Vacina candidata à prevenção da tuberculose mostra sinais promissores

Publicação: 7 de fevereiro de 2020

A segurança e a eficácia da vacina foram avaliadas na África Subsaariana em 3500 adultos já infectados pelo agente causador da tuberculose. Metade recebeu a vacina e os outros receberam placebo

Após três anos de acompanhamento ativo, o número de casos de tuberculose pulmonar clinicamente ativa foi reduzido em 50% nas pessoas que receberam a vacina

A criação de uma vacina eficaz contra a bactéria causadora da tuberculose, Mycobacterium tuberculosis (MTB), que proporcione proteção mais efetiva em adultos é a esperança para vencer a doença que, em 2018, de acordo com o Relatório Global de TB da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em outubro de 2019, vitimou 1,5 milhão de pessoas. Atualmente, a única vacina disponível, Bacillus Calmette-Guerin (BCG), está em uso desde 1921 e apresenta várias limitações. Embora as pesquisas sobre a próxima geração de vacinas para prevenção da doença tenham começado há décadas, nenhuma vacina teve sucesso. Isso se deve principalmente porque o agente causador é altamente complexo e a resposta a resposta do sistema imunológico quando infectado ainda não está totalmente esclarecida. Além disso, os modelos animais disponíveis podem não prever o que acontece nos seres humanos, e não há correlatos de proteção ou risco para orientar o desenvolvimento da vacina. Essas lacunas tornam a vacina contra a tuberculose particularmente difícil.

Agora, quase um século após o desenvolvimento da BCG, parece haver luz no fim do túnel e uma nova e aprimorada vacina pode estar próxima. O Dr. Olivier Van Der Meeren, que lidera a pesquisa clínica para a vacina candidata M72 / ASO1E, na GSK Vacinas, destaca que após três anos de acompanhamento, o número de casos de tuberculose pulmonar clinicamente ativa foi reduzido em 50% entre as pessoas que receberam a M72 / ASO1E. A vacina candidata contém a proteína recombinante por fusão M72, derivada de dois antígenos da Mycobacterium tuberculosis (Mtb32A e Mtb39A), combinados ao Sistema Adjuvante AS01E. “Consiste em uma proteína e um adjuvante. A proteína “M72” é a fusão de dois antígenos bacterianos, o Mtb32 e o Mtb39, cuja correlação com o controle natural da doença pelo sistema imunológico foi identificada anteriormente. O adjuvante é uma formulação baseada em lipossomos contendo MPL e QS21: essa preparação demonstrou capacidade de promover fortes respostas celulares e humorais, e também está presente da vacina ShingrixTM, aprovada pelo FDA, descreve o Dr. Van Der Meeren.

O Dr. Dereck Tait, Diretor de Desenvolvimento Clínico da Aeras, organização sem fins lucrativos de TB, detalha que o estudo foi realizado em 11 locais na África do Sul, Zâmbia e Quênia, onde um total de 3.575 participantes foram randomizados e 3.573 receberam pelo menos uma dose da vacina candidata ou placebo; e 3.330 receberam as duas doses planejadas. “Na coorte de eficácia de acordo com o protocolo, 13 dos 1.626 participantes do grupo M72 / AS01E, em comparação com 26 dos 1.663 participantes do grupo placebo, desenvolveram a doença, conforme a primeira definição de caso no protocolo. A eficácia da vacina no mês 36 foi de 49,7% (intervalo de confiança de 90%, 12,1 a 71,2). Em uma coorte de imunogenicidade, a vacina demonstrou ser imunogênica e essa resposta foi mantida durante todo o período de acompanhamento. Eventos adversos foram observados com maior frequência no grupo M72 / AS01E em comparação ao placebo e essa diferença foi predominantemente devido à reatogenicidade, por exemplo, dor, inchaço e vermelhidão no local da injeção”, acrescenta.

Avanço científico e principais desafios

Tanto o Dr. Van Der Meeren quanto o Dr. Tait concordam que a M72 / ASO1E pode ser considerada um avanço científico. “Este é o primeiro estudo bem-sucedido em quase 100 anos e há um alto impacto potencial na saúde pública nos países em que a necessidade médica é maior. Recebemos reações muito entusiasmadas de especialistas e agências públicas”, enfatiza o Dr. Van Der Meeren. Para o Dr. Tait, ela realmente é um grande avanço científico, pois é a primeira vacina, desde BCG, que demonstrou eficácia na prevenção da tuberculose pulmonar em pessoas que apresentam evidências de sensibilização ao Mycobacterium tuberculosis, ou seja, infecção latente por TB. “A demonstração de eficácia nos permitirá agora testar as amostras que foram coletadas e armazenadas quanto a correlatos de proteção que, se bem-sucedidos, serão um avanço inovador para a pesquisa de vacinas contra a doença”, destaca o Dr. Tait.

Um dos acontecimentos que complicaram a luta contra a doença desde os anos 1990 foi a propagação do HIV. Apesar de 40% das mortes entre indivíduos HIV positivos serem causadas pela tuberculose, as pessoas que vivem com HIV foram excluídas do estudo. De acordo com os autores da pesquisa, isso se deve ao fato de não saberem exatamente o efeito que o HIV teria na eficácia da vacina. “Entretanto agora que a eficácia foi demosntrada, as pessoas infectadas pelo HIV serão um grupo importante para estudos futuros”, completa o Dr. Tait. O Dr. Van Der Meeren lembra ainda que em outro estudo (Medicine 2018; 97: 45, e13120), foi descoberto que indivíduos infectados pelo HIV parecem reagir à vacina de uma maneira muito semelhante às pessoas não infectadas. “Como a vacina atual, a BCG, é contra-indicada para pessoas infectadas pelo HIV, nossa vacina candidata pode ser particularmente importante para esse grupo se a eficácia for confirmada”, assinala.

Apesar de representar um grande avanço na pesquisa de vacinas contra a tuberculose e ter sido bem tolerada e eficaz, a M72 / ASO1E também esbarra em desafios. O Dr. Van Der Meeren explica que a forma como o sistema imunológico protege os indivíduos de desenvolver a doença não é totalmente compreendido e, portanto, não há atualmente nenhum teste para prever se uma pessoa vacinada está protegida ou não, e a falta de um “correlato de proteção” se tornam o principal desafio, porque implica que a eficácia só pode ser avaliada diretamente seguindo um grande número de voluntários por um longo período. Outros desafios, segundo o Dr. Tait, envolvem a condução dos estudos para facilitar o registro. Segundo ele, estudos de registro em grupos maiores de participantes, incluindo, por exemplo, pessoas vivendo com HIV, são necessários agora. Outros grupos, como aqueles que não têm evidências de exposição prévia à tuberculose, também precisam ser estudados. Os resultados finais do estudo estão disponíveis e foram publicados no NEJM. N Engl J Med 2019; 381: 2429-2439. DOI: 10.1056 / NEJMoa1909953.

A vacina agora terá que ser avaliada em estudos de “fase III” para confirmar seu perfil de eficácia e segurança em um grupo ainda maior de voluntários. A expectativa para que a vacina possa estar disponível ainda é incerta. “Estudos adicionais são necessários antes que a vacina seja disponibilizada e, atualmente, acredita-se que esse processo leve cerca de 7 anos”, admite o Dr. Tait. Enquanto uma nova vacina contra a tuberculose não é uma realidade, a BCG mantém-se como importante instrumento no controle dos efeitos danosos da doença, sobretudo em países com taxas de incidência médias e elevadas.

Doença da pobreza negligenciada há décadas

Apesar dos avanços, a tuberculose ainda é um grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo. A doença está relacionada com a extrema pobreza e se dissemina com mais facilidade em grandes aglomerações de pessoas, nas quais a luz é escassa e o ar mal circula. As populações mais vulneráveis são os moradores de rua, a população carcerária, os infectados pelo HIV e a população indígena, que em geral vive em uma situação de pobreza e tem um risco três vezes maior de contrair a doença. Há outros grupos que também podem ser considerados suscetíveis: a população negra ou parda, que em geral vive em uma situação social pior e corre duas vezes mais o risco de contrair tuberculose do que um branco, assim como pessoas que estão em condição de pobreza extrema e geralmente vivem em favelas.

Todos os anos, 10 milhões de pessoas adquirem tuberculose no mundo fazendo 3 milhões de vítimas fatais. As populações mais atingidas geralmente se encontram em locais com difícil acesso ao diagnóstico e ao tratamento. Em geral, procuram atendimento tardiamente e quando o fazem, já espalharam a doença, por várias semanas, a outras pessoas. No Brasil, são 70 mil novos casos ao ano com cerca de quatro mil mortes anuais. Dos 22 países que respondem por 80% dos casos de tuberculose do mundo, o Brasil ocupa a 15ª posição no ranking liderado pela China e Índia. O que eles têm em comum? Pobreza.

Apesar da necessidade global de saúde por uma nova vacina, o progresso no desenvolvimento de vacinas é significativamente diminuído por causa dos recursos consideráveis e sustentáveis necessários para apoiar e melhorar o contínuo de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). A OMS tem um objetivo ambicioso de reduzir drasticamente a tuberculose na próxima década, mas, na opinião do Dr. Van Der Meeren, isso só será possível se ocorrerem descobertas inovadoras no campo da vacinação, diagnóstico e tratamento. De acordo com ele, parcerias entre pesquisa financiada pelo setor público e parceiros privados são fimportantes para atingir esse objetivo.

Por fim, o Dr. Tait reconhece que a comunidade científica mundial está trabalhando duro para melhorar a situação da tuberculose, desenvolvendo novos medicamentos, novos diagnósticos e novas vacinas. “Um dos maiores obstáculos enfrentados é o financiamento – com mais oportunidades de financiamento, a comunidade científica pode acelerar seus esforços para erradicar a tuberculose”, conclui.