Chikungunya: vacina desenvolvida em parceria com o Butantan induziu títulos de anticorpos protetores em 98,5% dos participantes do estudo

Publicação: 10 de setembro de 2021

Imunizante testado em 4.115 pessoas gerou anticorpos neutralizantes em 98,5% dos voluntários 28 dias após a aplicação da dose única

Valneva transferirá a tecnologia de sua vacina ao Butantan, que vai desenvolver, produzir e comercializar em países de baixa renda

Em parceria com o Instituto Butantan, a farmacêutica franco-austríaca Valneva está desenvolvendo uma vacina contra a febre chikungunya que mostrou resultados promissores em ensaios clínicos de Fase 3  realizados nos Estados Unidos, aumentando as esperanças de que uma vacina protetora esteja disponível em breve. O imunizante, chamado internacionalmente de VLA1553, foi testado em 4.115 pessoas e gerou anticorpos neutralizantes em 98,5% dos voluntários 28 dias após a aplicação da dose única. O percentual está muito acima do limite de 70% acordado com o órgão regulador norte-americano, Food and Drug Administration (FDA, na sigla em inglês), para ser usado em uma solicitação de autorização de comercialização. A vacina candidata também se mostrou altamente imunogênica, mesmo em participantes de idade avançada e foi, em geral, bem tolerada. O imunizante já tinha demonstrado ótimos resultados nas etapas anteriores de pesquisa: na Fase 1, houve 100% de soroconversão nos 120 voluntários, e os anticorpos foram mantidos mesmo depois de um ano. A partir desses resultados, o estudo avançou diretamente para a Fase 3. A previsão é que os resultados finais dos ensaios clínicos sejam divulgados em seis meses.

A vacina candidata usa uma versão viva atenuada de chikungunya, ou seja, uma versão enfraquecida que ainda pode se replicar, mas não causa doenças. O diretor médico da Valneva, Dr. Juan Carlos Jaramillo, explica que ela é baseada na cepa do Leste, Centro e Sul da África (ESCA, na sigla em inglês), que se espalhou pelo Oceano Índico. Ainda de acordo com o Dr. Jaramillo, ela apresenta reação cruzada com outras cepas, o que significa que o VLA1553 foi desenvolvido para proteger contra elas também, incluindo a cepa de linhagem asiática que está se espalhando rapidamente pelas Américas, conforme observado em estudos pré-clínicos. “Considerando que projetamos o VLA1553 como uma vacina viva atenuada, acreditamos que pode conferir imunidade para toda a vida, o que terá de ser demonstrado por meio de ensaios clínicos”, complementa. O produto é liofilizado, o que proporciona condições otimizadas de armazenamento.

Para tornar o VLA1553 mais acessível aos Países de Baixa e Média Renda (Low and Middle Income Countries, LMICs, na sigla em inglês), a Valneva e o Instituto Butantan assinaram contratos definitivos para o desenvolvimento, fabricação e comercialização da vacina de injeção única VLA1553, em janeiro deste ano. O diretor médico da Valneva esclarece que com a colaboração, a Valneva vai transferir a tecnologia da vacina chikungunya para o Instituto Butantan, que desenvolverá, fabricará e comercializará a vacina nos LMICs. Além disso, o Butantan fornecerá alguns estudos clínicos e observacionais de Fase 4 que a Valneva usará para atender aos requisitos regulamentares. “A colaboração se enquadra na estrutura do acordo de financiamento de US$ 23,4 milhões que a Valneva assinou com a Coalizão de Preparativos em Inovações contra epidemias (Coalition for Epidemic Preparedness Innovations, CEPI, na sigla em inglês) em julho de 2019”, ressalta.

A chikungunya é uma doença viral transmitida pela picada do mosquito Aedes aegypti, o mesmo vetor da dengue, zika e Febre amarela. A circulação do vírus foi identificada no Brasil pela primeira vez em 2014, e ele já se espalhou por mais de 100 países. Além de representar uma grande ameaça à saúde pública, a chikungunya causa incapacitação temporária que pode deixar muitos profissionais sem condições de trabalhar. E as complicações não param por aí, cerca da metade dos casos evolui para a forma crônica, na qual as dores e as inflamações perduram por mais de três meses. Para cerca de metade das pessoas infectadas, a doença causa febre e dores nas articulações que desaparecem rapidamente; mas para a outra metade, pode levar a uma forma de artrite que pode durar meses ou até anos.

As áreas de maior risco de infecção são locais onde os mosquitos portadores do vírus chikungunya são endêmicos. A doença é mais prevalente nas Américas, partes da África e sudeste da Ásia. Mas um número crescente de surtos foi relatado na Europa nos últimos anos como resultado da mudança climática e da propagação do mosquito mais ao norte. Em setembro de 2020, havia mais de 3 milhões de casos relatados nas Américas e o impacto econômico é considerado significativo (por exemplo, surto na Colômbia em 2014: US$ 73,6 milhões). Espera-se que a carga médica e econômica cresça à medida que os mosquitos vetores primários do CHIKV continuam a se espalhar geograficamente. Para conferir os casos da doença, clique aqui.

A doença tem se tornado um importante problema de saúde pública nos países onde ocorrem as epidemias, visto que metade dos casos evolui com artrite crônica, persistente e incapacitante. Estima-se que a doença afete mais de um milhão de pessoas anualmente. Embora milhões de pessoas tenham sido afetadas pela febre chikungunya, atualmente não há vacinas preventivas ou tratamentos eficazes disponível contra essa doença debilitante. Até o momento, a VLA1553 é a única que está na Fase 3 dos ensaios clínicos. O Dr. Jaramillo destaca que a parceria com o Butantan para desenvolvimento, fabricação e comercialização a nível nacional da vacina vai permitir a prevenção de milhares de casos anuais de infecções por chikungunya, além das complicações que podem ser causadas a longo prazo. “O terrível impacto da pandemia COVID-19 na sociedade destacou a importância das vacinas para combater as crises de saúde pública. Nossa colaboração com o Instituto Butantan pode ajudar a atender a essa necessidade urgente de saúde pública e acelerar o desenvolvimento de uma vacina para chikungunya em países de baixa renda, que tendem a ser áreas de alto risco de surto, finaliza o Dr. Jaramillo.