Covid-19: longo efeito na economia global

Publicação: 9 de outubro de 2021

Países em desenvolvimento podem arcar com a maior parte dos custos da crise do coronavírus

Países em desenvolvimento estão tendo mais dificuldades para se recuperar e enfrentarão problemas em 2022. Divisão entre nações ricas e pobres exige mudanças.

A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad), divulgou em meados de setembro o Relatório “Trade and Development Report 2021: From recovery to resilience: the development dimension”, que soou cautelosamente otimista ao dizer que a economia global está preparada para uma forte recuperação em 2021. Os dados indicam que haverá uma recuperação de 5,3% este ano, desacelerando para 3,6% em 2022. O relatório também destaca recuperações econômicas divergentes entre as nações ricas e pobres e lança nova urgência por trás dos alertas de que as nações mais ricas não estão fazendo o suficiente para ajudar os países mais pobres ficarem para trás enquanto o mundo se recupera das interrupções da Covid-19.

De acordo com o documento, os sistemas públicos de saúde deficientes e altos níveis de informalidade aumentaram o impacto da pandemia em termos de saúde e resultados econômicos, o que se refletiu em um aumento acentuado nas taxas de pobreza. Ainda de acordo com o relatório, os danos da pandemia ultrapassaram os da Grande Recessão de 2007/2009 na maior parte da economia global, mas tem sido particularmente drenada no mundo em desenvolvimento. Os países em desenvolvimento (exceto a China) serão, em 2025, até US $ 8 trilhões mais pobres como consequência da crise do coronavírus.

A Unctad afirma que restrições fiscais, falta de autonomia monetária e de acesso a vacinas estão segurando a recuperação dos países em desenvolvimento e aumentando o abismo entre eles e as economias avançadas, ameaçando iniciar outra década perdida. De acordo com a entidade, os formuladores de políticas econômicas dos países avançados ainda não acordaram para o tamanho do choque provocado pela pandemia e para sua persistência nos países em desenvolvimento. A instituição alerta ainda que o aumento dos preços dos alimentos pode representar uma séria ameaça às populações vulneráveis nos países do Sul, já enfraquecidas financeiramente pela crise sanitária.

Nas economias avançadas, a classe rentista experimentou uma explosão de riqueza, enquanto os de baixa renda lutam. Países em desenvolvimento estão tendo mais dificuldades para se recuperar e enfrentarão problemas no ano que vem. O Brasil deve ter o menor crescimento entre às principais economias em 2022, que deve cair de 4,8% em 2021 para 1,8% em 2022. Já a Índia, que sofreu uma contração de 7% em 2020, deve crescer 7,2% em 2021. Trecho do documento que trata especificamente do Brasil aponta que, apesar do pesado custo humano da pandemia, a economia brasileira contraiu apenas 4,1% em 2020 em função das políticas fiscal e monetária adotadas. Em 2021, a recuperação de preços das commodities e uma redução gradual do estímulo fiscal deve ajudar o Produto Interno Bruto (PIB) a crescer 4,9%.

O relatório evidencia que o impacto nos países menos desenvolvidos é mais forte e será mais duradouro do que nos países ricos. As perdas dos países em desenvolvimento em relação ao que eles poderiam produzir caso não tivessem sido tão duramente atingidos pelo coronavírus são estimadas pela Unctad em US$ 12 trilhões entre 2020 e 2025. As projeções da instituição para 2022 indicam crescimento de 6,7% (Índia), 5,7% (Índia), 4,9% (Indonésia), 3,6% (Turquia), 3,4% (França), 3,3% (Arábia Saudita), 3,2% (Alemanha), 3% (Itália), 3% (EUA), 2,9% (Argentina), 2,9% (Canadá), 2,8% (México), 2,8% (Coreia), 2,8% (Austrália), 2,3% (Rússia), 2,1% (Japão), 2,1% (Reino Unido) e 1,8% (Brasil). Já os EUA devem crescer 5,7% em 2021, seguidos por um crescimento de 3% do PIB em 2022.

O aumento de preços temporários causados por problemas de oferta e algumas pressões do lado da demanda podem se tornar desculpas para reverter as políticas necessárias para sustentar a recuperação nas economias avançadas. Segundo a secretária-geral da Unctad, Rebeca Grynspan, a recuperação global da pandemia deve ir além dos gastos de emergência e investimentos em infraestrutura para abraçar um modelo multilateral revigorado para comércio e desenvolvimento. Ainda segundo ela, apenas um repensar coordenado das prioridades mantém a esperança de abordar a desigualdade e as crises climáticas que definiram essa era.

Para a instituição, uma recuperação menos desigual exigirá cooperação multilateral com políticas adicionais e transformações que vão muito além dos pacotes de resgate provocados pela pandemia. Em relação as lições trazidas pela crise atual, a Unctad afirma que os países em desenvolvimento precisam de apoio para expandir seu espaço fiscal, que a recuperação depende do investimento público e que os bancos públicos e uma supervisão regulatória mais forte podem proporcionar um clima de investimento mais saudável.