Covid-19: doenças cardiovasculares aumentam entre pessoas que tiveram a doença

Publicação: 9 de março de 2022

Estudo mostra que pessoas que tiveram Covid-19, mesmo leve, têm maior risco de sofrer de complicações cardiovasculares graves

Pessoas que nunca tiveram problemas cardíacos e que foram consideradas de baixo risco também estão desenvolvendo problemas cardíacos após a Covid-19

Um estudo de investigação publicado na revista Nature intitulado Long-term cardiovascular outcomes of COVID-19 mostra que as pessoas que tiveram Covid-19 correm maior risco de desenvolver complicações cardiovasculares no primeiro mês a um ano após a infecção. Os problemas ocorrem mesmo entre indivíduos que eram saudáveis antes de serem acometidos pelo SARS-CoV-2, bem como entre os que tiveram Covid-19 leve. As complicações cardiovasculares incluem alteração de ritmos cardíacos, inflamação do coração, coágulos sanguíneos, acidente vascular cerebral, doença arterial coronária, ataque cardíaco, insuficiência cardíaca e até mesmo morte.

O Dr. Ziyad Al-Aly, coautor do estudo, chefe do Serviço de Pesquisa e Desenvolvimento, Assuntos de Veteranos, Sistema de Saúde de Saint Louis, reconhece que as descobertas de que as complicações cardiovasculares da Covid podem durar tanto tempo foi surpreendente. “Não esperava isso. Também esperava que isso acontecesse apenas em pessoas com alto risco de doença cardiovascular, mas estava acontecendo em todo o lugar, entre jovens e idosos, obesos e não obesos, pessoas com e sem diabetes etc”, acrescenta.

Para realização deste amplo estudo, os cientistas da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, criaram um conjunto de dados com informações de saúde de 153.760 pessoas que deram positivo para o novo  coronavírus no período entre 1º de março de 2020 e 15 de janeiro de 2021. Como as vacinas ainda não estavam amplamente disponíveis no momento da inscrição, poucas pessoas no estudo foram vacinadas antes de desenvolver a Covid-19. A pesquisa não inclui dados das variantes Delta e Ômicron, que começaram a se espalhar rapidamente no segundo semestre de 2021.

Utilizando modelagem estatística para analisar a saúde do coração durante este período de um ano, os cientistas descobriram que doenças cardíacas, incluindo insuficiência cardíaca e morte, ocorreram em 4% (cerca de 3 milhões de pessoas nos EUA) mais do que aquelas que não foram infectadas com o coronavírus. Além de avaliar os dados destes mais de 153 mil indivíduos que tiveram Covid-19, eles também analisaram dois conjuntos de pessoas não infectadas pelo vírus, chamadas tecnicamente de controle: um grupo com mais de 5,6 milhões de pacientes que não tiveram a doença durante o mesmo período; e um grupo com mais de 5,8 milhões de pessoas que foram pacientes de doenças cardiovasculares de março de 2018 a janeiro de 2019 (antes da pandemia).

Em comparação com os grupos sem infecções, as pessoas que contraíram a Covid-19 tiveram 72% mais chances de sofrer doença arterial coronária, 63% mais possibilidade de ataque cardíaco e 52% mais riscos de Acidente vascular cerebral (AVC). Em geral, os infectados tiveram 55% mais chances do que os que não tiveram a doença de sofrer um grande evento cardiovascular adverso, que inclui ataque cardíaco, AVC e morte. De acordo com a análise, o risco foi elevado mesmo para aqueles com menos de 65 anos e sem fatores de risco, como obesidade ou diabetes. As pessoas que se recuperaram da Covid-19 apresentaram aumentos acentuados em pelo menos 20 problemas cardiovasculares ao longo de um ano após a infecção. Embora a hospitalização tenha aumentado a probabilidade de complicações cardiovasculares futuras, mesmo as pessoas que não foram internadas estavam em maior risco de muitas condições cardíacas.

Questionado se o aumento no risco de problemas cardiovasculares está associado ao desequilíbrio no sistema imunológico ocasionado pela Covid-19, que também acontece em quadros de outras doenças inflamatórias, como o câncer, o Dr. Al-Aly diz que é possível. “Nós não conseguimos entender completamente os mecanismos responsáveis pelo aumento do risco de doença cardiovascular em pessoas com Covid-19. Alguns caminhos mecanísticos podem ser relacionadas ao próprio vírus e algumas podem estar relacionadas à resposta imune, incluindo alguma resposta imune potencialmente desregulada ou autoimunidade)”, assinala.

As evidências deste estudo reforçam que os riscos de complicações cardíacas graves são altos pela infecção natural e as descobertas destacam as graves consequências cardiovasculares a longo prazo de ter uma infecção por Covid-19, bem como corrobora a importância de se vacinar contra a Covid-19 como forma de prevenir danos ao coração. Mas, neste caso, como ficam os países com recursos limitados de acesso às vacinas? O Dr. Al-Aly é categórico ao afirmar que é absolutamente importante garantir que as vacinas estejam disponíveis em todos os lugares ao redor do mundo. Segundo ele, a vacinação é a base de nossa resposta à pandemia, e nenhum país estará completamente seguro até que um número suficiente de pessoas no mundo estejam vacinadas. “Este é um ponto crucial que as economias desenvolvidas precisam entender. Todos precisamos trabalhar juntos para garantir que o mundo inteiro esteja vacinado”, conclui. O estudo também acende um alerta aos profissionais e aos sistemas de saúde para lidar com esse aumento de doenças cardiovasculares nas populações. “Os profissionais de saúde devem começar a pensar na Covid-19 como um importante fator de risco para doenças cardiovasculares e tratar as pessoas com a doença com essa perspectiva em mente”, enfatiza.

Este trabalho que revelou que a infecção causada pela Covid-19 aumenta os riscos do desenvolvimento de doenças cardiovasculares utilizou dados recuperados, com curadoria do Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos, o maior sistema integrado de assistência médica do país. Indagado sobre as limitações do estudo, em que no grupo de controle, nem todas as pessoas foram testadas para Covid-19 e, dessa forma, poderiam estar com infecções leves que não foram detectadas e, tendo em vista que foi utilizado o banco de dados de veteranos de guerra, em sua maioria, homens brancos, ou seja, os resultados também se referem a uma população específica, o Dr. Al-Aly explica que é possível que algumas pessoas no controle tenham tido Covid, mas não tenham sido testadas. “Então, se for o caso, isso levaria para uma subestimativa do risco. Embora nosso estudo tenha sido constituído basicamente por homens branco, ele foi muito grande, com mais de 11 milhões de pessoas, sendo que tivemos 10% de mulheres (1 milhão) e 20% de negros (2 milhões). Isso não é pequeno. Devido ao grande tamanho do estudo, ele incluiu um número grande de mulheres e negros”, detalha. Por fim, o Dr. Al-Aly adianta que agora ele e seus colegas estão analisando resultados de longo prazo e outras questões relacionadas a Covid e Covid longa (tradução livre do termo em inglês “long Covid”) incluindo diabetes após a Covid-19 e outras condições.