COVID: relato de caso grave de médico com índice de massa corporal de 35

Publicação: 10 de agosto de 2020

Na admissão foi iniciado O2 sob máscara e hidratação venosa, uma tomografia de tórax revelou um infiltrado em vidro fosco acima de 50%

Ao ser admitido o paciente estava vigil e orientado, febril 38C, taquidispneico, FR 30, taquicárdico, pressão arterial de 120×80, hidratado, acianótico, a saturação de O2 era de 89%

Paciente do sexo masculino, com 54 anos de idade, foi admitido no hospital com história de febre irregular há seis dias, cefaleia, mialgias, tosse e dispneia aos esforços. Ele trabalha como médico e tem um índice de massa corporal de 35. Como comorbidade ele tem hipertensão arterial sistêmica e quadro depressivo. Faz uso regular do álcool e de medicações antidepressivas.

Na cidade onde vive e trabalha está ocorrendo um importante surto de Sars-cov-2. A data de admissão hospitalar foi 26 de junho de 2020 e na UTI 27 de junho de 2020.

Ao ser admitido o paciente estava vigil e orientado, febril 38C, taquidispneico, FR 30, taquicárdico, pressão arterial de 120×80, hidratado, acianótico, a saturação de O2 era de 89%. O exame do aparelho respiratório revelou muitos roncos e creptos disseminados, o aparelho cardiovascular não revelou sopros e o abdomem era normal. Um swab nasal foi positivo para o SArs-cov-2.

Na admissão foi iniciado o uso de O2 sob máscara e hidratação venosa, uma tomografia de tórax revelou um infiltrado em vidro fosco acima de 50%, ver figura 01. Observa-se o intenso infiltrado em vidro fosco bilateral. O infiltrado também pode ser verificado na figura 02.

 

Figura 01: Múltiplas opacidades em vidro fosco, com predomínio perilobular.

 

Figura 02 – intenso infiltrado verificado no Rx de tórax no leiro.

 

O hemograma de admissão revelou ht 45%, 10.000 leucócitos com 7% de linfócitos e plaquetas de 120.000; a creatinina de 2,0 mg%, D-dímero de 1200; ALT 60UI/L, AST 70UI/L; Proteína C reativa de 80mg.

Nos dias seguintes a admissão houve piora significativa da função respiratória e hemodinâmica. Drogas vasoativas foram iniciadas e o paciente foi submetido a ventilação invasiva. Houve deteriorização progressiva da função renal e a hemodiálise foi iniciada. Esquema antibiótico com piperacilina-tazobactan foi iniciado, sendo posteriormento substituído por meropenem e linezolida. Ele não fez uso de corticosteróides, imunomoduladores ou plasma de convalescente. No período de maior gravidade foi mantido sob sedação e medidas de mudança de decúbito foram otimizadas, como a pronação para melhorar a troca gasosa.

Duas semanas após a ventilação mecânica foi iniciado o processo de desmame da ventilação, retirada das drogas vasoativa e o paciente teve melhora progressiva. Um swab nasal de controle para alta da Unidade de Terapia Intensiva foi negativo para o Sars-cov-2 no 21 dia de admissão.

Atualmente o paciente encontra-se bem, vigil, ainda em hemodiálise com programação de alta para a enfermaria.

O Rx de tórax atual se observa na figura 03.

 

Figura 03 – melhora significativa dos infiltrados pulmonares.

 

Discussão sumária do caso:

Trata-se de um caso confirmado de covid e grave que apresentou complicações respiratórias e renais. O seu manejo foi realizado somente com medidas corretivas para distúrbios da oxigenação, ácido–básicos e hemodinâmicos.  Foi ainda utilizado antibioticoterapia e fisioterapia como a pronação.

Possivelmente o uso de drogas que interfiram no sistema imune como doses altas de corticoide, anticorpos monoclonal recombinante, plasma de convalescente, ivermectina, hidrocloroquina ou cloroquina podem impactar negativamente sobre o sistema imune do paciente e piorar o prognóstico.

Além da recomendaçãoo da dose de dexametasona 6mg ao dia ou ainda o uso do Rendezivir não há até o momento recomendação na literatura para uso de outras medicações.

Reforçamos a necessidade do tratamento da terapia intensiva no sucesso terapêutico destes casos.

Colaboraram na elaboração do caso:

Kleber Luz – CRM 2602 – médico Infectologista, professor do Departamento de Infectologia da UFRN.

Daniel Calich Luz – CRM 7636 – médico radiologista.

João Gabriel Villar Cavalcante – CRM 7363 – médico generalista do Hospital Rio Grande – Natal-RN.

*Este caso foi adaptado de um caso real para fins de ilustração.