Arbovírus e coronavírus: tragédias anunciadas na saúde brasileira

Publicação: 11 de abril de 2020

E o mundo inteiro pergunta, qual será a próxima epidemia causada por arbovírus e como será a repercussão em saúde pública?

As epidemias por arbovírus se tornaram muito frequentes e o impacto foi tremendo face às desigualdades sociais, a pobreza, a falta de educação e o descaso das autoridades na maioria dos países afetados

O mundo nas últimas décadas tem vivenciado a ocorrência de grandes epidemias causadas por vírus zoonóticos ou agentes virais que normalmente tinham distribuição restrita e limitada dentro de certos países ou continentes. Muitas dessas epidemias foram causadas por arbovírus (acrônimo da expressão inglesa arthropod-borne virus). De fato, no presente século XXI, epidemias por arbovírus se tornaram muito frequentes e, geralmente, elas ocorreram em vários países em mais de um continente, a maioria delas em países em desenvolvimento no chamado “mundo tropical”, onde o impacto foi tremendo face às desigualdades sociais, a pobreza, a falta de educação e o descaso das autoridades na maioria dos países afetados.

O virologista Dr. Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) explica que foi assim com o dengue, que atualmente atinge números de casos e mortes estratosféricos; seguiu-se com o chikungunya a partir de 2005 e depois com o Zika que acometeu muitos países a partir de 2015. Este foi responsável pela primeira emergência em saúde pública internacional decretada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por causa do surto de microcefalia e outras malformações congênitas. Seguiu-se com as epidemias de febre amarela na África (Angola e República Democrática do Congo) e América do Sul (Brasil). “E o mundo inteiro pergunta, qual será a próxima epidemia causada por arbovírus e como será a repercussão em saúde pública?”, indaga.

De outro lado, nós temos também vivenciado uma série de epidemias por outros vírus zoonóticos que não são arbovírus, portanto, a transmissão não depende de um vetor artrópode. “Aí se enquadram os membros do gênero Henipavirus (família Paramixoviridae) – vírus Hendra na Austrália que acomete humanos e equinos e que resulta em perdas significativas nos rebanhos, e o Nipah no sudeste asiático, que tem sido associado com surtos de encefalite aguda com importante letalidade. O vírus Nipah, aliás, também leva a sequelas neurológicas nos sobreviventes e, mais recentemente, estudos têm mostrado que muitos desses sobreviventes desenvolveram demência com extremas rapidez e gravidade”, complementa o Dr. Vasconcelos, que também faz parte do Departamento de Patologia da Universidade do Estado do Pará (UEPA); Seção de Arbovirologia e Febres Hemorrágicas.

Além desses neste século temos os membros do gênero Coronavírus (família Coronaviridae) e que estão associados com quadros respiratórios. Em 2002, foi descrito o vírus da SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome-Sindrome Respiratória Aguda Grave) que se iniciou na China e se espalhou por vários países tendo letalidade de cerca de 10%; em 2012 foi reconhecido o MERS (Middle East Respiratory Syndrome-Síndrome Respiratória Aguda do Oriente Médio) que apresentou letalidade em humanos de cerca de 30%, mas que se manteve restrito na região do Oriente Médio, mas também acometeu camelos. Em dezembro de 2019, foi diagnosticado o novo coronavírus (SARS-COV2) responsável pelos quadros da Doença por Coronavírus 2019 (COVID-19).

O Dr. Vasconcelos, que também faz parte do Instituto Evandro Chagas (IEC) e da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SvS/MS), esclarece que quando se analisa a situação dos arbovírus com os outros vírus zoonóticos, especialmente os coronavírus, que emergiram no presente Século XXI, vemos que com exceção do dengue (cuja transmissão é direta em ambientes urbanos entre humanos e o mosquito Aedes aegypti), todos os outros arbovírus emergiram inicialmente em ciclos silvestres zoonóticos para depois se adaptarem em ambientes urbanos, facilitados pela capacidade vetorial única do mosquito Aedes aegypti. “Por outro lado, os coronavírus associados com SARS, MERS e COVID-19 foram vírus zoonóticos, cujos transmissores são diferentes espécies de morcegos, classe de mamíferos que são ecléticos na capacidade de albergar vírus, e que são abundantes no planeta. Aliás, os vírus Hendra e Nipah, também são originários de morcegos como ocorre com o Ebola e Marburg (Filovírus), que tiveram definidos que os hospedeiros primários também seriam morcegos, bem como o vírus da raiva e outros lyssavirus”, acrescenta.

Ainda segundo o virologista, a abordagem para estudos desses vírus deve contemplar a iniciativa One Health, ou única saúde, pois a medida que os humanos invadem os ecossistemas naturais (para exploração das riquezas naturais ou para ocupações com habitações e projetos de desenvolvimento), por milênios habitados por esses e outros vertebrados silvestres, aumentamos os riscos de que alguns desses patógenos virais consigam se adaptar e se multiplicar em humanos, o que pode resultar em epidemias ou mesmo pandemias como atualmente observado com a COVID-19. Portanto, segundo ele, somente com a interação entre as diferentes ciências médicas e veterinárias, ecologia e epidemiologia, é que poderemos entender um pouco melhor a eco-epidemiologia das arboviroses e viroses zoonóticas, pois os humanos não deixarão de adentrar os ecossistemas naturais.

E assim, usando as informações científicas é que poderemos ter uma noção aproximada de como os vírus fazem o ‘salto entre espécies’, e construir mecanismos para tentar conter a disseminação ou minimizar os efeitos dos mesmos nas populações ao redor do mundo. Finalmente é preciso enfatizar que as autoridades nacionais e internacionais de saúde e os políticos em geral devem aprender a confiar na ciência e nas informações cientificamente obtidas. Somente com as informações científicas é que poderemos construir mecanismos para a prevenção e controle dessas viroses, bem como para desenvolver métodos diagnósticos, terapêuticos, vacinas e também para entender os mecanismos de doença. As informações científicas são essenciais para que possamos predizer e prevenir que as viroses zoonóticas presentes e em equilíbrio em natureza, não venham a se tornar um novo problema de saúde como hoje vivenciamos com a COVID-19”, conclui o Dr. Vasconcelos que também é Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).