COVID-19: casos de mucormicose crescem na Índia

Publicação: 7 de junho de 2021

A mucormicose é uma doença extremamente agressiva, que requer diagnóstico o mais precocemente possível, bem como exige eficácia na terapêutica

A doença foi identificada na Índia ainda antes da pandemia, mas os casos estão crescendo rapidamente em pacientes recuperados ou em recuperação pela COVID-19

Tudo começa com dores de cabeça e vermelhidão nos olhos. Rapidamente, uma mancha preta se espalha pela córnea. Em poucos dias, o flagelo pode tomar o rosto inteiro. Esses são sintomas de um fungo responsável por uma doença chamada de mucormicose, cujo os casos em pacientes recuperados ou em recuperação pela COVID-19 crescem na Índia. Os fungos Mucorales, agentes da patologia, são extremamente comuns, sendo encontrados no ar, no solo, água poluída  ou em alimentos estragados, como no bolor de pão. A mucormicose afeta os seios da face, a pele, cérebro e pulmões. Muitas vezes fatal, a doença se propaga pelo corpo, destruindo pele, músculos, ossos e órgãos. Médicos relatam que foram forçados a remover olhos e ossos da mandíbula de pessoas, na tentativa de impedir a propagação do fungo antes que atingisse o cérebro, deixando o paciente permanentemente desfigurado. A doença foi identificada na Índia ainda antes da pandemia, mas os casos crescem rapidamente. De acordo com informações locais, as infecções são quatro ou cinco vezes mais numerosas do que aqueles detectados antes da pandemia. A mucormicose tem uma taxa de mortalidade geral de 50%.

Para saber mais sobre o assunto, a Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) entrevistou o Dr. Flavio de Queiroz Telles, médico Infectologista e Professor Associado do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Confira a entrevista na íntegra.

SBMT: O senhor poderia falar sobre a mucormicose?

Dr. Flavio Telles: Mucormicose ou zigomicose é considerada a mais devastadora das micoses invasivas. É uma verdadeira “urgência médica’, uma vez que os agentes de Mucormicose crescem muito rapidamente tanto em meios de cultura como no interior dos sistema vascular dos pacientes acometidos. É uma doença angio-invasora, inicialmente descrita por Ptaulf, na Alemanha, em 1885.

Os principais fatores de risco, incluem a diabetes descontrolada, pacientes em neutropenia prolongada, transplantados de órgãos sólidos ou em uso de prolongado de corticoesteroides.

SBMT: Os casos de infecção fúngica invasiva em pacientes recuperados ou em recuperação pela COVID-19 vem crescendo na Índia. A que se deve isso?

Dr. Flavio Telles: A Índia um dos países de maior prevalência de Diabetes Melitus. A Índia é um dos países de maior incidência de COVID-19, atualmente. A Índia POSSUI MUITOS HOSPITAIS E UTIS em condições precárias, em relação a medidas higiênico sanitárias. Há muitos diabéticos com COVID internados na Índia, a maioria deles recebendo entre outros medicamentos, os corticosteroides para controle da inflamação pulmonar pela COVID. Então, a Índia teve um aumento de casos de mucormicose, diferente de outros países.

SBMT: A mucormicose é uma doença extremamente agressiva, que requer diagnóstico o mais precocemente possível, bem como exige eficácia na terapêutica. Nos últimos meses, a Índia se deparou com milhares de casos. Médicos relatam que foram forçados a remover olhos e ossos da mandíbula de pessoas, na tentativa de impedir a propagação do fungo antes que atingisse o cérebro, deixando o paciente permanentemente desfigurado. Dadas as semelhanças da Índia com o Brasil, existe a possibilidade da doença afetar pacientes aqui? Por quê?

Dr. Flavio Telles: O tratamento da mucormicose é feito com drogas antifúngicas (Formulações lipídicas de Anfotericina B e/ou isavuconazol), além de desbridamento dos tecidos necróticos, devido a angio invasão. Muitas vezes estruturas do crânio e da face são removidas para salvar a vida dos pacientes. Então esse tratamento é normal durante a mucormicose. O que é preocupante e o aumento de casos de mucormicose na Índia devido as condições que já citei acima.

A incidência de mucormicose no Brasil, sempre foi menor que em países do hemisfério norte, e também que na Índia. Não vejo possibilidade da mucormicose aumentar significativamente de incidência no Brasil, devido a COVID. O principal fungo angio invasor no Brasil, em pacientes onco-hematológicos e também, em pacientes internados com COVID-19, em UTIS, é o Aspergillus spp.

A sepse por Candida (Candidemia), também é mais importante que mucormicose em pacientes com COVID, no Brasil

SBMT: Mucormicose em COVID-19 no Brasil?

Dr. Flavio Telles: Não deve ser epidemiologicamente relevante.

SBMT: Os profissionais de saúde estão preparados para diagnosticar a mucormicose?

Dr. Flavio Telles: Sim, todo paciente com lesões ulcero necróticas em pele, mucosa ou com rinossinusite invasiva, ou com imagens de tomográfica pulmonar com o “sinal do halo invertido” e teste da Galactomanana negativa, devem constituir alerta diagnóstico para mucormicose, especialmente os que tem fatores de risco: diabéticos descontrolados, neutropênicos prolongados, e receptores de corticóides em altas doses.

SBMT: O senhor entende que ela deve ser tratada como uma emergência epidemiológica?

Dr. Flavio Telles: Não, mas sempre foi uma emergência Infectológica. Nada deve mudar agora no Brasil.

SBMT: Quais as diferenças entre mucormicose associada à COVID‐19 e à Influenza?

Dr. Flavio Telles: A principal doença fúngica associada à Influenza ou a COVID, no Brasil e no hemisfério Norte, é a aspergilose pulmonar invasiva. A mucormicose não é frequente em COVID-19 ou Influenza grave no Brasil

Pacientes com COVID-19, recebem por protocolo, altas doses de corticoides e ficam mais tempo na UTI. Influenza pode ser tratada com ozeltamivir, COVID-19 não pode, ainda não temos nenhum tratamento antiviral eficaz. 

SBMT: Outra infecção que tem tido maior incidência na pandemia é a candidemia. O que explica esse aumento?

Dr. Flavio Telles: Aspergilose invasiva tem sido mais relatada que candidemia

Candidemia em pacientes com COVID, também ocorre pelos fatores de risco associadas a candidemia: Internamento prolongado em UTI, antibióticos de amplo espectro (usados na COVID), corticoides, cateter venoso central, ventilação mecânica, etc.

SBMT: Quais outras doenças fúngicas invasivas estão sendo associadas à COVID-19?

Dr. Flavio Telles: Há várias, mas não são epidemiologicamente importantes.

Já tivemos um caso de criptococose, associada a COVID em Curitiba, por exemplo. Desconheço se há micoses endêmicas, como esporotricose, paracoccidioidomicose ou histoplasmose, associadas à COVID. 

SBMT: A mucormicose pode afetar qualquer pessoa, de qualquer idade? Como podemos prevenir?

Dr. Flavio Telles: A mucormicose pode ocorrer em qualquer idade. Estou acompanhando criança de 1 ano, receptora de transplante de medula óssea que sobreviveu a mucormicose cerebral, pulmonar e hepática.

Não há como prevenir a mucormicose, a não ser controlar o diabetes, e fazer diagnostico precoce de pacientes em risco, como transplantados de órgãos sólidos e de medula óssea, pacientes em quimioterapia e usuários de corticoesteroides.

Pacientes oncohematologicos de alto risco devem permanecer em enfermarias dotadas com filtro HEPA, que retem pequenas partículas presentes no ar, como esporos ou conídios de fungos. 

SBMT: O senhor gostaria de acrescentar algo?

Dr. Flavio Telles: O que ocorre na Índia é pontual e não se observou na Europa e nem deve ocorrer no Brasil.