COVID-19: o vírus da fome

Publicação: 10 de agosto de 2020

Pandemia provocou choque econômico e de saúde que causou perda de renda, aumento dos preços dos alimentos, interrupção das cadeias de suprimentos

Em 2019, 47 milhões de crianças sofriam com a desnutrição, perda de peso e magreza extrema. Pandemia deve dificultar meta da ONU em erradicar a fome no mundo até 2030

Quase 7 milhões de crianças adicionais em todo o mundo podem sofrer os efeitos da desnutrição em decorrência da crise econômica e social causada pela pandemia, segundo uma estimativa publicada pela Organização das Nações Unidas (ONU) no final de julho. Em 2019, 47 milhões de crianças sofriam com a desnutrição, perda de peso e magreza extrema, de acordo com o Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef). O Fundo advertiu ainda que com a pandemia, esse número pode atingir quase 54 milhões de crianças nos primeiros 12 meses da crise, o que pode se traduzir em 10 mil mortes infantis adicionais por mês, principalmente nos países da África Subsaariana e da Ásia. O Unicef baseou as informações em uma análise publicada pela revista médica The Lancet, em que os pesquisadores alertam para as consequências da desnutrição ligada à pandemia de COVID-19 nas crianças. Em meados de julho, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) também alertou que uma em cada nove pessoas no mundo sofreu desnutrição crônica em 2019, proporção que deve se agravar com a recessão deste ano provocada pelo COVID.

Apesar dos esforços para reduzir a pobreza global no mundo, cerca de 1,3 bilhão de pessoas em 107 países em desenvolvimento ainda são multidimensionalmente pobres, sem acesso a nutrição adequada, saúde, educação e um padrão de vida decente. Para o Dr. Francisco Funcia, economista e mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), a crise provocada pelo COVID deve atrapalhar o progresso alcançado até agora. “A pandemia tem provocado uma queda acentuada da atividade econômica e desemprego, o que agrava a situação principalmente dos países que, simultaneamente, apresentam grande desigualdade de distribuição de renda e sistemas de saúde que não garantam o acesso universal para a população”, destaca. Pelas estimativas da FAO, até 2030, se essa tendência continuar, o número de pessoas famintas deverá ultrapassar 840 milhões.

De acordo com o “2020 Global Multidimensional Poverty Índex” (MPI, sigla em inglês), dos 1,3 bilhões de pessoas que ainda vivem na pobreza multidimensional, mais de 80% sofrem privação em pelo menos cinco dos 10 indicadores usados para medir saúde, educação e qualidade de vida no MPI global. Ainda de acordo com os dados apontados no documento, o ônus da pobreza multidimensional cai desproporcional sobre as crianças, metade delas, dois terços, vive em países de renda média, 85% na África Subsaariana e no Sul da Ásia, 85% em áreas rurais.

Na opinião do economista Francisco Funcia, que também é professor e coordenador adjunto do Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, consultor técnico do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e ex-diretor da Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABRES), para mudar essa realidade é fundamental que todos os países tenham sistemas universais de saúde públicos e com recursos suficientes para esse fim. “As políticas de austeridade fiscal precisam ser substituídas por outras que priorizem a geração de emprego e renda, bem como a atenção básica à saúde como a ordenadora de toda a rede de atenção à saúde da população, mesmo que esse processo seja financiado inicialmente por meio do aumento da dívida pública, até que se promova uma reforma tributária que incida mais sobre a renda, o patrimônio e a riqueza”, explica.

Para ele, se faz necessário um pacto global em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS/Agenda2030/ONU) que garantam os direitos de cidadania, especialmente que a saúde não seja considerada como mercadoria e fonte de lucro. “No caso brasileiro, defender o Sistema Único de Saúde (SUS) e lutar contra o seu subfinanciamento, que passa pela revogação da Emenda Constitucional 95/2016, que congelou a aplicação mínima federal em saúde no valor do piso de 2017 e definiu como teto para todas as despesas primárias do governo federal o valor de 2016, o que na saúde significou uma perda de R$ 22,5 bilhões a partir de 2018”, ressalta.

Pandemia lança economia mundial na pior recessão

Segundo previsões do Banco Mundial, a economia global deve sofrer contração de 5,2% em 2020, isso representa a recessão mais profunda desde a Segunda Guerra Mundial, com a maior proporção de economias desde 1870 a experimentar declínio do produto per capita, segundo a publicação “Global Economic Prospects”. Confira as perspectivas regionais

Leste Asiático e Pacífico: As projeções para crescimento na região indicam uma queda para 0,5% em 2020, o índice mais baixo desde 1967, que reflete os distúrbios provocados pela pandemia.

Europa e Ásia Central: Há uma previsão de contração de 4,7% para a economia da região, com recessões presentes em quase todos os países.

América Latina e Caribe: Os choques provenientes da pandemia levarão a uma queda da atividade econômica regional de 7,2% em 2020.

Oriente Médio e Norte da África: A atividade do Oriente Médio e Norte da África devem ter uma contração prevista de 4,2% como resultado da pandemia e dos desdobramentos do mercado de petróleo.

Sul da Ásia: A atividade econômica da região está projetada para contrair 2,7% em 2020, tendo em vista que as medidas de mitigação da pandemia impedem o consumo e a atividade de serviços, e a incerteza acerca do curso da pandemia desestimula o investimento privado.

África Subsaariana: A atividade econômica na região está em via para uma contração de 2,8% em 2020, a mais profunda de que se tem registro.

As seções analíticas do “Global Economic Prospects” abordam os aspectos-chave do choque econômico histórico, como por exemplo:

– Quão profunda será a recessão de COVID-19? A investigação de 183 economias no período de 1870-2021 oferece uma visão histórica sobre as recessões globais.

– Cenários de possíveis resultados em termos de crescimento: As projeções de curto prazo estão sujeitas a um nível incomum de incerteza; cenários alternativos são examinados.

– Como a informalidade agrava o impacto da pandemia? As consequências de saúde e econômicas da pandemia irão provavelmente se agravar em países em que a informalidade é generalizada.

– Perspectivas para os países de baixa renda: A pandemia está tendo um forte ônus humano e econômico nos países mais pobres.

– Implicações macroeconômicas regionais: Todas as regiões enfrentam suas próprias vulnerabilidades à pandemia e à desaceleração a ela associada.

– Impacto sobre as cadeias globais de valor: Distúrbios nas cadeias globais de valor podem amplificar os choques da pandemia sobre o comércio, a produção e os mercados financeiros.

– Cicatrizes duradouras da pandemia: Recessões profundas são passíveis de provocar danos de longo prazo no investimento, erodir o capital humano por meio do desemprego e desencadear um recuo no comércio local e nas cadeias de suprimento.

– As implicações do petróleo barato: Os baixos preços do petróleo, resultantes de uma queda sem precedentes da demanda, provavelmente não atenuarão os efeitos da pandemia, mas podem prestar algum apoio durante a recuperação.

Paradoxo entre contenção da pandemia e economia

De acordo com o Professor Funcia, esse “falso dilema” – porque não há atividade econômica sem trabalhadores e consumidores com saúde vivendo em ambiente saudável – colocado pelo Presidente da República com o apoio de segmentos empresariais logo no início do processo de isolamento social contribuiu negativamente tanto para o enfrentamento da COVID-19, como para a atividade econômica. Ainda segundo o professor, o que estamos assistindo são as consequências desse “falso dilema”: a economia está em recessão profunda, e assim ficará por mais algum tempo porque não adianta flexibilizar o distanciamento social (cuja adesão não foi majoritária) se uma parte da população percebe que o risco de contágio ainda é grande (as curvas de casos e de mortes estão situadas em patamares muito elevados). Mas, muitos não tiveram condição de cumprir essa medida por muito tempo.

“Na verdade, a adesão da população nunca foi majoritária porque a grande desigualdade socioeconômica existente no Brasil exigia medidas de proteção social do governo federal muito mais profundas que o auxílio emergencial de R$ 600,00 por mês (com despesas públicas estimadas em apenas R$ 250 bilhões nesses 5 meses, ou seja, menos de 4% do PIB). Seriam também necessárias medidas federais de proteção econômica para micro, pequenos e médios empreendimentos, que são grandes geradores de emprego”, observa o Dr. Funcia.

Em seu entendimento, se houvesse desde os primeiros dias da COVID-19 no Brasil um processo de planejamento integrado e coordenação nacional com participação do governo federal para estimular um índice de adesão ao isolamento social maior que o verificado nos primeiros 60 dias, a flexibilização poderia ter iniciado em junho e de forma segura, porque os casos e as mortes estariam em níveis bem mais baixos que os atuais, o que teria demandado inclusive menos recursos públicos para as despesas com assistência à saúde e com proteção econômica e social e, principalmente, evitado mortes. “Além disso, poderiam ter sido adotadas medidas (nesses quase 150 dias de conhecimento da existência do COVID-19) no Brasil para financiar a reconversão de parte do nosso parque industrial para a produção de materiais, medicamentos e outros produtos para atender à demanda extraordinária das unidades de saúde (diante da escassez observada no mercado e/ou dos altos preços praticados pela iniciativa privada)”, detalha o mestre em Economia Política.

O consultor técnico do Conselho CNS também é categórico ao afirmar que a defesa do direito à saúde, priorizando a vida da população, seria uma forma também de proteger a economia. “Para isso, seria necessário tão somente o governo federal enfrentar a COVID-19 com medidas planejadas e articuladas nacionalmente para evitar a explosão dos casos de contágio e de mortes”, enfatiza o Dr. Funcia.

Preocupação com o futuro

Conforme dados divulgados pela FAO, 10 milhões de pessoas a mais do que em 2018 entraram na lista da fome, e, se compararmos com 2014, esse contingente de famintos engrossou em mais 60 milhões de indivíduos pelo planeta. É provável que a recessão global causada pandemia de COVID leve a fome entre 83 e 132 milhões de pessoas a mais nos próximos anos a depender do tamanho da queda da economia e da demora na recuperação, o número pode aumentar ou diminuir. A ONU atenta que a fome tem voltado a aumentar no mundo desde 2014, ainda que vagarosamente, à exemplo da Ásia, onde 381 milhões passam fome; da África, com 250 milhões de famintos e da América Latina e Caribe com 48 milhões de pessoas. E qual será o futuro do mundo tropical após a pandemia?

O médico epidemiologista César Victora, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), primeiro brasileiro a receber o Prêmio Gairdner, mais importante premiação científica do Canadá, e presidente da Associação Epidemiológica Internacional de 2011 a 2014, afirma que o mundo tropical após a pandemia certamente precisará de muitos esforços para controlar as doenças tropicais que serão seriamente afetadas, tanto pelo número de pessoas doentes (e possibilidade de comorbidade) quanto pela ruptura dos serviços de saúde. “Teremos que aumentar os investimentos para atingir toda a população, particularmente os grupos mais vulneráveis, como os mais pobres e minorias étnicas, com as intervenções que podem reduzir a morbimortalidade por todas as doenças, inclusive as doenças caracterizadas como tropicais”, assinala.

Os dados preocupam, uma vez que a tendência reverte décadas de diminuição no número de pessoas famintas, além disso, o aumento da fome no mundo serve de alerta, pois, com a piora nos indicadores, dificilmente os países cumprirão a meta de erradicar a fome a partir de 2030. As perspectivas futuras parecem desanimadoras e a crise causada pelo COVID vai deixar cicatrizes duradouras e impor grandes desafios globais. A pandemia destaca a necessidade urgente de ações de política econômica e de saúde, incluindo a cooperação global, para amortecer suas consequências, proteger as populações vulneráveis e fortalecer a capacidade dos países para prevenir e lidar com eventos semelhantes no futuro. Além da crise provocada pelo coronavírus, vale lembrar que o mundo já enfrentava outras que contribuem para dados ruins e pioram o cenário da fome no planeta, entre elas, está a guerra do Iêmen, uma das crises humanitárias mais graves deste século.