Comunidade internacional subestimou seriedade do surto de Ebola, diz representante do Médico Sem Fronteiras

Publicação: 14 de setembro de 2015

Diretora da unidade médica da organização no Brasil evitou responsabilizar apenas a OMS pela demora nas ações de controle à doença na África

Em termos de resposta dos governos locais e da comunidade internacional, houve lacunas críticas em quase todos os aspectos

O surto de Ebola na África, em 2014, teve, entre seus capítulos principais, um embate entre duas grandes entidades: a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a organização internacional Médico Sem Fronteiras (MSF). O motivo foi a demora da OMS em reconhecer que a Guiné, país da África Ocidental, enfrentava uma epidemia sem precedentes em termos de distribuição de casos. No entanto, seria um erro atribuir a apenas um órgão a responsabilidade plena pela resposta disfuncional. Essa é a avaliação da diretora da Unidade Médica Brasileira da MSF, doutora Maria Rodrigues Rado.

“Toda a comunidade internacional subestimou a seriedade do surto e houve uma falta generalizada de capacidade de assumir responsabilidades em uma ação robusta de combate ao vírus. Também é fato que houve pouco compartilhamento de informação entre os países afetados e representantes da OMS”, disse a doutora Rado, que é infectologista.

Em 31 de março de 2014, segundo a doutora Rado, a MSF declarou que enfrentava uma “epidemia sem precedentes em termos de distribuição de casos”. Naquele momento, cinco regiões do país africano já tinham pacientes confirmados, incluindo a capital da Guiné, Conacri. No dia seguinte, a OMS questionou a organização de médicos publicamente, argumentando que a dinâmica do vírus não era diferente de epidemias anteriores e que a epidemia não era sem precedentes. Somente em julho a OMS assumiu a liderança na resposta ao surto e iniciou uma operação internacional de apoio técnico aos países afetados.

Em nota divulgada em abril deste ano, a OMS admitiu que a sua resposta à epidemia de Ebola foi “lenta e inadequada”, não sendo “suficientemente agressiva” para evitar as mais de 10 mil mortes ocorridas nos países africanos mais afetados, como a Guiné, a Libéria e Serra Leoa.

A OMS informou no final de agosto, que realizará a revisão das normas sanitárias internacionais para corrigir os erros observados na resposta ao Ebola e preparar o mundo para epidemias que inevitavelmente vão acontecer. “Nosso desafio é encontrar soluções que deixem o mundo mais bem preparado para o próximo e inevitável surto epidêmico”, disse a diretora geral da OMS, Margaret Chan, aos médicos e cientistas do comitê responsável pela revisão das regras.

A OMS foi procurada para comentar as declarações da organização Médico Sem Fronteiras e sobre os motivos que levaram à demora das ações internacionais para o caso, mas ainda não havia se manifestado até o fechamento desta edição.

Fatores para o surto

O surto de Ebola na África Ocidental, segundo a doutora Maria Rodrigues Rado, deve-se a uma série de aspectos. Entre eles, a mobilidade da população na área afetada pelo surto, o fato de algumas pessoas infectadas esconderem estar doentes por medo e a falta de confiança nas instalações locais de saúde. Outro motivo fundamental foi a falta de preparo nos funerais, quando centenas de pessoas ficaram expostas – ou seja, sem a devida proteção – a cadáveres infectados com o vírus.

“Em termos de resposta dos governos locais e da comunidade internacional, houve lacunas críticas em quase todos os aspectos”, afirmou a doutora Rado.

O contato direto com cadáveres durante os rituais fúnebres, por exemplo, é uma das principais formas de transmissão da doença. “Os funerais são práticas importantes nas comunidades afetadas pela atual epidemia e que envolvem pessoas tocando e lavando o corpo, em demonstração de respeito aos rituais religiosos. Nas últimas horas antes da morte, o vírus se torna extremamente contagioso e, por isso, o risco de transmissão a partir do cadáver é muito maior”, explica a infectologista.

Na atual epidemia, também se registrou uma grande quantidade de profissionais de saúde infectados enquanto tratavam pacientes com Ebola. Isso aconteceu por meio do contato próximo com os doentes sem o uso de luvas, máscaras ou óculos de proteção. Nos três países afetados – que já sofrem com sistemas de saúde precários e afetados por guerras civis, quase 500 profissionais de saúde morreram em 2014.

Em algumas regiões da África, houve relatos de infecção por meio do manejo de chimpanzés, gorilas, morcegos, macacos, antílopes e porcos-espinhos infectados encontrados mortos ou doentes na floresta. A enfermidade foi identificada em humanos pela primeira vez em 1976 no Sudão e na República Democrática do Congo, às margens do Rio Ebola.

Problema ainda não resolvido

De acordo com a diretora brasileira da MSF, ainda não é possível afirmar que o problema foi resolvido porque “a epidemia não acabou na Guiné e em Serra Leoa”, mas houve uma significativa redução de casos em toda a região e os demais países atingidos foram declarados livres da doença. Para que o surto seja considerado controlado é necessário que o local esteja há 42 dias sem registrar um caso de Ebola. Serra Leoa já não tem mais pessoas infectadas, mas ainda não terminou a sua contagem. O último paciente recebeu alta no dia 24/08, o que quer dizer que se não houver nenhum novo caso, o fim do surto pode ser declarado no dia 5 de outubro. A Libéria terminou sua contagem no dia 3 de setembro.

“O Ebola deixou mais do que milhares de mortos, deixou órfãos e pessoas com dores crônicas. Também causou transtornos visuais que podem levar à cegueira, especialmente porque o número de oftalmologistas capazes de tratar estes pacientes nessas regiões é bastante limitado. As consequências desta epidemia são médicas, sociais e econômicas”, lamenta a doutora Rado.

Mais de um ano e meio depois (o surto começou em dezembro de 2013) da declaração de epidemia na Guiné, que se estendeu muito rapidamente a Serra Leoa e à Libéria, o vírus do Ebola continua circulando nos dois primeiros países. Ao todo, 28 mil pessoas foram infectadas durante este surto, sendo que 11.300 morreram.