COVID-19: País pode virar grande laboratório de testes para vacina

Publicação: 10 de agosto de 2020

Diferentemente da Europa, ou da China, a covid-19 está em plena expansão no Brasil, condição ideal para testar a eficácia das vacinas

Duas das vacinas mais promissoras estão em teste no País: uma desenvolvida pela Universidade de Oxford em cooperação com a empresa farmacêutica britânica AstraZeneca e outra da empresa chinesa Sinovac

Enquanto a pandemia de COVID-19 avança e faz novas vítimas diariamente, a corrida está acelerada no mundo da ciência que trabalha incessantemente na busca por uma vacina eficaz e segura contra o SARS-CoV-2 capazes de frear a escalada de infecções. Atualmente no mundo há mais de 160 vacinas em desenvolvimento para o novo coronavírus, dessas, 27 já estão em fase de estudos clínicos. Aqui no Brasil, um dos países mais afetados do mundo, com mais de 3.2 milhões de casos e mais de 106.500 mortes, até 15 de agosto, duas das vacinas mais promissoras estão em teste: uma desenvolvida pela Universidade de Oxford em cooperação com a empresa farmacêutica britânica AstraZeneca e outra desenvolvida pela empresa chinesa Sinovac Life Science. As duas vacinas já passaram pelas fases 1 e 2 de teste e agora entram na fase 3, quando serão testadas em um grupo maior de pessoas, para verificar se sua eficácia e segurança se confirmam em um contingente maior de participantes. Os estudos clínicos da fase 3 para vacinas contra o coronavírus são os primeiros do gênero no País. O teste da vacina desenvolvido pela universidade de Oxford é realizado em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e mais dois outros centros de pesquisa, na Bahia e no Rio de Janeiro. A vacina da SINOVAC será testada nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, além do Distrito Federal. Mas será que tão logo teremos disponível algum imunizante contra a doença? É possível que mais de uma das vacinas seja eficaz e aprovada? E para isso as pesquisas seguem a todo vapor mundo afora.

Para debater o tema, a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) realizou, no dia 22 de julho, webinar com a participação do Dr. Pedro Folegatti, infectologista brasileiro e clínico líder no programa de vacinas COVID-19 no Instituto Jenner de Oxford, Reino Unido e do Dr. Ricardo Palacios, diretor médico de Pesquisa Clínica do Instituto Butantan, que coordena testes com a vacina da SINOVAC no Brasil. Também participaram como debatedora a Dra. Marta Heloísa Lopes, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), e a Dra. Rosana Richtmann, médica Infectologista do Instituto de Infectologia Emilio Ribas. O Dr. José Angelo Lindoso, infectologista do Instituto de infectologia Emílio Ribas e professor do departamento de moléstias infecciosas da FMUSP, foi o moderador do programa.

Em sua apresentação, o Dr. Folegatti explicou que a vacina de Oxford é desenvolvida em uma plataforma que utiliza um adenovirus como vetor que expressa uma proteína de superfície do SARS-CoV-2, produzida a partir de um gene que codifica a proteína e que foi inserido no adenovirus. “O vetor é um adenovirus não replicante devido a deleção do gene responsável por essa função no adenovirus, fazendo com que o mesmo não induza doença. O gene é substituído pelos genes que vão codificar as proteínas que serão imunizantes. Esse processo pode ser usado para o desenvolvimento de várias vacinas contra diversas doenças. O vetor viral é estruturalmente o mesmo independentemente do antígeno que desejarmos utilizar”, complementou. Ainda de acordo com o pesquisador, a vantagem da utilização do vetor – adenovírus símio ao invés de um adenovírus humano – é a diminuição da chance das pessoas terem anticorpo neutralizante contra o vetor que possa implicar em imunogenicidade reduzida da vacina. “Precisamos que o vetor se infecte para expressar o antígeno e a partir deste momento ele possa deixar de se replicar”, esclareceu.

O Dr. Folegatti ressaltou ainda que a plataforma de vetor viral induz não só a resposta humoral, mas também celular, e que existem algumas evidências acumuladas nos últimos meses mostrando que imunidade celular possa ter papel mais relevante na proteção contra coronavírus de forma geral. Foram realizados dois estudos em primatas não humanos, dois deles com o furão e um mais recente, publicado em versão preprint, com porcos. O paper deve ser divulgado nas próximas semanas. O pesquisador destacou que não existe nenhum modelo animal adequado para avaliação de vacinas contra o SARS-CoV-2, visto que os primatas não humanos não adoecem como os humanos e assim fica difícil de transpor os achados. Entretanto, o estudo mostrou que a vacina é imunogênica e que foi capaz de inibir a replicação viral em vias aéreas inferiores. Uma limitação da pesquisa foi a vacina não ter demonstrado proteção contra chad nasal.

O Dr. Palacios detalhou que a rota de sua candidata à vacina começou com a multiplicação do vírus da COVID-19 em células de mamífero e posteriormente o vírus é inativado por processo químico. Em sua apresentação, o pesquisador explicou que o sistema imune costuma reagir a esses preparados com a produção de anticorpos feitos sob medida contra o patógeno; e com o amplificação de um conjunto de células que farão mais desses anticorpos quando houver a segunda dose da vacinação. “É assim que ocorre com a vacina contra a hepatite A ou B”, exemplificou. Em maio, a revista Science publicou os resultados de testes feitos com a vacina – basicamente, o próprio vírus da COVID-19 multiplicado, purificado das células em que cresceu e devidamente neutralizado, para não causar doença – em camundongos, ratos e macacos Rhesus. Para o estudo, os autores selecionaram 11 cepas de SARS-CoV-2. Utilizaram uma das cepas para inativar e purificar, e usaram cepas de diferentes origens, incluindo cepas de origem europeu, para avaliar imunogenicidade nos animais. Os camundongos, ratos e macacos produziram anticorpos contra essas cepas, uma indicação de que a vacina poderia ser usada contra grande parte das cepas em circulação.

O Dr. Palacios pontuou que, assim como a vacina de Oxford, a da SINOVAC não conta com uma imunidade esterilizante. “Não há como esperar, pelo menos para essas primeiras gerações, imunidade esterilizante, embora haja redução na quantidade de vírus que são recuperados nas vias áreas superiores. E essa redução pode ter algum efeito indireto por redução de carga viral”, acrescentou. Segundo ele, uma pessoa vacinada terá menos possibilidade de transmitir, mas não se pode afirmar que haverá imunidade esterilizante como existe, por exemplo, na vacina de sarampo, em que se pode almejar inclusive a erradicação. Para o pesquisador, neste caso, a erradicação não é uma perspectiva factível no momento. Ele lembrou ainda que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e agencia regulatória americana, FDA, preconizam que uma vacina que demonstre, pelo menos, 50% de proteção é suscetível de aprovação, comercialização e distribuição. A boa notícia é que o SARS-CoV-2 não apresenta a patologia paradoxal à vacina, ou seja, doença potencializada por vacina.

A Dra. Lopes, uma das debatedoras, em suas considerações não escondeu seu entusiasmo e enalteceu as duas vacinas promissoras investigadas no Brasil, um diferencial muito grande, segundo ela. Para a professora, quanto mais produtos, mais chances de conter a pandemia. “Acredito que provavelmente virão outras vacinas para serem investigadas e isso vai ajudar à contenção da pandemia”, frisou. Em sua fala, a Dra. Lopes repercutiu um comentário veiculado na revista Lancet, em 20 de maio, de autores franceses, em que eles temiam a politização e como decorrência a hesitação em relação à vacina de COVID na França.

“Atento que no Brasil, por motivos diversos, temos presenciado a diminuição das coberturas vacinais. Assim, entendo que deveremos ter muito cuidado na introdução das discussões das vacinas para COVID-19 afim de não incorrermos na politização, que pode acarretar, inclusive, hesitação”, salientou. De acordo com a professora, para que isso não ocorra se faz necessário promover debates amplos, apresentações minuciosas das vacinas, de dados confiáveis, exatamente como a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) está fazendo. “É isso que a população, os pesquisadores, as autoridades de saúde pública e os políticos precisam”, reconheceu. Em relação à vacina de Oxford, a Dra. Lopes recomendou mais robustez na resposta à análise imune celular. Ela também indagou as doses a serem aplicadas com a vacina da SINOVAC duas doses da vacina em um intervalo de 14 dias? “Do ponto de vista de campanha de saúde pública, essa é uma operacionalização difícil e que precisa ser discutida amplamente com todos os setores para evitar polarização e politização na saúde brasileira”, observou. Apesar da necessidade urgente de vacina, a Dra. Lopes lembrou que precisamos ser cautelosos, criteriosos e, além disso, ter segurança e dados claros para que ela possa ser disponibilizada para a população.

No início de sua fala, a médica Infectologista Dra. Richtmann retratou números e falou sobre a corrida contra o vírus e não a corrida das vacinas. “Temos 165 vacinas em desenvolvimento, destas 27 já em humanos, em fase 1 2 ou 3, e quatro na fase 3, sendo duas aqui”, citou. Para a médica, a intensa circulação do vírus no País justifica a escolha do Brasil para se tentar uma resposta rápida. Dando sequência, a infectologista revelou que no Estado de São Paulo, de Fevereiro a Junho, foram 281.380 mil casos confirmados de COVID, sendo mais de 53 mil em profissionais da saúde, ou seja, 19% dos casos confirmados no estado acometem os trabalhadores na área da saúde. “Nada mais justo do que focar neles, afirmou. Outra consideração da Dra. Richtmann diz respeito às plataformas. “Estamos diante de duas plataformas diferentes, uma muito nova, de vetor viral, que na prática não utilizamos. Traz novas tecnologias, que teremos de aprender em todos os aspectos, desde segurança, imunogenicidade, resposta imune celular. Estou convencida que isso vai fazer a diferença, disse.

A especialista aproveitou a ocasião para solicitar agilidade na publicação dos estudos de fase 1 e 2 da SINOVAC, o que vai colaborar para cada um chegar às suas conclusões. Ela frisou que os da Oxford saíram recentemente. Por fim, a médica relembrou que a vacina da SINOVAC utiliza uma tecnologia bastante conhecida e talvez a mais tradicional, motivo pelo qual são necessárias duas doses. “Temos pressa e por isso acredito que o intervalo de 14 dias esteja correto. Se os estudos preliminares mostram que não houve muita diferença entre zero-14 / zero-28, entendo, até por uma questão de logística do estudo, ser mais fácil realizar a vacinação em curto espaço de tempo”, concluiu. Por fim, ela reiterou a necessidade do um grande trabalho de conscientização da população sobre o que significa eficácia vacinal – pode significar não ter a doença; ou não ter a infecção (melhor no sentido de transmissibilidade); ou não ter a doença grave; ou ter 50% de eficácia. A Dra. Richtmann reverberou ainda a expectativa criada de que vacina pode ter eficácia de 100%, o que não será possível. “Nossa guerra é contra o vírus, buscamos proteção contra a doença, e isso nada tem a ver com política”, encerrou.