COVID-19: estudo analisa 250 mil hospitalizações no Brasil

Publicação: 5 de fevereiro de 2021

De acordo com o estudo, 80% dos pacientes que necessitaram de ventilação invasiva morreram no País. A mortalidade dos hospitalizados foi maior no Norte e Nordeste, regiões que possuem menos leitos hospitalares e de UTI per capita

Grupos vulneráveis que incluem negros, indígenas e analfabetos foram os que mais atingidos, de acordo com a pesquisa

Publicado na revista The Lancet Respiratory Medicine o estudo intitulado “Characterisation of the first 250 000 hospital admissions for COVID-19 in Brazil: a retrospective analysis of nationwide data” analisou as primeiras 250 mil hospitalizações por COVID-19 no Brasil, registradas entre 16 de fevereiro e 15 de agosto de 2020 revelando como características de cor e idade, necessidade de ventilação mecânica ou internação em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) afetaram a mortalidade, bem como a distribuição desses dados por região. O trabalho, realizado em colaboração entre pesquisadores de instituições brasileiras e estrangeiras, teve como objetivo analisar as características dos pacientes internados e examinar o impacto da doença nos recursos de saúde e mortalidade intra-hospitalar.

De acordo com o Dr. Fernando Augusto Bozza, chefe do Laboratório de Pesquisa Clínica em Medicina Intensiva do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Fundação Oswaldo Cruz (INI/Fiocruz), o estudo fez uma análise retrospectiva das hospitalizações de pacientes maiores de 20 anos com diagnóstico de COVID-19 confirmado por RT-PCR e registrados no Sistema de Informação de Vigilância da Gripe (Sivep-Gripe), Sistema Nacional de Vigilância do Brasil. Os pesquisadores compararam a carga regional de internações hospitalares, estratificadas por idade, admissão em unidades de terapia intensiva e o uso de suporte respiratório.

De acordo com o pesquisador, os resultados demonstraram que apesar da COVID-19 ter pressionado o sistema de saúde em todas as regiões, a necessidade de hospitalização e mortalidade no início da pandemia foram consideravelmente maiores nas regiões Norte e Nordeste. “A mortalidade hospitalar geral foi de 38% para todo o País. No Norte, 6.727 pessoas perderam a vida, o que representa quase metade dos hospitalizados. Na região Nordeste, 21.858 morreram, o que representa 48%”, detalha o Dr. Bozza. O Sul foi o menos afetado, 7697 óbitos, ou seja, taxa de 31% entre os hospitalizados.

Além disso, o estudo evidenciou também as disparidades regionais entre as pessoas internadas em UTIs. Na comparação do percentual por regiões, os dados revelam que 79% das pessoas internadas nessas unidades morreram no Norte; 66% no Nordeste; 53% no Sul; 51% no Centro-Oeste; e 49% no Sudeste. No total, 59% dos que foram internados em UTIs brasileiras perderam a vida e 80% dos que precisaram de ventilação mecânica vieram a óbito, ou seja, das 45.205 pessoas intubadas, 36.046 morreram.

De acordo com o Dr. Bozza, a mortalidade entre os pacientes com menos de 60 anos é outro aspecto que chama a atenção. “Apesar das regiões Norte e do Nordeste terem maior proporção de jovens, essa população também foi afetada. Foi observado que um percentual significativo de pessoas hospitalizadas e que vieram a óbito tinha menos de 60 anos”, ressalta. Os dados apontam mortalidade de 31% no Nordeste, contra 15% no Sul.

Outro aspecto que evidencia as desigualdades, segundo o pesquisador, diz respeito aos grupos vulneráveis que incluem negros, indígenas e analfabetos, que de acordo com a pesquisa foram os que mais atingidos. Segundo os dados, 43% de pretos e pardos perderam a vida, seguido de 42% de indígenas, contra 40% de asiáticos e 36% de brancos. A proporção de óbitos também foi menor quando avaliado o grau de escolaridade: 63% de analfabetos; 30% com ensino médio e 23% com curso de graduação.

Por fim, o Dr. Bozza salienta que até o momento, os dados de mortalidade de pacientes hospitalizados com COVID-19 e seus efeitos sobre sistemas de saúde em países de baixa e média renda são bastante limitados. “Neste sentido, a pesquisa contribui ao documentar o efeito da pandemia sobre as populações e o sistema de saúde brasileiro, e ao mostrar a importância de se ter um sistema de saúde equilibrado, imparcial e justo, em especial para os mais vulneráveis”, conclui.

O grupo de pesquisadores que desenvolveu o trabalho também conta com a participação de profissionais da Universidade de São Paulo (USP), Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Instituto D’OR de Pesquisa e Ensino (Idor) e o Barcelona Institute for Global Health (ISGlobal).