Dengue: Brasil registra aumento de quase 86% nos casos em 2022, mas perigo está por vir, alertam pesquisadores

Publicação: 10 de maio de 2022

Somente entre os dias 02 de janeiro e 02 de abril foram registrados 323.900 casos suspeitos da doença, número 85,6 % maior do que no mesmo período de 2021

Centro-Oeste é a região que registra mais casos, com 648/100 mil habitantes, seguida pela região Sul, com 198,5 /100 mil habitantes

Os casos suspeitos de dengue continuam em alta no País em comparação com 2021, de acordo com o Boletim Epidemiológico Vol.53, Nº13, divulgado pelo Ministério da Saúde. O documento revela que somente entre os dias 02 de janeiro e 02 de abril foram registrados 323.900 casos suspeitos, número 85,6 % maior do que no mesmo período do ano passado.

A região que registrou mais casos da arbovirose foi a Centro-Oeste (648/100 mil habitantes, na qual os diagnósticos dispararam 242,7% nas treze primeiras semanas deste ano em relação à mesma época de 2021. Goiás lidera a explosão de diagnósticos, com 71.652, mais do que toda a região Sul. Desse total, 25.180 foram notificados em Goiânia. A capital é a cidade que mais registrou infecções no Brasil, seguida de Brasília, com 19.284. Ao todo, a região contabiliza 108.258 casos, o que representa 33,4% dos registros em todo o País. Em seguida estão as regiões Sul, 198,5/100 mil habitantes, Norte, com 127,8/100 mil habitantes, Sudeste, 106,2/100 mil, e Nordeste 62,4/100 mil habitantes. Sobre a chamada dengue grave (DG), o Boletim aponta que foram confirmados 233 casos nesse período, além de 79 mortes. São Paulo é o estado que registrou mais óbitos pela doença, com 29; seguido pelo Goiás, com 9, e a Bahia, com 8.

O Dr. Luciano Pamplona, pesquisador e professor do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que nos últimos anos, provavelmente, em virtude da pandemia de Covid-19, houve uma redução do número de casos notificados de várias doenças; assim como a dengue. “Em 2022, além do aumento importante das chuvas, temos quase dois anos sem a visita dos agentes de saúde (endemias) na casa das pessoas. As atividades de controle foram suspensas por conta da pandemia e há relatos dos altos níveis de infestação vetorial pelo Aedes aegypti. Todos esses fatores contribuem para a transmissão, não apenas de dengue, mas chikungunya e Zika. Em relação à região Nordeste, o Dr. Pamplona reporta que há um aumento significativo na transmissão da doença nesse momento, além dos casos de chikungunya, o que deve colocar as pessoas e gestores em alerta. Para ele, a intensificação das chuvas nesse período e o longo tempo sem as visitas domiciliares contribuíram de forma importante para o cenário atual que vivemos.

O Dr. Mauro Shugiro Tada, diretor-geral do Centro de Pesquisa em Medicina Tropical da Secretaria Estadual de Saúde do Estado de Rondônia (CEPEM-SESAU), concorda com o Dr. Pamplona e acrescenta que o acúmulo de lixo em terrenos baldios e de residências fechadas ajudaram significativamente na proliferação de mosquitos transmissores da dengue. O pesquisador atenta que na região Norte, o mês de março sinaliza o final do período chuvoso e se inicia um aumento de criadouros de mosquitos que tem seu auge em abril e com isso a transmissão ocorre mais intensamente, assim, se as chuvas se prolongam, os surtos também. Em relação a situação no Norte, o Dr. Tada diz que é bem peculiar em razão da baixa densidade populacional em que apenas grandes cidades (capitais) principalmente as verticalizadas como Manaus e Belém, têm as mesmas projeções que outras regiões do Brasil. “As demais cidades de médio e pequeno porte no interior da Amazônia, os surtos são localizados e de menor intensidade”, ressalta.

O médico epidemiologista e professor da Faculdade São Leopoldo Mandic de Campinas, Dr. André Ribas Freitas, complementa que o retorno da circulação de pessoas leva a um aumento na circulação do vírus e com isso a possibilidade de transmissão cresce bastante. “Este ano, a ocorrência e o aumento de casos se deu de maneira tardia, nos meses de março e abril. Entretanto, não foi possível uma dinâmica suficiente para formar uma grande epidemia, embora pontos isolados tenham apresentado surtos, mas não foi uma situação generalizada, contudo 2023 pode ser diferente”, pontua. Além disso, ele não descarta a possibilidade de uma epidemia de chikungunya no próximo ano. “Isso precisa ficar no radar, uma vez que, por exemplo, o interior do estado de São Paulo, nunca foi afetado de maneira significativa por esta doença, e, portanto, tem quase a totalidade da população suscetível”, assinala. Para ele, os municípios maiores das regiões Nordeste e Sudeste, que não foram afetados esse ano, e que têm história de epidemias de dengue, merecem bastante cuidado, uma vez que a possibilidade disso ocorrer é uma realidade importante e que deve ser considerada.

A Superintendente de Vigilância em Saúde de Goiás, Dra. Fluvia Amorim, lembra que quando se trata de dengue, não é apenas um fator que causa a epidemia ou que faz os casos diminuirem, e sim um conjunto de fatores (climáticos, falta de agentes, formação de bolsões etc). “Infelizmente é um conjunto de fatores que culminam no que estamos vendo em Goiás, na região Centro-Oeste e em outras regiões do País. Além disso, a região Centro-Oeste tem o clima favorável, quente praticamente todo o ano, com índices pluviométricos altos, principalmente no verão, o que também favorece a proliferação do Aedes aegypti, e que consequentemente leva ao aumento da transmissão”, diz. “Ao se avaliar a incidência de dengue em um estado ou região, deve-se levar em consideração a capacidade da vigilância epidemiológica desse local, quanto mais sensibilizados, quanto mais trabalhada a importância da notificação junto às unidades assistências, sejam elas privadas ou públicas, maior será o número de notificações”, salienta. Ainda segundo ela, é importante que as secretarias municipais e os gestores emitam alerta aos profissionais de saúde para ocorrência de casos de dengue, tanto na parte de vigilância como na parte de manejo clínico. “O que nos assustou em Goiás e que talvez esteja acontecendo em várias outras regiões do País é que muitos gestores municipais decidiram contratar empresas terceirizadas para combater o vetor e, dessa forma, não sabemos qual o inseticida utilizado, a diluição, se é está sendo aplicado no período correto, inclusive já verificamos inclusive a aplicação em horário do dia não recomendado. Para evitar que ocorra resistência dos mosquitos aos inseticidas utilizados, estamos editando no estado uma resolução para regular esse tipo de serviço”, assinala a Dra. Amorim.

A Dra. Cátia Favreto, enfermeira Especialista em Saúde Pública, reconhece que o Rio Grande do Sul está com aumento bem expressivo de dengue, sendo 2022 com mais notificações em uma série histórica desde 2010. “O Rio Grande do Sul vem acompanhando uma tendência no Brasil de aumento dos casos”, frisa. Segundo ela, levando em consideração a série histórica, maio deveria representar o início da diminuição dos registros. “Entretanto não temos como prever, pois, como 2022 está sendo um ano diferenciado em número de casos, ainda podemos manter a confirmação destes”, observa. Sobre os casos autóctones, contraídos dentro do estado, também houve um aumento expressivo. Os dados, que são atualizados diariamente, estão disponíveis neste painel de arboviroses.

Co-infecção dengue e chikungunya

A Dra. Amorim admite a gravidade da situação no Centro-Oeste, região que historicamente sempre é vista com as maiores incidência de dengue. No entanto, segundo ela, em maio de 2021, foi observado o aumento de casos de chikungunya e hoje o estado passa por uma explosão não só de dengue, mas também de chikungunya, inclusive com muitos casos de co-infecção. “Percebemos que os profissionais de saúde e a população começaram a dizer que essa dengue parecia ser mais forte e então decidimos verificar qual era o vírus predominante. Ao realizarmos a vigilância virológica, identificamos o vírus DENV-1, que pela literatura, na escala de virulência, é o menos virulento. Mas temos também em circulação, em menor número, o vírus DENV-2”, descreve. O que chama a atenção e preocupa nessa explosão de casos, segundo ela, é o número de relatos em crianças, inclusive com óbitos. “Estamos monitorando os casos, fazendo vigilância virológica e genômica e procurando sequenciar algumas amostras para saber qual é a linhagem filogenética desses vírus para entendermos um pouco mais o que está acontecendo no estado de Goiás”, pondera.

Perigo está por vir

Os especialistas alertam que em 2023 a situação deve ficar um pouco mais complicada. “Já faz uns quatro anos que não há uma grande epidemia, além disso, a circulação viral ficou muito baixa em razão do distanciamento social, levando à queda na imunidade coletiva de maneira generalizada. A possibilidade de uma nova epidemia para o ano que vem, com certeza, está colocada, especialmente na região Sudeste”, afirma o Dr. Freitas. O Dr. Pamplona também adverte que 2023 pode ser um ano com alta taxa de transmissão dessas doenças vetoriais transmitidas pelo Aedes aegypti em virtude do longo tempo sem controle adequado. “Além disso, temos coortes de pessoas novas que nunca foram expostas há alguns sorotipos e recirculação em várias regiões do DENV-2”, argumenta.

Medidas

O problema da dengue praticamente pode ser resolvido com a vacina em teste se obtiver o resultado esperado nesta fase III, (em torno de 90% de efetividade). Enquanto isso, a melhor forma de prevenção está dentro das casas. Mudanças no comportamento da população para eliminar criadouros tornam as medidas de controle muito mais eficientes. Temos grande chance de elevação de casos de dengue, Zika e chikungunya em 2023 e isso pode ser melhorado se houver engajamento da população. A aplicação de UBV (Fumacê) serve para o controle químico do Aedes, mas sozinho não resolve uma epidemia. “O Saneamento Básico, como ocorre nos países civilizados, é a solução do momento, além, é claro, de resolver todas as doenças por transmissão hídrica. A importância disso, também, é que se achava que o mosquito da dengue se reproduzia apenas em coleções de água parada e limpa, sabemos hoje que se reproduz intensamente em ‘fossas negras’ e a questão sanitária no Brasil é muito ruim, principalmente na Amazônia e no Nordeste”, finaliza o Dr. Tada.