1.439.471 casos de dengue, um aumento de quase 600% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o País tinha confirmado 205.791 casos. No dia 9 de setembro, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) ativou o alerta epidemiológico na América Latina após a região registrar mais de 2 milhões de casos de dengue este ano, o maior número desde o grande surto de 2016.

Para o médico infectologista e doutor em Medicina Tropical Pedro Tauil, seria possível prevenir epidemias de dengue de grandes dimensões com aprimoramento do controle vetorial. O especialista lembra que o Aedes aegypti é, por enquanto, o único elo vulnerável da cadeia de transmissão. O aprimoramento das medidas de controle depende da participação da população e da melhoria das condições de habitação e saneamento em áreas urbanas. “Favelas, mocambos, invasões e cortiços precisam ser reduzidos. Nunca antes houve concentração tão alta de população em área urbana. Cerca de mais de 2 bilhões de pessoas no mundo vivem hoje em área de risco, em países tropicais e subtropicais. Além disso, pontos estratégicos, como terrenos baldios, cemitérios, borracharias, depósitos de ferro velho, devem ser submetidos à inspeção entomológica frequente pelos órgãos de vigilância sanitária, ressalta o Dr Tauil. Mas ele reconhece que, como é uma tarefa que não tem sido efetiva, busca-se inovação desse controle, como a técnica de origem australiana em teste em vários países, entre eles o Brasil, dos Aedes infectados com a bactéria Wolbachia. Estes insetos infectam-se com os arborvírus, porém não se tornam infectantes, interrompendo o ciclo.

Enquanto as medidas de controle seguem cautelosas no País, a doença segue vitimando pessoas. Até o dia 24 de agosto, foram confirmadas 591 mortes e outras 486 ainda estão em investigação. Embora uma nova vacina para dengue esteja em sua última etapa de testes, conforme informou o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a previsão é encerrar a fase final de desenvolvimento de testes em humanos apenas em 2020. “Estamos muito esperançosos com a vacina e esperamos que ela chegue no ano que vem. Até lá, vamos passar um verão muito duro, com muita dificuldade por conta da reintrodução do sorotipo 2 de dengue que tem encontrado, desde 2018, muitas pessoas suscetíveis à doença”, disse o ministro. Até que a nova vacina brasileira se torne uma realidade, diagnóstico e tratamento o mais cedo possível são as únicas formas de reduzir a letalidade da doença, já que não existem vacinas seguras e eficazes.

Se voltarmos um pouco no tempo, em um Brasil não tão distante, veremos que durante quase 60 anos, de 1923 a 1982, o País não apresentou registro de casos de dengue em seu território. Não faltou ao Brasil ambição para acabar com o Aedes aegypti. Nos anos 1950, o mosquito foi erradicado, em um período em que se podia usar o diclorodifeniltricloroetano (DDT), um poderoso pesticida, hoje proibido por seu impacto ambiental. “O Brasil e mais 17 países nas Américas eliminaram o Aedes de seus territórios, para reduzir o risco da febre amarela urbana. Porém posteriormente, todos foram reinfestados. O transporte internacional de mercadorias e pessoas aumentou muito em densidade e em velocidade, permitindo transporte de pessoas e mosquitos infectados com muito mais frequência atualmente”, enfatiza o Dr. Tauil ao apontar a necessidade de buscar inovação das medidas de controle vetorial para que se tornem mais efetivas.

Atualmente a dengue é uma das principais doenças reemergentes e se tornou um problema global fazendo com que nenhum país tropical ou subtropical tenha êxito em seu controle. O sudoeste asiático, por exemplo, enfrenta um grande surto, e as Filipinas contam com o maior número de casos e mortes confirmadas. Este é o pior surto de dengue do país desde 2012, levando mais de mil pessoas a óbito e à declaração de epidemia nacional. Honduras também enfrenta uma das epidemias mais mortais da última década, conforme alertou a Organização Panamericana da Saúde (OPS). De acordo com relatórios, o país registra desde janeiro até agora mais de 70 mil casos suspeitos, destes 14.381 foram informados como dengue grave, e 135 mortes confirmadas. Na América Central, Honduras encabeça o maior número de mortes por dengue grave, seguida pela Guatemala (37), Nicarágua (15) e El Salvador (4), de acordo com as cifras divulgadas pelos ministérios da Saúde desses países. Além destas regiões, há epidemias da doença na Colômbia, em Bangladesh, no Nepal, no Paquistão, entre outros. O Dr. Tauil explica que sempre que um dos 4 sorotipos de dengue é reintroduzido em uma região, encontra uma população não imune a ele, o número de casos aumenta. “A imunidade naturalmente adquirida é sorotipo específica. Assim, a existência de uma massa de pessoas já infectadas por um sorotipo funciona como uma massa protetora contra a expansão da doença”, acrescenta.

Além das facilidades de proliferação e disseminação do Aedes oferecidas pelas condições atuais de vida urbana, a resistência dos insetos aos larvicidas e inseticidas mais disponíveis são outras limitações impostas para o seu controle. Para o Dr. Tauil, a saída é reduzir ao máximo possível a densidade de infestação e buscar meios mais eficazes de controle vetorial, como novos inseticidas eficazes. A deterioração da infraestrutura da saúde pública, com redução dos recursos humanos e financeiros, que ocorre na grande maioria dos países também contribui. Entretanto, considerando os conhecimentos científicos e recursos tecnológicos atualmente disponíveis em relação à dengue, a eliminação desse vetor das grandes e médias cidades parece inexequível nos dias de hoje.

De acordo com o especialista, o controle do dengue é intensivo de mão de obra e tem um custo muito alto. Depende de ações multisetoriais, como na área de saneamento, habitação e educação, que não são fáceis de se conseguir. A complexidade atual da vida urbana facilita a proliferação dos vetores e dificulta seu controle. Novas técnicas de controle são necessárias, bem como a descoberta de vacinas seguras e eficazes e medicamentos antivirais. “No Brasil, a Fiocruz tem trabalhado no projeto da Wolbachia e no projeto de mosquitos irradiados. O Instituto Butantã, em São Paulo, trabalha nos testes de uma nova vacina. Há pesquisadores buscando novos medicamentos antivirais para tratamento dos doentes”, detalha.

Pulverização aérea de veneno contra mosquito da dengue

Em setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu manter a validade da pulverização aérea de veneno para combater o Aedes Aegypti. Ao retomar a análise do caso, o STF considerou que a pulverização aérea é válida, mas será preciso autorização prévia por parte de autoridades sanitárias, além de manifestação da autoridade ambiental. No caso em julgamento, a Procuradoria Geral da República (PGR) apresentou uma ação em 2016 que visava declarar inconstitucional o dispositivo da lei que permitiu a execução de medidas necessárias para o controle do mosquito. A lei estabelece como uma das formas a dispersão de substâncias químicas por aeronaves mediante aprovação de autoridades sanitárias e comprovação científica de eficácia da medida. Mas na opinião do especialista em Medicina Tropical, a pulverização aérea é de baixa eficácia e contamina o meio ambiente. Para ele, é um recurso para ser usado em último caso, em momentos de grandes epidemias.