COVID-19 e Chagas: pessoas que vivem com a doença correm risco de complicações graves

Publicação: 11 de junho de 2020

Pessoas acometidas pela doença de Chagas fazem parte do grupo de risco para casos graves da COVID-19 e demandam atenção e cuidado redobrados

Risco é ainda maior para aqueles que têm doença de Chagas associada a outras doenças, como diabetes e problemas cardíacos

Frente à pandemia causada pelo novo coronavírus, o manejo das pessoas com fatores de risco, incluindo doenças cardiovasculares, representam um grande desafio. As complicações cardiovasculares evidenciadas em pessoas com a infecção por SARS-CoV-2, causador da COVID-19, resultam de vários mecanismos, que vão desde lesão direta pelo vírus até complicações secundárias à resposta inflamatória e trombótica desencadeada pela infecção. O cuidado adequado destas pessoas exige atenção ao sistema cardiovascular em busca de melhores resultados clínicos.

Nos Estados Unidos, por exemplo, médicos que tratam de pessoas com doença de Chagas revelam preocupação com cerca de 30 a 45 mil pessoas que estão em risco de complicações da COVID-19 devido a problemas relacionados à doença de Chagas. Nos EUA, apenas 0,3% das 300 mil pessoas que vivem com doença de Chagas têm acesso ao tratamento, e muitas delas são oriundas de populações socialmente vulneráveis que são especialmente afetadas pela crise da COVID-19.

No Brasil, estima-se que 410 a 964 mil pessoas tenham cardiopatia chagásica e estejam sob risco acrescido frente à pandemia e necessitam atenção e cuidado redobrados. A professora e cardiologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dra. Rosália Morais Torres, reitera a preocupação geral com a situação das pessoas acometidas pela doença no Brasil, em especial aquelas com diagnóstico de cardiopatia chagásica. “Há, no momento, um grande vácuo em relação aos conhecimentos de como pode ser a evolução e o prognóstico das pessoas portadoras de cardiopatia chagásica que se infectem com o SARS-CoV-2. A presença de cardiopatia chagásica crônica ou aguda coloca essas pessoas dentro dos grupos de risco para evolução às formas clínicas mais graves de COVID-19 e uma atenção redobrada deve ser dada a esses casos, dado à complexidade e diversidade das manifestações cardíacas da doença de Chagas, ao seu caráter também inflamatório (assim como a COVID-19) e propensão à formação de trombos, mesmo que por mecanismos diversos”, destaca. Acrescente-se a isso a idade dos portadores de doença de Chagas crônica que, exceto na região amazônica, se encontram nas faixas etárias mais altas e já sofrem de co-morbidades, como hipertensão e diabetes mellitus. Infelizmente, em relação à co-infecção COVID-19 e doença de Chagas, há hoje muitas perguntas e poucas respostas”, reconhece.

Avanço da pandemia para o interior do Pará aumenta os riscos de associação com doença de Chagas aguda

A pandemia do novo coronavírus traz muitos problemas e impõe diversos desafios, um deles está na região amazônica. Cardiologistas do Pará e todos os profissionais envolvidos na atenção à pessoa portadora de doença de Chagas estão apreensivos em relação à possibilidade de associação de infecção pelo SARS-CoV-2 e doença de Chagas. Embora ainda não haja nenhum caso descrito, o avanço da pandemia para o interior do estado do Pará aumenta os riscos de sua associação com doença de Chagas aguda.

A cardiologista e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Dra. Dilma do Socorro Moraes de Souza, chama atenção para um cenário de desafios na Região Norte do Brasil, hoje profundamente afetada pela pandemia, com 24.465 casos confirmados e 2.216 óbitos, no Estado do Pará, até o dia 25 de maio. “No caso da doença de Chagas aguda, nos preocupa a co-infecção pela COVID-19, visto que, na Região Amazônica, ela é uma endemia que obedece a uma curva sazonal. O número de casos de doença de Chagas aguda começa a aumentar a partir do mês de junho e apresenta pico no segundo semestre, estando associada ao consumo de alimentos não higienizados, sendo o açaí, o alimento mais envolvido”, salienta. Ainda segundo a Médica cardiologista da Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, o estado estará diante de duas doenças que evoluem com síndrome febril, podendo causar confusão diagnóstica na fase inicial. “Ambas apresentam, em suas evoluções, características trombo-inflamatórias, e ainda não temos nenhuma evidência em relação ao tratamento específico da COVID-19 e na interação medicamentosa com os anti-retrovirais associados ou não com benznidazol. Desta forma, lançamos um alerta para este desafio futuro desde a suspeição diagnóstica até o tratamento”, explica.

Ausência de programa dentro da Atenção Primária à Saúde para portadores de cardiopatia chagásica crônica

Outro ponto destacado pela Dra Rosália Torres em relação aos portadores de doença de Chagas e, particularmente, em relação aos que apresentam cardiopatia chagásica crônica, é o acompanhamento das pessoas com doença de Chagas crônica na rede pública de saúde. “Não há um plano/programa específico para isso até hoje”, lamenta ao dizer que, embora haja um número expressivo de pessoas com diagnóstico de doença de Chagas no País, não existe um programa específico, dentro da Atenção Primária à Saúde, para acompanhá-los. “Geralmente, esses pacientes entram no sistema como portadores de hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, ou seja, entram por outras co-morbidades e não como, primariamente, portadores de doença de Chagas”, relata. Para a cardiologista, o paciente com cardiopatia chagásica crônica precisa de cuidados que envolvam toda a equipe de saúde, pois muitos apresentam formas graves, de manuseio complexo. “Em hospitais, não é incomum um paciente ser internado como portador de insuficiência cardíaca e só muito tardiamente ser configurada a etiologia chagásica do seu quadro clínico. Temos de assumir nossa responsabilidade ética de humana de procurar meios para viabilizar esse cuidado contínuo e particularizado”, conclui.

Medo, estigma, acesso limitado ao sistema de saúde e falta de conscientização na comunidade médica e de profissionais de saúde em geral estão entre as barreiras que impedem as pessoas mais vulneráveis de alcançar a atenção e os cuidados essenciais à doença de Chagas, uma das principais causas de doenças cardíacas nas Américas. Todas essas barreiras são agravadas pela pandemia. Mais pesquisas são necessárias sobre a interação entre Trypanosoma cruzi e SARS-CoV-2. No entanto, pessoas com problemas cardíacos têm sido mais suscetíveis a complicações relacionadas ao novo coronavírus e até 30% das pessoas com doença de Chagas sofrem de complicações cardíacas.

Ano de 2020 marca primeiro Dia Mundial de Combate à Doença de Chagas

A comunidade global celebrou em 14 de abril o primeiro Dia Mundial da Doença de Chagas. Para o Dr. Alberto Novaes Ramos Jr, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o ano de 2020 representou a primeira oportunidade para demarcar este dia de enfrentamentos e lutas, oportunidade esta revestida também pelos críticos desafios impostos pela pandemia por COVID-19. “Em meio ao distanciamento social e à ocorrência de casos e mortes em todo o mundo, o dia 14 de abril reforçou a importância da ciência brasileira e de enfrentamento das graves situações de desigualdades que impõem uma crítica vulnerabilidade social da maior parte da população mundial”, assinala. Ainda de acordo com ele, a pobreza e a extrema pobreza são lugar-comum como determinante social da doença de Chagas e de tantas doenças que prevalecem em pessoas e populações negligenciadas, assim como da expressão de maior gravidade clínica e epidemiológica da COVID-19 no Brasil e em todo o mundo. O professor Novaes lembra ainda que a infecção pelo SARS-Cov-2 já alcançou todo o território brasileiro em diferentes graus de expressão, em particular em territórios mais vulneráveis socialmente, e o aumento do número de casos já sobrecarga sobremaneira o Sistema Único de Saúde (SUS).

Na opinião do Dr. Novaes, vivemos um momento único e crítico de nossa história, e nos impõe o desafio de não apenas buscar estratégias sobre como lidar com casos de doença de Chagas em meio à pandemia, mas também sobre aprender como manter a mobilização no futuro para as questões que envolvem o enfrentamento da doença em meio a agendas direcionadas para a COVID-19 ou outras doenças que ganhem prioridade pela sociedade. Para ele, em tempos de COVID-19, a ciência brasileira também deve ser enfatizada como um movimento político de delimitação de espaços e de enfrentamento das críticas desigualdades sociais que têm se amplificado no País e no mundo, seja em áreas endêmicas ou não endêmicas. “Ampliar o protagonismo das pessoas acometidas e fazer ecoar as suas vozes. Este pensamento aplica-se tanto para a COVID-19, quanto para a doença de Chagas ou qualquer problema de saúde pública para os próximos anos”, complementa o professor.

A data

A data visibiliza uma das doenças tropicais mais negligenciadas que continua a afetar milhões de pessoas em todo o mundo. A Federação Internacional de Associações de Pessoas Afetadas pela doença de Chagas (FindeChagas) escolheu o dia 14 de abril como “Dia Internacional das Pessoas Acometidas por Chagas”, pelo simbolismo deste dia. Essa data tem sido usada pela FindeChagas para cobrar melhores estratégias de enfrentamento à doença. A criação de um Dia mundial foi colocada para os estados membros da Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma oportunidade histórica de transformar a realidade de milhões de pessoas e de suas famílias e comunidades. Vale à pena lembrar que a FindeChagas foi oficialmente criada em outubro de 2010 e atualmente está composta por mais de 20 associações espalhadas por países do mundo todo (Argentina, Austrália, Bolívia, Brasil, Colômbia, Espanha, Estados Unidos, Itália, México, Suíça e Venezuela).

A OMS neste ano compôs a campanha “Vamos tornar a doença de Chagas visível agora” e reforçou que a conscientização e o reconhecimento oportuno dessa doença, que ainda segue sendo frequentemente diagnosticada tardiamente, é essencial para melhorar as taxas de sucesso do tratamento antiparasitário com alcance da cura, juntamente com a interrupção de sua transmissão. Reiterou ainda que existem importantes intervenções sociais e econômicas bem como no setor saúde, todas baseadas em evidências, incluindo maior acesso a diagnóstico em ações de triagem (sangue, órgãos e de recém-nascidos e crianças), detecção precoce de casos, tratamento imediato dos casos (antiparasitário e para as complicações cardíacas e digestivas), controle de vetores, higiene e segurança alimentar.

A doença

Conhecida como enfermidade silenciosa e silenciada e mesmo tendo se passado mais de 110 anos de sua descoberta, apesar dos avanços, somente uma proporção inferior a 10% das pessoas com doença de Chagas é diagnosticada, e apenas aproximadamente 1% das que têm o diagnóstico estabelecido recebe efetivamente tratamento com antiparasitários. Segundo estimativas da OMS, na região das Américas, em especial na América Latina, cerca de 6 a 7 milhões de pessoas apresentam a doença, que causa além de incapacidade decorrente da cardiopatia chagásica crônica, cerca de 12 mil mortes por ano. O Brasil esteve perto, mas ainda não conseguiu controlar a doença em seu território. Atualmente milhões de pessoas de pessoas vive com a infecção por Trypanosoma cruzi. Tal situação revela a magnitude da doença como condição crônica. A alteração do perfil epidemiológico de novos casos da doença se modificou, com o cenário tradicional de transmissão vetorial intradomiciliar cedendo lugar à transmissão ligada ao ciclo silvestre do parasito com alta concentração na região Amazônica, com cerca de 300 casos novos ao ano da doença em sua fase aguda.

Para o reconhecimento dos milhões de brasileiros e brasileiras com a doença de Chagas em sua fase crônica, um marco relevante para o Brasil foi a publicação da Portaria nº 264, de 17 de fevereiro de 2020, que alterou a Portaria de Consolidação nº 4/GM/MS, de 28 de setembro de 2017, para incluir a doença de Chagas crônica, na Lista Nacional de Notificação Compulsória de doenças, agravos e eventos de saúde pública nos serviços de saúde públicos e privados em todo o território nacional. Esta portaria traduz a luta de décadas de dar maior perspectiva à doença de Chagas no País possibilitando aproximações mais fidedignas sobre a real magnitude em nossa população.

Saiba mais:

https://www.paho.org/en/documents/social-media-covid-19-and-chagas-disease

https://www.dndi.org/2020/media-centre/press-releases/45000-people-living-with-chagas-disease-us-risk-severe-covid-19-complications/

https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/morre-1o-paciente-de-hospital-de-campanha-em-sp-montado-para-vitimas-do-coronavirus.shtml

https://preprints.scielo.org/index.php/scielo/preprint/view/434/542

http://chagas.fiocruz.br/dia-mundial-de-chagas/

https://www.saude.gov.br/images/pdf/2020/April/23/boletim-especial-chagas-20abr20.pdf

https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/chagas-disease-(american-trypanosomiasis)

https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2020/prt0264_19_02_2020.html

https://www.world-heart-federation.org/chagas-disease/

www.coalicionchagas.org

https://chagas.msf.org.br/pb