Aedes aegypti: projeto utiliza Internet das coisas para monitorar a frequência do batimento das asas

Publicação: 11 de abril de 2019

Tecnologia pode auxiliar ações de prevenção às doenças causadas pelo mosquito

O intuito é obter informações mais exatas referentes à prevalência do Aedes Aegypti em determinadas áreas, com base na população de mosquitos e não nos focos de larvas, como atualmente é feito

Nas últimas décadas, doenças importantes transmitidas por vetores reapareceram ou se espalharam para novas partes do planeta. Fatores como mudanças climáticas, globalização, desmatamento, urbanização desordenada, estão causando aumento no número e na disseminação de vetores em todo o mundo e deixando as pessoas cada vez mais vulneráveis. As doenças transmitidas por eles afetam principalmente as populações mais pobres onde há falta de acesso à moradia adequada, água potável e saneamento. A situação é tão grave que o artigo “Past and future spread of the arbovirus vectors Aedes aegypti and Aedes albopictus, publicado na revista Nature Microbiology, alerta que até 2050 metade da população mundial pode estar em risco devido a doenças transmitidas por mosquitos.

Com o objetivo de ajudar na prevenção de doenças causadas pelo Aedes Aegypti foi desenvolvido um projeto no IoT Research Group do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), em Santa Rita do Sapucaí (MG), que utiliza o paradigma IoT (Internet of Things – em português, Internet das Coisas) para realizar o controle e mitigação do mosquito. O coordenador do projeto, professor Joel Rodrigues, explica que entre as vantagens da utilização desse método de aquisição de dados (sensor óptico) estão o baixo requisito energético e o pouco consumo de dados. Ou seja, a informação de detecção de mosquitos capturada é pequena, o que permite empregar um sistema de processamento de dados com protocolos atuais utilizados no contexto da Internet das Coisas. “O conjunto do sensor, mais o processamento e a transmissão de dados é tido como um objeto para IoT e este objeto, além do monitoramento para detectar o Aedes Aegypti, também tem a função de mitigar”, acrescenta. Em termos práticos, a armadilha fica conectada à rede e os dados coletados são traduzidos e gerenciados por um middleware para IoT desenvolvido pelo grupo de pesquisa, o In.IoT (https://www.inatel.br/in-iot), o que permite que estes dados sejam visualizados via Web ou por aplicativos móveis. A distribuição das armadilhas de forma uniforme, com tecnologia utilizada e orientada para IoT, disponibiliza informações relevantes em tempo real, o que pode ajudar autoridades de saúde e sanitárias em monitoramentos mais precisos e ágeis.

Diego Amorim, estudante de mestrado e orientando do professor Joel Rodrigues, conta que o projeto é dividido em duas etapas: a primeira realiza o sensoriamento e a aquisição de dados, e a segunda faz o processamento dos dados adquiridos e a transmissão para a plataforma In.IoT. Na parte de aquisição de dados é utilizado um sensor óptico com a capacidade de identificar a frequência de batimento da asa de qualquer inseto e através desta frequência é possível inclusive verificar a espécie (por exemplo, Aedes Aegypti) e o gênero (fêmeas). O projeto também prevê uma armadilha para controlar as fêmeas – a barreira com sensoriamento e sistema de processamento é capaz de detectar o tipo de inseto que passa por ela e se realmente são fêmeas. Para isso, são instalados dois coolers e caso o inseto não seja Aedes, um dos coolers o libera da armadilha. Caso contrário, o outro cooler projeta o mosquito para uma zona de captura.

Um dos pontos relevantes do projeto para futuras pesquisas em saúde, nomeadamente a dengue, zika ou outras doenças transmitidas por mosquitos, segundo Amorim, é obter informações mais exatas referentes à prevalência do Aedes Aegypti em determinadas áreas, com base na população de mosquitos e não nos focos de larvas, como atualmente é feito. “A maior parte das técnicas disponíveis para monitorar possíveis focos depende da ação direta de equipes de saúde, e geralmente da contagem de larvas. A disruptura que propomos é monitorar mosquitos adultos em pleno vôo, em ambientes onde hoje não temos essa possibilidade. Com isso, vamos proporcionar novos dados para contextualização de sua prevalência em determinado local, levando em consideração a variação de temperatura, a umidade do ar, e assim correlacionar dados”, detalha. O projeto também é capaz de detectar outros vetores, desde que voadores. Como cada inseto tem uma assinatura única (do ponto de vista de frequência de batimento de asa), a detecção pode ser alterada desde que seja feito o ajuste da frequência de interesse no sensor.

O professor Joel ressalta que o projeto é uma ferramenta eficaz para ajudar a enfrentar o problema das doenças transmitidas pelo Aedes Aegypti e vislumbra a possibilidade de expansão. “É um projeto facilmente transferível para todo o Brasil e para o mundo”, enfatiza. Entretanto, reconhece que ainda se encontra no plano acadêmico e científico, mas tem expectativa de que em breve se torne um produto comercial. “O projeto pode ser determinante no contexto das doenças transmitidas por insetos e quando os objetivos propostos forem alcançados trará resultados grandiosos no que diz respeito às doenças tropicais transmitidas por esses vetores. Nele, tecnologia e saúde andam juntas. Essa solução vai impactar as cidades e a vida das pessoas. Sua abrangência e alcance podem ter impacto mundial e será uma inovação brasileira para o mundo”, comemora.

Os pesquisadores revelam que dentro de três meses o protótipo deve estar finalizado e os testes de campo terão início, momento em que a armadilha será finalmente colocada em prática. “Já temos um legado de resultados dos expeerimentos laboratoriais tanto do ponto de vista do sensoriamento quanto do processamento de dados com ótimos resultados, então com o protótipo conseguiremos avaliar o real desempenho da solução em um cenário real”, conclui Amorim.

Internet das Coisas

Os números e as previsões para IoT são sempre grandiosos. Consultorias internacionais como a McKinsey prevêem que o impacto econômico gerado por esta tecnologia possa chegar a 11 trilhões de dólares até 2025. Grandes empresas mundiais de tecnologia estimam que saúde será o setor que deve gerar mais riqueza e onde o seu impacto será maior. Estimativas preconizam que no ano 2025, entre um terço e metade do volume de faturamento de IoT será na área da saúde. No Brasil, umas das áreas prioritárias do “Internet das Coisas: um plano de ação para o Brasil”, coordenado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), apresentado em outubro de 2017, é a área de Saúde. Ou seja, será um incentivo às empresas que desenvolvem soluções IoT com foco nesta área. As demais são os ambientes rurais (Agronegócio), Cidades Inteligentes e Indústria.

A tendência é que a Internet das Coisas esteja cada vez mais presente em nossas vidas e com resultados positivos. Um exemplo de sua utilização está no efeito combinado da mudança climática e do impacto da sociedade na terra que tem intensificado a exploração dos recursos naturais, o que ameaça a infraestrutura, os sistemas alimentares e a qualidade de vida.

Menos desperdício de comida; Limpeza do ar e da água; Agricultura mais eficiente; Conectar pacientes e médicos; Cidades mais inteligentes e humanas, são áreas nas quais a IoT já faz diferença e que foram recentemente listadas no Fórum Econômico Mundial: “6 ways the Internet of Things is improving our lives.