Anvisa libera novo medicamento para tratar malária

Publicação: 9 de dezembro de 2019

A Tafenoquina é uma droga eficaz no combate ao parasita Plasmodium vivax. A recente conquista pode impedir recaídas por tratamento insuficiente

Novo tratamento, que consegue eliminar o parasita com apenas uma dose, será uma alternativa ao padrão com primaquina, que deve ser administrado por 7 ou 14 dias

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no dia 30 de outubro o registro para o medicamento Kozenis (succinato de tafenoquina) em dose única para o tratamento da malária. O Kozenis foi registrado pelo laboratório GSK e será comercializado em embalagens de 150 mg de tafenoquina com duas unidades. A tafenoquina é uma droga eficaz no combate ao parasita Plasmodium vivax. O novo medicamento, que consegue eliminar o parasita com apenas uma dose, deve facilitar a adesão do paciente e será uma alternativa ao tratamento padrão com primaquina, administrada por 7 ou 14 dias.

O Brasil se tornou o primeiro país com malária endêmica a aprovar a tafenoquina, o que representa um dos avanços mais significativos no tratamento da malária no mundo nos últimos 60 anos. O diretor de Pesquisa da Fundação de Medicina Tropical, Dr. Wuelton Marcelo Monteiro, explica que antes da droga ser disponibilizada para a população, será conduzido um estudo para explorar a viabilidade do seu uso em conjunto com o teste da enzima Glicose-6-Fosfato Desidrogenase (G6PD) realizado no momento do atendimento ao paciente. “Também serão conduzidos estudos econômicos para saber se o novo tratamento será custo-efetivo. Daqui um tempo teremos informações que subsidiarão o Ministério da Saúde na expansão do uso da tafenoquina em todo o País”, destaca.

De acordo com o pesquisador da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD) de Manaus, Dr. Marcus Lacerda, uma questão chave de segurança em relação ao uso de primaquina e tafenoquina é a avaliação pré-administração destes medicamentos da atividade da enzima G6PD, cuja deficiência ocorre em cerca de 5% da população. “A sua deficiência pode ser verificada através de métodos com custos e complexidades variáveis. O ideal é que se possua um teste eficaz e confiável capaz de ser aplicado em regiões endêmicas para malária, normalmente com altas temperaturas e índices de umidade elevados, sem que haja dependência de recursos humanos com alta capacitação técnica e infraestrutura custosa. Assim, os chamados testes-rápidos (RDT) se tornam uma importante ferramenta”, aponta.

Os RDT qualitativos disponíveis para G6PD usam 30% da atividade enzimática normal como um limite, acima do qual a leitura é ‘G6PD normal’. Esse ponto de corte é apropriado para homens; no entanto, usando o mesmo teste, um número substancial de heterozigotos femininos (com atividade da G6PD entre 30 e 70% do normal) seria classificado como normal, desenvolvendo um tipo de anemia grave e aguda chamada de anemia hemolítica aguda se receber primaquina ou tafenoquina. Com os regimes de primaquina, que requerem dosagem repetida durante 7 até 14 dias, o medicamento pode ser interrompido se, em uma pessoa que não era conhecida por ser deficiente em G6PD, ocorrer hemólise. Entretanto, com a tafenoquina, dada suas características farmacocinéticas, uma vez que uma dose única é administrada, não há antídoto conhecido e, portanto, a hemólise continuaria.

Assim, pacientes com atividade enzimática da G6PD <70% do normal não devem receber um regime padrão de tafenoquina. Por esse motivo, é obrigatório que seja feita uma avaliação da atividade enzimática de G6PD antes da prescrição destas drogas. Alguns dispositivos quantitativos de ponto atendimento estão sob validação atual e devem estar disponíveis em campo em breve. O estudo TRuST tem como um de seus principais objetivos avaliar a utilização de tais testes-rápidos pré-uso de tafenoquina em cenários de vida real. O primeiro teste quantitativo de G6PD de realização no momento do atendimento (point-of-care) recebeu aprovação provisória em julho de 2019 pelo Expert Review Panel for Diagnostics (ERPD). Esta conquista se deu a partir do trabalho da organização global de saúde sem fins lucrativos, PATH, em parceria com a SD Biosensor (empresa global de diagnóstico), com a colaboração da MMV e da GSK.

A expectativa é que a tafenoquina seja incorporada no Sistema Único de Saúde (SUS), entretanto, uma das principais preocupações do seu uso, assim como da primaquina, é o seu potencial de causar hemólise em pacientes com deficiência da enzima G6PD. Assim, antes da incorporação do medicamento no SUS, o Ministério da Saúde (MS), em parceria com outras instituições, como Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado e a Fiocruz, junto ao MMV, conduzirá estudos de viabilidade da droga junto de um teste rápido para deficiência de G6PD, em Manaus e Porto Velho, em um cenário de vida real. O estudo TRuST deve ter resultados no início de 2021 e auxiliará o Ministério da Saúde na tomada de decisão com relação à implementação da droga nas regiões endêmicas de malária vivax no País.

“Uma vez que se verifique que o SUS é capaz de absorver de forma eficaz a utilização de RDTs na população em que a tafenoquina é indicada, e se verifique a manutenção da segurança do paciente, a incorporação da droga ao arsenal terapêutico contra a malária se torna viável. É importante esclarecer, no entanto, que a primaquina não deve ser abandonada, pois ainda possui utilidade em casos onde a tafenoquina não possui aplicação”, observa o Dr. Lacerda.

A tafenoquina no geral é bem tolerada, assim como os outros antimaláricos. Contudo, a nova droga não deve ser administrada em mulheres que amamentam uma criança que ainda não foi testada. O medicamento também não deve ser utilizado em pacientes com menos de 16 anos, pois até o momento, não há estudos clínicos nessa faixa etária “Ainda, se faz necessário esperar os resultados dessa faixa etária para que no futuro haja informações suficientes sobre a segurança do medicamento em pacientes menores”, pontua o Dr. Monteiro.

Pessoas assintomáticas também poderão ser tratadas com a tafenoquina, basta que seja realizado o teste para verificação de deficiência de G6PD previamente e este apontar que o indivíduo possua atividades da enzima acima de 70%. O Dr. Lacerda explica que indivíduos assintomáticos são o grande gargalo no ciclo de propagação da malária. Uma vez infectado, mas sem sintomas, ele não busca tratamento. Segundo ele, a identificação desta população deve ser realizada de forma ativa, ou seja, através da realização de testagem em população saudável. Diversos estudos têm buscado avaliar diferentes estratégias para a identificação deste grupo. No entanto, não há ainda métodos custo-efetivo para isso.

Tafenoquina X Primaquina

O Dr. Monteiro detalha que a molécula da tafenoquina é uma modificação da primaquina. Esta modificação permitiu que a tafenoquina permanecesse na circulação durante um tempo muito maior. Assim, em dose única, ela possibilita a cura radical e pode facilitar a adesão ao tratamento, o que representa um importante passo nos esforços de eliminação da malária. O tratamento com primaquina no Brasil dura geralmente 7 dias, sendo que muitos pacientes param de tomar o medicamento logo após os sintomas estejam cessados, após 2 ou 3 dias de tratamento, sem uma eliminação completa dos parasitos no fígado. “A tafenoquina, desenvolvida pela GSK e MMV, está aprovada pela Anvisa com a indicação para a cura radical (prevenção de recidiva) de malária por Plasmodium vivax, em pacientes com 16 anos de idade ou mais que estejam recebendo Cloroquina como terapia para a infecção aguda por P. vivax”, acrescenta.

Por que somente agora o Brasil aprovou o uso da tafenoquina

O uso de tafenoquina, juntamente ou não com outros remédios, para eliminar com o Plasmodium, não é uma novidade. A substância foi desenvolvida há 30 anos nos Estados Unidos, mas os testes não avançaram na época. O processo de aprovação de medicamentos passa por anos de pesquisa. Ele se inicia com o desenvolvimento em laboratório e chega a sua fase final com a realização de estudos de tolerabilidade, segurança e eficácia em seres humanos.

A tafenoquina é uma droga análoga à primaquina e que foi sintetizada na década de 1970 no Walter Reed Army Institute of Research (WRAIR), nos Estados Unidos, como parte de um programa de desenvolvimento de drogas antimaláricas iniciado na década anterior. Entretanto, nos últimos dez anos, uma parceria entre a organização não-governamental Medicines for Malaria Venture (MMV) e a farmacêutica britânica GlaxoSmithKline, com apoio da Fundação Bill and Melinda Gates possibilitou a fase clínica dos estudos realizados no Peru, Índia, Vietnã, Etiópia e no Brasil, nas cidades de Porto Velho (RO) e Manaus (AM), que culminaram nesta recente aprovação.

Estes estudos, realizados em países endêmicos para a malária por Plasmodium vivax, iniciados em 2012, mostraram que a dose única de tafenoquina foi segura e eficaz na cura radical desse tipo de malária, ou seja, a droga foi eficaz em atacar as formas dormentes do P. vivax e manter o paciente livre de novas recaídas nos seis meses seguintes em taxa semelhante à primaquina. Após a disponibilização dos dados desses estudos ao órgão regulatório de medicamentos dos Estados Unidos, a tafenoquina foi aprovada pela primeira vez em julho de 2018 pela agência regulatória norte-americana (Food and Drug Administration), e em setembro de 2018 pela agência australiana (Australian Therapeutic Goods Administration). Pedidos regulatórios estão sendo conduzidos em outros países com malária endêmica.

Tais aprovações regulatórias foram baseadas em dados de eficácia e segurança de um programa de desenvolvimento clínico global abrangente para cura radical de P. vivax, realizado em nove países com malária endêmica, incluindo o Brasil, na Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, que sinalizaram um perfil positivo de risco/benefício para a indicação proposta. Com a aprovação pela Anvisa, o Brasil se tornou o primeiro país com malária endêmica a regular a tafenoquina como medicação a ser disponibilizada à população. “Outros países da América Latina, como o Peru, já estão indo para o mesmo caminho. Assim, os países endêmicos deste continente estão dando um passo enorme rumo à eliminação da malária”, conclui o Dr. Monteiro.

Para o Dr. Lacerda, a recente aprovação da tafenoquina é um importante passo em direção à eliminação da malária no Brasil e no mundo. “Ser capaz de garantir a adesão do paciente ao tratamento completo, ou seja, que ele tome a medicação ainda na unidade de saúde, sob a supervisão da equipe de saúde, só é possível com o medicamento em dose única. No entanto, por seu potencial hemolítico, precisamos garantir a segurança do paciente e isso só será possível através da avaliação em cenários de vida real da factibilidade do uso de RDTs para avaliação de deficiência de G6PD”, acrescenta. Ainda segundo o pesquisador, é preciso continuar em busca de avanços no estudo das diferentes formas de eliminar a doença, seja por estratégias de tratamento ou com novas drogas. “Ainda acredito na erradicação da malária. Temos avançado cada vez mais no controle e alguns países já atingiram o status de eliminação. Sabemos que apesar de fases de controle da epidemia vistas em períodos do passado, o ressurgimento de grandes epidemias, na região amazônica e no mundo, só ocorreram por diminuição de investimento em pesquisa e desenvolvimento nesta área. Portanto, apesar da tafenoquina ter sido aprovada pela Anvisa, muito ainda há o que se estudar para garantir a segurança do paciente em cenários de vida real de utilização da droga”, finaliza.