Covid-19: doença provoca mais mortes em crianças brasileiras entre aquelas com imunizantes disponíveis

Publicação: 9 de fevereiro de 2022

Segundo dados divulgados pelo Instituto Butantan, o Brasil registrou 1.449 mortes de meninos e meninas de até 11 anos desde o início da pandemia

Embora as crianças sejam menos acometidas pela Covid-19, o número de internações nessa faixa etária tem aumentado

Até o início de novembro do ano passado, ao menos 39 países já haviam autorizado ou iniciado o uso de vacinas contra Covid-19 em crianças com menos de 12 anos, sendo o imunizante da Pfizer/BioNTech o mais utilizado. Além dessa vacina, Sinopharm, Sinovac (CoronaVac) e Soberana 02 também foram adotadas para esse público ao redor do mundo. No Brasil, a imunização de crianças com a vacina da Pfizer foi autorizada em 16 de dezembro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas a vacinação teve início no dia 14 de janeiro, com a aplicação do imunizante da Pfizer, que possui uma fórmula pediátrica, com intervalo de oito semanas.

No dia 20 de janeiro, a agência aprovou o uso da CoronaVac para a faixa etária entre 6 e 17 anos, sem problemas no sistema imunológico. Vacina de vírus inativado, com tecnologia já conhecida, utilizada no imunizante contra a gripe, por exemplo, ela costuma proporcionar uma boa reação imune nos organismos mais novos. Segundo o Butantan, dados apontam que duas doses têm eficácia superior a 96% contra hospitalizações e mortes em crianças e adolescentes. No Chile, onde ela já está em uso em crianças a partir de 3 anos, os dados demonstram que o imunizante foi significativamente efetivo em prevenir hospitalizações e internações em UTIs e óbitos na população pediátrica (de 6 a 16 anos). A efetividade da vacina para a prevenção da Covid-19 foi de 74,12% para a Coronavac e de 84,94% para a vacina Cominarty (Pfizer). Já em relação a prevenção de hospitalizações, a efetividade no Chile foi de 90,24% para a Coronavac e de 92,23% para a Cominarty. A médica pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai enfatiza que tanto a vacina da Pfizer quanto da CoronaVac são duas excelentes opções para crianças e adolescentes. “As duas vacinas são importantes e recomendadas para essa faixa etária”, frisa.

A Dra. Ana Frota, médica infectologista do Instituto Pediátrico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)  alerta que a Covid-19 é a doença que provoca mais mortes em crianças brasileiras entre aquelas com imunizantes disponíveis. Ela ressalta que a análise das taxas de mortalidade (mortes por milhão) atribuídas à Covid-19, até novembro de 2021, mostra valores de aproximadamente 41 mortes por milhão entre crianças e adolescentes no Brasil. Isso é quatro vezes maior que a mesma taxa nos Estados Unidos (11 mortes por milhão) e 10 vezes mais que no Reino Unido (4,5 mortes por milhão no Reino Unido), sendo a carga de doença com maior gravidade neste grupo etário no Brasil. “O dado que mais chama a atenção é a confirmação de mais de 2.500 mortes atribuídas à Covid-19 neste grupo etário até dezembro de 2021, sendo que 50% ocorreram em crianças com mais de cinco anos e adolescentes. Se somarmos todas as mortes causadas em um ano por doenças cujas vacinas estão incorporadas ao Plano Nacional de Imunizações (PNI) no período pré-pandemia, nenhuma doença levou a tantos óbitos no mesmo período de um ano”, pontua.

Brasil completa um ano de vacinação

A campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil completou um ano no dia 17 de janeiro e apesar do início tardio, de la para cá muita coisa mudou e o País mostrou que sabe vacinar. Elogiado mundialmente, o PNI realizou inúmeras campanhas de vacinação bem-sucedidas. A campanha contra a poliomielite, por exemplo, considerada uma das mais eficazes, chegou a vacinar mais de 10 milhões de crianças em um único dia. Apesar de o Brasil ocupar o 12º lugar, de acordo com o Our World in Data, projeto criado em parceria com a Universidade de Oxford para acompanhar o ritmo da vacinação contra a Covid-19 no mundo, a Dra. Marta Heloísa Lopes, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), lamenta que atual a política brasileira de incentivo à vacina infantil de Covid-19 seja bem diferente da adotada em campanhas passadas de vacinação.

Para a Dra. Lopes, que também é responsável pelo Centro de Imunizações do Hospital das Clínicas da FMUSP, a adesão à vacinação depende fundamentalmente da confiança da população nos benefícios da vacinação como meio eficaz de prevenção de doenças. “Quando informações incorretas são passadas à população, tanto sobre eficácia, quanto sobre segurança das vacinas diminui o grau de confiança e aumenta a hesitação em relação à vacinação. Atitudes ambíguas, de parte de algumas autoridades brasileiras, de disponibilização das vacinas Covid-19 para a população infantil, mas divulgando quase diariamente mensagens negativas, não baseadas em evidências científicas, podem minar a confiança de pais e responsáveis e contribuir para hesitação em relação à vacinação”, destaca.

Questionada se a vacinação infantil deveria ser obrigatória, a Dra. Lopes lembra que as vacinas do PNI são obrigatórias e que a vacinação infantil contra Covid-19 deveria ser incorporada ao calendário de imunização do PNI e seguir as mesmas regras. Para a pesquisadora, mais importante que a simples obrigatoriedade são: necessidade de campanhas amplas de esclarecimento da população; necessidade de capacitação dos profissionais de saúde sobre a importância da vacinação, tornando-os aptos para o esclarecimento de dúvidas e o convencimento de pais e responsáveis; fortalecimento das ações do PNI. “A importância da vacinação de crianças não se resume a prevenir doença grave na população infantil. Quanto maior o número de pessoas vacinadas, menor será a probabilidade de circulação do Sars Cov-2”, acrescenta.

A Dra. Ballalai complementa ao dizer que a questão da obrigatoriedade é uma grande estratégia para denegrir a confiança da população e cita o exemplo da Revolta da Vacina, ocorrida em 1904. “Quando se impõe a obrigatoriedade de vacinação, mesmo as pessoas a favor acabam se manifestando pela liberdade de decisão. A vacinação no Brasil sempre foi e continua sendo obrigatória. O que vemos, infelizmente, é a tentativa de mudar o enfoque quando autoridades públicas escrevem que não existe obrigatoriedade. O importante não é ser obrigatória ou não. Nesse momento, para crianças e adolescentes, importante é informar a população sobre a necessidade, o impacto da doença para a criança – menor mas não pequeno –, além da segurança e da eficácia das vacinas”, completa.

A Dra. Frota enaltece o sucesso brasileiro no campo de imunização infantil, mas reconhece que há um movimento coordenado de descrédito em medidas científicas e, por consequência, em relação às vacinas, que tanto colaboraram para a saúde e desenvolvimento da espécie humana. “Se houvesse uma boa campanha de informações corretas e desmascaramento de fake news, acredito que seria um total sucesso. Dentro desse cenário de informações equivocadas, acredito que medidas como um ‘passe sanitário’ para frequentar escolas poderia ser bem-vinda como maneira de estimular a vacinação desse grupo”, avalia ao enfatizar que crianças se infectam, no mínimo, na mesma proporção que os adultos.“Com menos crianças doentes, certamente reduziremos uma das fontes de transmissão importantes na população em geral”, assegura.

A infectologista pediátrica manifesta preocupação ainda em relação ao comportamento imprevisível do vírus e a possibilidade dele se tornar mais agressivo nesse público. “Mantê-lo em circulação nas comunidades favorece o surgimento de variantes e, da mesma forma que surgiu uma variante extremamente transmissível como a Omicron, é possível surgir cepas mais virulentas, inclusive para a população infantil. Por isso é importante a vacinação de toda a população em geral e, em especial, a pediátrica”, justifica a Dra. Frota.

Fiocruz investiga hesitação de pais em vacinar crianças

Embora as crianças sejam menos acometidas pela Covid-19, o número de internações nessa faixa etária tem aumentado. Mesmo assim, a hesitação em vacinar os filhos ainda existe. Segundo pesquisa Datafolha divulgada no dia 17 de janeiro, 17% dos entrevistados rejeitam a vacinação de crianças de 5 a 11 anos contra a Covid-19. Para a Dra. Ballalai, a população brasileira tem a percepção de confiança, entende a sua importância e busca a vacina toda vez que entende o risco da doença em questão. “Mas há fatores que fazem 17% dessas famílias ainda terem dúvidas. Há uma quantidade de fake news e de mensagens opinativas que não trazem dados científicos verdadeiros e pior, manipulam esses dados. Existe uma grande onda de informações que buscam negligenciar a importância da vacinação de crianças. Mais do que falar mal, os grupos antivacinas espalham que não há necessidade de vacinar esse público porque criança não tem risco para Covid-19. Isso não é verdade”, atenta a pediatra.

Estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que contou com a participação de 15.297 pais, mães ou responsáveis por crianças e adolescentes revelou que os principais motivos associados à hesitação vacinal foram medo de reações adversas e supostos efeitos de longo prazo, minimização da gravidade da pandemia e a falsa ideia de que quem teve Covid-19 não precisa se vacinar. Os pais também declararam com frequência que discordam que a vacina tornaria o retorno escolar mais seguro e que acreditam que a imunidade natural é uma opção melhor de proteção do que a vacina. Outras respostas mencionadas foram que a vacina precisa de mais tempo para ser considerada segura e que as crianças e adolescentes não têm nenhuma chance de ficar grave se contrair a doença. Também houve respostas no sentido de preferir produtos naturais à vacinação. A hesitação foi maior na faixa etária de zero a 4 anos, ainda não contemplada pela vacinação. Entre os pais desse grupo, o percentual que não pretende vacinar foi 16,4%. A hesitação vacinal foi menor entre os pais de crianças entre 5 e 11 anos (12,8%). Entre os responsáveis por adolescentes chegou a 14,9%.

No ano passado, foram hospitalizados quase 20 mil crianças e adolescentes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) associada à Covid-19. Segundo levantamento realizado pela Fiocruz, 1.422 crianças e adolescentes com menos de 18 anos morreram vítimas da Covid-19 até o dia 4 de dezembro do ano passado, sendo 418 com menos de 1 ano de idade; 208, entre 1 e 5 anos; e 796, entre 6 e 19 anos. Dados divulgados pelo Instituto Butantan, em 7 de janeiro, apontam que 1.449 meninos e meninas de até 11 anos morreram no Brasil desde o início da pandemia.

Principais complicações da Covid-19 na criança

A Dra Frota detalha que a Covid-19 na faixa pediátrica, como em adultos, pode provocar complicações agudas como infecções de vias aéreas superiores (otite) e inferiores (pneumonia), virais ou bacterianas, miocardites (incidência 7,4x maior entre 16-24 anos e 36,8x em <16 anos), arritmia, hepatite, parotidite e pancreatite, entre outras. Complicações tardias também ocorrem e a principal delas é a chamada Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica (SIM-P), uma doença de acometimento inflamatório multissistêmico, que se inicia geralmente com febre e dor abdominal e acomete principalmente o aparelho cardiovascular com choque. “Essa é uma outra apresentação clínica potencialmente grave da doença, descrita em crianças e adolescentes. No Brasil, foram notificados até o dia 27 de novembro, 2.435 casos suspeitos dessa Síndrome. Deste total, 1.412 (58%) foram confirmados, resultando em 85 óbitos, o que mostra a gravidade desse quadro que geralmente ocorre de 4 a 6 semanas após a infecção pelo SARS-CoV2. Outras complicações como a chamada Covid longa, também foi descrita nesse grupo, mas ainda são necessários mais estudos para avaliar o seu impacto nessa população”, observa.

Vacinação desigual no mundo

A Organização Mundial da Saúde (OMS), embora reconheça os benefícios da vacinação em crianças, já afirmou que ela não seria prioridade diante da necessidade de vacinar ou reforçar a imunização de outros grupos mais propensos a desenvolver formas severas da Covid-19. A Dra. Lopes explica que em regiões onde não há quantidade suficiente de vacinas sem dúvida a prioridade são os grupos mais vulneráveis, estratégia adotada em muitos países, inclusive o Brasil. Segundo ela, uma vez que os grupos prioritários já estão contemplados, podemos e devemos ampliar a vacinação para a população infantil.

Entretanto a pesquisadora chama a atenção para a preocupante situação de muitos países da África, nos quais nem mesmo os mais vulneráveis foram vacinados. “Todos os países do mundo deveriam entender e contribuir para medidas efetivas em relação ao que ocorre nesses países africanos. Quando um indivíduo não é vacinado, além do risco individual de adoecer, ele pode ser fonte de infecção para muitos outros indivíduos. O ato de vacinar é individual, mas o benefício é coletivo”, assinala a Dra. Lopes. A Dra. Ballalai concorda com a colega. “Temos países em que não conseguiram vacinar nem 10% das pessoas. Enquanto tivermos países sem boa cobertura vacinal teremos uma chance maior do surgimento de novas e novas variantes”, conclui.