CIATEN: Leishmanioses, doença de chagas, tuberculose e hanseníase ganham visibilidade no Piauí

Publicação: 9 de julho de 2019

Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados alia inteligência científica e saúde pública para oferecer respostas ao estado e à sociedade

Experiências do CIATEN podem ser reproduzidas e adaptadas para outras regiões tropicais dentro e fora do Brasil

A recente assinatura de um termo de cooperação permitirá um serviço pioneiro no estado do Piauí. Trata-se do Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados (CIATEN), que tem como finalidade elaborar políticas públicas baseadas em evidências científicas; gerar e difundir conhecimentos científicos e tecnologias inovadoras; ensinar e treinar profissionais da administração pública e demais interessados; além de produzir fármacos e dispositivos biotecnológicos. Para o Coordenador Científico, Dr. Bruno Guedes (UFPI), essa é uma oportunidade de importância única para o Piauí. “Nosso estado tem um potencial intelectual diferenciado, mas ainda pouco aproveitado. Nosso corpo docente reúne excelentes profissionais com destaque nacional e internacional. Com investimento adequado, tenho certeza de que grandes feitos para a saúde podem ser realizadas neste lado tropical”, enfatiza. A assinatura do termo foi possível graças à união de esforços e recursos da Secretaria de Estado da Saúde do Piaúi (SESAPI) e da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

O CIATEN é um Núcleo de Pesquisas da Universidade Federal do Piauí e uma proposta do Instituto de Doenças do Sertão para a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí e conta com o apoio do Banco Mundial. Sua tarefa é eleger e sugerir prioridades em saúde no âmbito desses agravos emergentes e negligenciados, fazer revisões sistemáticas dos assuntos para avaliar o grau de evidências que suportam as políticas já implementadas e propor a elaboração de políticas baseadas nas evidências disponíveis. Quando as evidências não existirem ou forem frágeis, o CIATEN deverá iniciar pesquisas no assunto. Para complementar o seu apoio à qualificação das políticas públicas na área, o CIATEN será um centro formativo para os trabalhadores da de saúde, particularmente na interface entre os agravos emergentes e negligenciados e a atenção primária à saúde.

Assim, as sugestões de políticas públicas do CIATEN contam com sustentação em evidências científicas e preveem o desenvolvimento de pesquisas em quatro grupos temáticos: Núcleo de agravos emergentes transmissíveis, dedicado a epidemias de arbovírus, especialmente aquelas transmitidas pelo Aedes aegypti e à encefalite do Nilo Ocidental; Núcleo de agravos emergentes não transmissíveis, dedicado aos agravos por violência não intencional, focado em acidentes com e por motocicletas; Núcleo de agravos negligenciados de transmissão vetorial, que priorizará as leishmanioses, particularmente o calazar, e a doença de Chagas; e o Núcleo de agravos negligenciados de transmissão direta, que priorizará tuberculose e hanseníase. A coccidioidomicose também pode compor a lista de agravos a serem priorizados.

“A carência em sínteses da literatura, em epidemiologia analítica, em bioestatística, análise de risco, entre outros, geram vulnerabilidades na elaboração de políticas eficazes para o controle de doenças tropicais. Pretendemos treinar e qualificar pesquisadores e profissionais de saúde para melhorar o entendimento das causas e dinâmicas dos agravos negligenciados, para a elaboração de políticas públicas adequadas desde a estrutura de morbidade e mortalidade à organização dos serviços concernentes à atenção básica e componentes estratégicos da saúde do estado. O Centro junta inteligência científica com a saúde pública para oferecer respostas ao estado e à sociedade, que poderão ser reproduzidas e adaptadas para outras regiões tropicais dentro e fora do Brasil”, assinala o Dr. Guedes.

Os agravos

O termo “agravo” vai além da doença e se refere a qualquer circunstância que leve ao prejuízo da saúde das pessoas e podem ser classificados em: Agravos tropicais, aqueles que têm maior incidência nos países localizados entre os Trópicos de Capricórnio e de Câncer, condicionados pelo clima tropical e pela pobreza econômica. Já os agravos emergentes afligem grande parte da população e sobre os quais ainda se tem pouco ou nenhum controle. Enquanto os agravos negligenciados são doenças que por terem maior incidência sobre grupos menos privilegiados, resultam em menor lucratividade para as indústrias farmacêuticas.

O coordenador do projeto e professor de Medicina da UFPI, Carlos Henrique Costa, explica que os assuntos emergentes não transmissíveis foram priorizados por fazerem parte da nossa realidade. “Hoje, vivemos uma epidemia de agravos, de acidentes de motocicletas, em várias partes do mundo, em especial nos países mais pobres (tropicais). “Se levarmos em consideração as dez causas de morte no mundo, veremos que os acidentes de motocicletas estão entre elas, e o Piauí é proporcionalmente, um dos estados brasileiros onde há maior número de mortes”, completa. Ainda de acordo com o professor, os acidentes de motocicleta se configuram em uma tragédia, com inúmeras sequelas, que se tornam doenças, e levam a mortes preveníveis, que afetam jovens e população economicamente ativa, além de resultar em elevado custo econômico e social para a população. “Também não devemos esquecer a emergência de violência intencional, ligada ao tráfico de drogas, particularmente ao crack, que assola a toda a América Latina”, lembra.

 

O Dr. Carlos Henrique ressalta que as doenças negligenciadas são aquelas que não têm investimento em conhecimento, medicamentos, vacinas, porque acomete populações muito pobres ou são doenças raras, e, portanto, não há interesse nelas. Fazem parte deste grupo de doenças parasitárias as duas leishmanioses (visceral e tegumentar) e a doença de Chagas. “Além delas, há outras duas velhas enfermidades que ainda mantêm indicadores muito ruins aqui no Brasil, em particular no estado do Piauí, que são a tuberculose e a hanseníase”, lamenta.

A interação entre saúde e informática também está prevista para ser contemplada pelo CIATEN, uma vez que a utilização de tecnologias como IoT (Internet of Things – em português, Internet das Coisas) e Inteligência Artificial (IA) associadas à área da saúde são importantes ferramentas que podem colaborar no controle dos agravos ou doenças emergentes e negligenciadas, transmissíveis ou não transmissíveis. “Temos o dever de fazer essa interação. O mundo está entrando em uma nova fase, inovações surgem a cada dia. Diagnósticos mais rápidos, predições mais apuradas, processamento e tratamento de informações em saúde. Através de plataforma em Informática e IA, vamos participar ativamente desse processo”, adianta o Dr. Guedes.

O CIATEN

O Centro de Inteligência em Agravos Tropicais Emergentes e Negligenciados foi idealizado ao longo de vários anos, já está constituído em atividades e seus pesquisadores já contam com colaborações com instituições internacionais como a Universidade de York, no Reino Unido e a Universidade de Teerã, no Irã. Tratativas de parcerias com centros de pesquisas internacionais, por exemplo, Centre de Recherche en Infectiologie (CRI) do Centre Hospitalier Universitaire de Québec (CHUQ) estão em andamento. Além desses projetos, o CIATEN pretende contar com o apoio de instituições nacionais como o Serrapilheira e internacionais como Bill & Melinda Gates Foundation e o Banco Mundial. A Universidade Federal do Piauí (UFPI), a Secretaria de Estado da Saúde (SESAPI) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Piauí (FAPEPI) são importantes parceiros do Centro.