Aquecimento global vai matar mais que doenças infecciosas

Publicação: 8 de setembro de 2020

Regiões mais pobres e quentes do mundo devem ser as mais prejudicadas porque têm menos recursos disponíveis para investir, diz o pesquisador Dr. Amir Jina

Gana e Sudão, por exemplo, ficarão acima da média e registrarão 200 ou mais mortes a cada 100 mil pessoas. Já os países mais ricos e frios sofrerão menos, como a Noruega, onde deve haver queda no número de mortes causadas pelo frio extremo

Devido ao aquecimento global, há muita preocupação sobre como será o futuro do planeta e sobre a saúde da população. Recente estudo publicado na National Bureau Of Economic Research, intitulado “Valuing the Global Mortality Consequences of Climate Change Accounting for Adaptation Costs and Benefits”  revela que o aumento da temperatura sozinho pode matar mais do que todas as doenças infecciosas combinadas até o final deste século. De acordo com a publicação, as taxas de mortalidade global serão aumentadas em 73 mortes por 100 mil pessoas, praticamente o mesmo número atual de óbitos por todas as doenças infecciosas, incluindo tuberculose, AIDS, malária, dengue e febre amarela.

Para entender como as altas temperaturas podem levar à perda de vidas, o Dr. Amir Jina, economista ambiental da Universidade de Chicago e co-autor do estudo, explica que algumas mortes aparecem com sintomas como insolação –corpo superaquece e os órgãos são danificados. Segundo ele, mortes como essas podem ser registradas como relacionadas ao calor quando as pessoas que faleceram são examinadas. Mas provavelmente uma proporção maior de óbitos ocorre em populações vulneráveis ou com doenças pré-existentes. “Um exemplo disso são as pessoas com problemas cardíacos – conforme o corpo começa a trabalhar mais, bombeando maior quantidade de sangue, em um esforço para resfriar, isso pode desencadear ataques cardíacos ou derrames. Em um exame, podemos ver isso apenas como um ataque cardíaco, não como uma morte relacionada ao calor. Portanto, é importante usar estatísticas para atribuir essas mortes ao calor extremo que, de outra forma, poderíamos deixar passar”, ressalta.

As mudanças climáticas (calor e frio) extremos podem afetar muitos aspectos da saúde, desde estresse por calor direto até condições agravantes do coração, pulmões, rins ou outros órgãos vitais. Esses são os tipos de mortes que os pesquisadores observaram na pesquisa. Existem outras doenças que são conhecidas por serem afetadas pelas mudanças climáticas que também podem levar à morte, como por exemplo, malária e dengue, mas o processo pelo qual o calor afeta essas doenças não foi abordado no trabalho.

Trópicos ainda mais quentes

Enquanto a atenção a respeito do aquecimento global tem se voltado para regiões polares, o estudo adverte que os países mais afetados pelas ondas de calor serão os tropicais, que coincidentemente também são os mais pobres. De acordo com a pesquisa, Gana e Sudão, por exemplo, ficarão acima da média e registrarão 200 ou mais mortes a cada 100 mil pessoas. Já os países mais ricos e frios sofrerão menos, como a Noruega, onde deve haver queda no número de mortes causadas pelo frio extremo.

O Dr. Jina salienta que essa maior exposição ao calor significa duas coisas: primeiro, um lugar mais quente tem maior probabilidade de ter pessoas expostas a temperaturas mais altas. Segundo, eles podem se adaptar melhor porque já passaram por dias mais quentes, então investem no combate aos impactos. “É aqui que surgem as dificuldades para os países mais pobres – a adaptação custa dinheiro e os países mais pobres têm menos recursos disponíveis para investir. Isso significa que o aumento da exposição a altas temperaturas não pode ser facilmente combatido com adaptações caras, como por exemplo, ar condicionado”, assinala o pesquisador.

Questionado sobre os impactos que os Trópicos devem sofrer, o Dr. Jina comenta que em um cenário de altas emissões, ligeiramente acima de onde estão as emissões globais agora, haveria 73 mortes extras por 100.000 até 2100. Ele lembra que essa é quase a mesma taxa de mortalidade por doenças infecciosas atualmente. “Se reduzíssemos as emissões a um nível um pouco mais otimista do que as metas do Acordo de Paris, isso cairia para 10 por 100.000 até 2100”, complementa. As taxas de mortalidade são mais altas nos Trópicos (106 por 100.000) em comparação com os países mais temperados do norte da Europa e da América do Norte, onde há um declínio de -25 por 100.000 mortes. Mas esse declínio é resultado de altos gastos com adaptação nos países mais ricos.

Em relação aos tipos de recursos que podem ser utilizado para desenvolver uma rede de diagnóstico, modelagem, análise e intervenção sobre as repercussões dessas mudanças sobre as condições de saúde, o Dr. Jina afirma que esta é uma questão muito difícil. “De um lado, precisamos focar na educação de como lidar com o calor extremo, onde as pessoas aprendem como limitar as atividades ao ar livre, como se hidratar adequadamente e como reconhecer quando precisam procurar ajuda. De outro, precisamos investir na infraestrutura de saúde – hospitais com capacidade para lidar com surtos e casos em dias quentes e nos dias seguintes, o que é um fator importante”, argumenta. Ainda segundo ele, também é necessário respostas políticas ao calor extremo – as empresas precisam determinar pausas, centros de refrigeração e outras mudanças no local de trabalho. “A melhor coisa que podemos fazer globalmente é reduzir nossas emissões para limitar as mudanças de temperatura”, garante.

O custo econômico dessas mortes também é um fator a ser considerado. “Descobrimos que, no cenário de altas emissões, o custo das mortes poderia ser equivalente a cerca de 3,2% do PIB global até 2100. Uma maneira diferente de pensar sobre isso é o custo social do carbono devido às mudanças na mortalidade, isto é, o danos causados pela emissão de uma única tonelada extra de dióxido de carbono hoje. Descobrimos que são USD 36,60 dólares. E lembre-se de que estamos lançando bilhões de toneladas na atmosfera a cada ano”, atenta o economista ambiental.

Redução das vulnerabilidades sociais provocadas pelo clima

De acordo com o Dr. Jina, o ar condicionado é uma medida defensiva fundamental, mas é caro e depende frequentemente da eletricidade de combustíveis fósseis, o que faria o problema piorar. “Alguns métodos mais baratos de manter a temperatura ambiente para os indivíduos podem ajudar, como telhados frios, mas poucos deles foram testados em escala”, reconhece. O pesquisador também cita medidas relacionadas ao sistema de saúde e infraestrutura: acesso a fontes de água potável, rede de segurança social que ajude as pessoas a lidar com questões de saúde antes que as levem a consequências negativas, hospitais com capacidade para lidar com um surto de doenças. Infelizmente uma realidade que não existe em muitos dos lugares mais afetados e que talvez nunca tenham acesso a essas capacidades.

O processo de mudanças climáticas e ambientais globais impostos à sociedade e aos setores de governo representam um desafio sobre as causas e o papel dessas alterações ambientais sobre as condições de saúde. Ao que tudo indica, o cenário advindo de mudanças climáticas e ambientais parece que vai permanecer envolto às dificuldades e esbarrando em grandes desafios. O Dr. Jina admite que antecipar o futuro é uma tarefa muito difícil e que eles não tentam prever mudanças exatas, mas obter cenários gerais e projetá-los no futuro. A comunidade de mudança climática inclusive construiu um conjunto de cenários para emissões (chamados de “RCPs”, na sigla em inglês, ou vias de concentração representativas) e socioeconômicas (chamadas de “SSPs”, na sigla em inglês, ou vias socioeconômicas compartilhadas). “Projetamos diferentes combinações de emissões e socioeconomia no futuro e chegamos a uma série de resultados diferentes, cada um deles dependendo do que a sociedade global escolhe para a política climática”, destaca.

Por fim, o pesquisador reverbera que os países que mais sofrem são os que menos têm feito para causar as alterações climáticas. “Essa desigualdade é um aspecto da mudança climática que precisamos lembrar sempre que debatemos políticas climáticas”, conclui o co-autor do estudo.