COVID-19 está longe de ser a última pandemia do planeta

Publicação: 8 de outubro de 2020

Será que a nossa experiência com o COVID-19 já mostrou como lidar com futuras pandemias

COVID-19 não será a última pandemia que a humanidade vai enfrentar, mas ainda não há como saber quando e de onde virá a próxima, nem qual será o agente causador (vírus, bactéria ou outro micro-organismo)

Os cientistas vêm alertando sobre uma pandemia zoonótica há décadas. E muitos alertam que haverá mais deles. Mas, afinal, por que elas são inevitáveis?

O professor do Centro de Segurança Sanitária da Universidade Johns Hopkins, Dr. Amesh Adalja, especialista em doenças infecciosas emergentes, preparação para pandemia e biossegurança, explica que o mundo está repleto de microorganismos e é um fato biológico simples que as doenças infecciosas continuarão a nos impactar. “Algumas dessas infecções poderão se espalhar amplamente devido aos padrões e tempos de viagens, ao surgimento das megacidades e às interações com animais – essas forças favorecem a ocorrência de pandemias”, enfatiza.

O professor titular do Departamento de Política, Gestão e Saúde da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), Dr. Fernando Aith, concorda e acrescenta que as pandemias são inevitáveis em decorrência do fato de que o mundo é interligado. Na medida em que cresce não só a relação ambiental do Globo, também cresce a inter-relação entre as pessoas. “Um vírus da China chega ao Brasil em pouco tempo, e assim novos riscos sanitários globais se espalharão com cada vez mais rapidez e abrangência. Se os riscos forem letais, pior ainda”, destaca.

Virologista do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT USP), a Dra. Camila Malta Romano é categórica ao dizer que está longe dessa ser a última pandemia e afirma que é apenas uma questão de “quando” e não de “se” – outra pandemia vai acontecer. “Pandemias (nível global), embora menos comum do que epidemias (nível local) ocorrem de vez em quando e temos exemplos passados de situações esporádicas como a peste bubônica, mais de uma de influenza (gripe espanhola, asiática, suína etc. Entretanto, parece que ultimamente a emergência de agentes potencialmente pandêmicos tem sido mais frequente. Por exemplo, as pandemias de influenza: 1918 – gripe espanhola; 1958- H2N2; 1968 -H3N2; 2009 -H1N1. SARS, causado por um virus bastante similar ao atual SARS-COV-2, provocou a primeira epidemia do século 21 (2003) e já naquele momento, sabíamos que não seria a última. Portanto a pandemia do SARS-COV-2 certamente não será a última”, justifica.

Outro fator relevante é que ultimamente a emergência de agentes potencialmente pandêmicos tem sido mais freqüente. O Dr. Aith esclarece que isso ocorre porque estamos vivendo a Era do Antropoceno, o Planeta Terra deixou de ser o que era antes e passou a ter suas características ambientais permanentemente alteradas pela ação humana (atmosfera, solo, mar). Essa mudança implica por força da natureza em ajustes ambientais para os quais não estamos necessariamente preparados, como tem sido cada vez mais frequente.

No entendimento da médica veterinária, pesquisadora e professora do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), Dra. Alessandra Nava, o que se pode afirmar é que o mundo ainda enfrentará surtos de doenças zoonóticas emergentes. Algumas poderão ter potencial pandêmico, o que dependeria do potencial de infectividade do agente etiológico. “Porém, os surtos zoonóticos emergentes serão mais frequentes devido ao aumento sistêmico dos gatilhos para essas emergências como desmatamento, fragmentação florestal e conversão de florestas em pastos, áreas de mineração”, assinala.

Trópicos mais suscetíveis a uma próxima pandemia?

Alguns especialistas apontam que a América do Sul, sobretudo o Brasil, e a África Central são as regiões mais suscetíveis de produzirem as próximas epidemias. A Dra. Romano reconhece que os desequilíbrios ecológico, econômico e populacional são gatilhos para a introdução de agentes infecciosos na população humana, mas não há como assumir que a nova pandemia ocorrerá em países subdesenvolvidos.

O Dr. Adalja acredita que os Trópicos sejam mais suscetíveis à próxima pandemia, uma vez que as áreas tropicais têm mais interação humano-animal, espécies animais mais diversas e viajantes frequentes. “Isso pode levar a um risco relativamente maior nessas áreas, mas pandemias podem surgir em qualquer lugar (como o H1N1 surgiu no México em 2009)”, observa.

Para a Dra. Nava, a alta biodiversidade, e a alta pressão antrópica são fatores que aumentam a suscetibilidade dos Trópicos, aliado a grandes mudanças na paisagem como fragmentação florestal e desmatamento. Ela adverte que está havendo no Pantanal e Amazônia é muito grave e são situações que predispões ao surgimento de doenças zoonóticas infecciosas emergentes.

Fato é que a receita de uma nova crise sanitária está diante de nossos olhos: desmatamento, destruição de habitats, expansão de práticas intensivas agrícolas, de criação animal, caça e exploração predatória da vida selvagem, as quais aproximam pessoas de vírus e de outros patógenos novos e antigos, permitindo que, eventualmente, saltem para hospedeiros humanos. Aliado a isso, a urbanização desordenada, a mobilidade frenética e as viagens internacionais facilitam sua disseminação. E não podemos esquecer as mudanças climáticas, que também alteram profundamente o comportamento e dispersão de pessoas, plantas, animais e das próprias doenças.

Prevenir próxima pandemia

Enquanto a pandemia de COVID-19 segue deixando um rastro de milhões de vítimas e trilhões em prejuízos na economia mundo afora, fica o alerta para a necessidade de prevenir outra tragédia. Perigo que cresce com o desequilíbrio ambiental provocado pela própria ação humana. O Dr. Aith reconhece que o próprio homem cria riscos, invadindo habitats e levando o mundo a um desequilíbrio. “A ação do ser humano sobre o planeta está alterando o equilíbrio ambiental de tal maneira que novos riscos à vida do Homem na Terra certamente virão, seja da natureza (vírus, terremotos, mudança climática), seja do engenho humano (medicamentos, terapias, superbactérias, clonagens, Brumadinho), seja das novas relações sociais e de trabalho que se instalam (teletrabalho, redes sociais, etc.)”, atenta.

Apesar de tudo, ainda é possível mitigar os efeitos e o número de mortes que uma próxima pandemia pode causar. Para o Dr. Adalja, atividades de preparação para pandemia, como vigilância, testes diagnósticos, preparação hospitalar e contramedidas médicas são essenciais. “E a pandemia de COVID-19 nos ensinou que é crucial agir com rapidez e tomar as medidas corretas no início, antes que um surto saia de controle. Além disso, é importante impedir que políticas, campanhas de desinformação e ataques a especialistas atrapalhem a resposta”, salienta.

O Dr. Aith acrescenta que é fundamental fortalecer os sistemas de saúde dos Estados e criar um sistema de governança global mais eficiente, dando mais poderes à Organização Mundial da Saúde (OMS) para que atue no controle das futuras pandemias de forma mais contundente e resolutiva, inclusive intervindo em Estados que não observam as diretrizes da Organização no combate à epidemia.

Todos são unânimes que além de evitar é preciso que o mundo esteja melhor preparado para conter o próximo agente biológico. A Dra. Romano relembra que falem da questão científica, têm as questões econômicas e políticas de cada país. “Países que melhor controlaram a pandemia foram os que tomaram atitudes drásticas desde o início e não precisaram ser muitas: fechamento de fronteiras e testagem em massa. Conter uma pandemia é possível, mas não é uma tarefa simples. E é nossa obrigação ter aprendido alguma coisa com essa”, frisa.

Ainda de acordo com a Dra. Romano, evitar a próxima pandemia deve ser uma ação global. “Como já sabemos que as chances dela também se originar de animais e do seu contato próximo com humanos, é preciso evitar o desmatamento, o trafico ilegal de animais silvestres, o consumo de carne desses animais”, complementa. Do lado científico, é preciso estudar a diversidade microbiana presente nos animais (sabe-se que cerca de 2/3 de todas as doenças infecciosas de humanos tiveram origem zoonótica). A virologista lembra ainda que coronavirus, influenzas, arenavirus, paramixovirus (como o Nipah, que tem potencial pandêmico) estão ai, infectando uma imensa diversidade de animais, e com potencial zoonótico. Vale lembrar que cientistas, incluindo brasileiros, já identificaram mais de 30 mil diferentes coronavírus em animais, que podem, virtualmente, saltar em algum momento para humanos. A especialista também chama atenção para os hábitos culturais humanos, como por exemplo, o consumo de carne de animais exóticos, mas não somente morcegos e macacos, aves e qualquer outro animal podem ser virtualmente, a fonte do próximo agente pandêmico.

Para a Dra. Nava, é preciso investir em ações de efeitos sinérgicos voltadas a frear gatilhos ambientais para o surgimento dessas doenças e monitoramento ativo. “Em relação aos gatilhos ambientais: parar o desmatamento, coibir o tráfico e caça de animais silvestres e sua comercialização e os mercados que propiciam a convivência e proximidade de diferentes espécies animais e domésticas, situações que predispõem a surtos de doenças infecciosas zoonóticas”, cita. Ainda segundo a pesquisadora, o monitoramento ativo envolve o levantamento dos patógenos que estão circulando na população silvestre e o contínuo contato com a população vizinha à floresta, nos locais de maior crescimento populacional e nos sítios mais preservados para entendimento das dinâmicas que envolvem os diferentes atores que estão presentes nessas interfaces.

A próxima pandemia será mais ou menos mortal?

De acordo com a Dra. Romano, é difícil prever se ela será mais ou menos mortal do que a atual. E que isso vai depender das características do agente biológico presente (vírus, fungo ou bactéria), letalidade e transmissibilidade. A pandemia do SARS em 2003, por exemplo, se espalhou rapidamente e tinha uma mortalidade muito maior do que o COVID-19.

De acordo com o Dr. Aith, pandemias da dimensão da atual não ocorrem com frequência. Para ele, a próxima será menos mortal, mas considera que esses fenômenos devem acontecer com mais frequência, até que apareça uma mais mortal que essa em algum momento futuro.

Na opinião da Dra. Nava, o que o sabemos e aprendemos com as epidemias de origem zoonótica é que a ruptura do equilíbrio natural do ecossistema que envolve os hospedeiros, vetores e reservatórios competentes e o contínuo contato com espécies que naturalmente não se encontrariam, proporciona os aparecimentos e adaptações de agentes etiológicos a outros hospedeiros. “A redução da biodiversidade é uma forma de ocorrência dessa ruptura devido à alteração da transmissão de patógenos e parasitas. Similarmente o que se supõe que tenha sido a causa da emergência do COVID-19”, argumenta.

Por fim, a pesquisadora sublinha que a floresta em pé nos oferece inúmeros serviços ecossistêmicos, dentre eles a manutenção da ecologia natural de algumas doenças. O agente etiológico pode estar presente na população silvestre, porém fica diluído entre seus hospedeiros menos competentes e seus reservatórios amplificadores, só chegando à população humana quando há ruptura desses ciclos naturais. “Portanto, se quisermos evitar novas emergências devemos parar o desmatamento, reflorestar, e frear o aquecimento global, onde teremos emergência de doenças vetoriais e de origem em reservatórios silvestres, principalmente roedores”, encerra a Dra. Nava.

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