Candidata a vacina contra HIV da Johnson & Johnson falha em testes clínicos

Publicação: 10 de setembro de 2021

Apesar dos resultados frustrantes do Imbokodo, os dados devem ser úteis para ensaio paralelo, também liderado pela farmacêutica, em andamento em oito países, incluindo o Brasil

Esperança continua com pesquisas que buscam vacinas contra o HIV com tecnologia similar utilizada contra a COVID-19

Neste ano, a descoberta de uma doença ainda sem cura e que já matou milhões de pessoas em todo o mundo completou 40 anos: a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, mais conhecida pela sigla Aids. O número de mortes por ela tem caído nos últimos anos graças aos avanços nas pesquisas científicas, que buscam arduamente novos tratamentos e métodos de prevenção. Entretanto, desde 1981, quando o primeiro caso foi diagnosticado, nos Estados Unidos, 38 milhões de pessoas convivem com o HIV, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Apesar dos avanços obtidos no conhecimento da patogenia, diagnóstico e tratamento da doença, o desenvolvimento de vacinas eficazes e de estratégias capazes de erradicar o vírus ainda são objetivos não alcançados. A desigualdade social é outro fator que impede que soluções cheguem às pessoas pobres e vulneráveis.

A sonhada vacina contra o HIV pode ajudar a dar fim na epidemia da doença, meta traçada pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) para 2030. Mas infelizmente não foi dessa vez. A tão esperada vacina desenvolvida pelo laboratório Johnson & Johnson falhou. Durante os ensaios clínicos, a candidata a vacina, apesar de não ter provocado efeitos colaterais graves nas voluntárias, também não gerou resposta imune satisfatória. A eficácia apresentada foi de apenas 25% na prevenção da infecção. Com este índice, os pesquisadores entenderam que ela não forneceu a proteção adequada na prevenção ao HIV e os estudos foram encerrados. Os pesquisadores lamentaram a baixa eficácia da vacina, mas enfatizaram que os dados serão úteis.

O ensaio clínico, que recebeu o nome de Imbokodo, começou em 2017 e incluiu mais de 2 mil mulheres com idade entre 18 e 35 anos, de cinco países da África Subsaariana (Malaui, Moçambique, África do Sul, Zâmbia e Zimbábue). A região foi escolhida para o estudo porque mulheres e meninas vulneráveis em todo o continente representam quase dois terços das novas infecções por HIV em 2020. Os resultados das aplicações, concluídas em 30 de junho de 2020, indicaram que 63 das 1.109 mulheres do grupo placebo apresentaram novas infecções por HIV, enquanto a proporção de infecção entre as vacinadas foi de 51 casos para 1.079 que receberam a vacina experimental.

Infectologista e coordenador médico de pesquisa clínica no Hospital Emílio Ribas, Dr. Bernardo Porto Maia ressalta que não se tem ainda uma resposta do motivo, que impactou em resultado não satisfatório, à primeira análise do ensaio clínico Imbokodo. “Todo estudo é passível ou não de atingir o objetivo ao qual se propõe. Inúmeras variáveis podem interferir neste processo, como, por exemplo a população-chave para a infecção pelo HIV, na África; características inerentes ao subtipo específico, predominante naquele continente, bem como a própria constituição do imunizante, que utiliza a mesma plataforma (vetor viral), que o produto investigacional utilizado no estudo Mosaico, porém apresentam diferenças quanto aos subtipos contemplados pelo potencial imunizante”, destaca. Para ele, estas diferenças podem ter alguma relação com possíveis desfechos distintos, entre os estudos.

“Apesar do resultado insatisfatório, quanto ao objetivo principal do estudo Imbokodo; o produto investigacional se mostrou seguro e sub-análises serão feitas e, possivelmente, contribuirão para a continuidade de futuras pesquisas; da mesma forma que outros estudos, no passado, serviram de marco para aprimoramento de técnicas e tecnologias, que possibilitaram o acontecimento de estudos, em diferentes fases de pesquisa clínica, hoje, no mundo, na busca por uma vacina global contra o HIV”, acrescenta o Dr. Maia.

Dr. Rico Vasconcelos, médico infectologista e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), complementa. “Ainda que tenha ocorrido 25% menos casos entre as mulheres vacinadas, a análise estatística mostrou que essa redução na incidência não pode ser atribuída à vacina e está muito abaixo do mínimo de 50% de redução de incidência esperado pelos pesquisadores. Ou seja, os resultados encontrados no Imbokodo demonstraram que não houve diferença estatisticamente significante na incidência de HIV entre as mulheres cis-gênero que receberam a vacina experimental e as que receberam placebo. Em outras palavras, as mulheres que receberam placebo ou a vacina experimental tiveram o mesmo risco de se infectar com o HI”, diz. Para ele, isso aconteceu pelo mesmo motivo das outras dezenas de tentativas de vacina que já foram testadas em ensaios clínicos nesses últimos 40 anos de epidemia: o HIV encontrou maneiras de escapar a resposta imune induzida pela vacina.

Em comunicado, a farmacêutica garantiu que as participantes infectadas pelo HIV durante o estudo foram encaminhadas a serviços de tratamento e assistência de alta qualidade. As voluntárias também serão informadas se receberam a vacina ou placebo. De acordo com o diretor científico da Johnson & Johnson, Dr. Paul Stoffels, a complexidade única do HIV e sua capacidade de escapar do sistema imunológico humano seguem sendo desafios no desenvolvimento de vacinas contra ele. A mesma tecnologia tem se mostrado eficaz, nos imunizantes desenvolvidos pela J&J contra o Ebola e a COVID-19. A tecnologia aplicada na candidata a vacina do HIV da Johnson & Johnson é a do adenovírus inativado, a mesma utilizada nas vacinas da AstraZeneca, Janssen e Sputnik V contra a COVID-19.

Vacina em fase de testes no Brasil

Apesar dos resultados insatisfatórios, a gigantesca farmacêutica lidera outro ensaio paralelo, chamado Mosaico. O Dr. Bernardo Porto Maia, que também é coordenador da equipe médica deste estudo do Hospital Emílio Ribas, explica que o Mosaico é um ensaio clínico de fase 3, multicêntrico e internacional, em andamento em oito países dos continentes americanos, incluindo o Brasil, e europeu, onde a cepa do vírus difere da prevalente na África. “A população-chave à infecção pelo HIV e, portanto, elegível para o estudo difere da recrutada no estudo Imbokodo, na África, sendo esta de homens que fazem sexo com outros homens e pessoas trans, com vulnerabilidade sexual à infecção por transmissão sexual do HIV-1”, atenta o Dr. Maia. A conclusão está prevista para março de 2024.

Para o Dr. Vasconcelos, que coordena o mesmo estudo, mas na USP, os resultados do Imbokodo preocupam, mas ao mesmo tempo não prejudicam o Mosaico. “O Imbokodo foi importante, ainda que ele não tenha encontrado o resultado desejado. São esses resultados que nos ensinam cada vez mais sobre a imunização contra o HIV e nos dão embasamento para os próximos passos na busca por uma vacina eficaz. As pesquisas, assim como a vida, são repletas de erros e de acertos. Os erros nos ensinam qual caminho não seguir e os acertos ensinam os caminhos corretos para continuar tentando”, frisa o pesquisador. Em relação à diferença entre as duas vacinas, o Dr. Vasconcelos detalha que a vacina utilizada no Imbokodo conta com tecnologia semelhante, que é o vetor viral adenovírus 26, contudo, apesar de serem parecidas, são vacinas diferentes.

“Além do adenovírus aplicado em todas as 4 doses, a vacina experimental testada na África adicionou às duas últimas aplicações, uma combinação de proteínas gp140 presentes no envelope viral do subtipo C do HIV, o mais prevalente naquele continente. Já a versão da vacina utilizada no Mosaico, a combinação de proteínas gp140 aplicada inclui proteínas de diferentes subtipos do HIV (A e B) e não apenas do subtipo C, o que teoricamente pode melhorar a proteção”, conclui o Dr. Vasconcelos. Ensaios pré-clínicos realizados com a vacina do Mosaico em macacos encontrou uma redução na incidência do HIV de 67% entre os macacos vacinados.

Diferenças entre os dois estudos clínicos

Outras vacinas candidatas

A Johnson & Johnson não está sozinha na corrida pelo desenvolvimento de uma vacina contra o HIV. A Moderna é outra delas. Os testes de duas candidatas devem ser iniciados ainda este mês, mas sem data para divulgação dos resultados. As vacinas desenvolvidas utilizam a tecnologia de RNA mensageiro, a mesma utilizada pela empresa de biotecnologia em sua vacina contra a COVID-19.

Um artigo publicado pelo New England Journal intitulado “Uhambo — Twists and Turns on the Journey to an Efficacious HIV-1 Vaccine” cita estudos de vacinas em todo o mundo. Entre eles, dois já encerram: Tailândia, realizado entre 2003 e 2009, incluiu homens e mulheres, e apresentou 31% de eficácia; África do Sul, realizado entre 2016 e 2020 com homens e mulheres, sem eficácia comprovada. Além deles, o artigo faz referência ao estudo realizado na África subsaariana (HVTN 705), com início em 2017 e término previsto para 2022, o qual inclui apenas mulheres. Outro realizado na Europa, Estados Unidos e América Latina, com início em 2019 e término previsto para 2023, o qual inclui homens que fazem sexo com homens. E por fim, o da África subsaariana (PrepVacc), com início em 2020 e término previsto para 2023, o qual inclui homens e mulheres. Outro estudo não citado no artigo apresentou sucesso na fase 1. Nele, a Iniciativa Internacional pela Vacina da Aids (Iavi) e o Scripps Research Institute, nos Estados Unidos, testaram um novo imunizante que estimulou a produção de anticorpos especialmente potentes em 97% dos participantes.

Os cientistas têm feito grandes avanços no tratamento contra o HIV transformando o que antes era uma sentença de morte em uma condição administrável. Apesar de todos os avanços obtidos, quase dois milhões de novos casos ocorrem em todo o mundo, a cada ano, com mais de 700 mil mortes anuais causadas pela Aids, o que demostra que temos um longo caminho a percorrer na erradicação definitiva desse flagelo. A manutenção de estratégias combinadas de prevenção, voltadas às populações mais vulneráveis, ampliação do tratamento antirretroviral, e persistência nos esforços em busca de uma solução definitiva (vacina ou cura) ainda são essenciais para virarmos essa página da história da humanidade. E nessa batalha, a equidade ao acesso de medicamentos é uma das ferramentas mais eficazes na erradicação de doenças infecciosas.