Acidentes com animais peçonhentos é pauta no MedTrop

Publicação: 2 de setembro de 2018

(English) Biólogos denunciaram, no Medtrop, falta de insumos, capacitação e atenção às questões da urgência da soroterapia

Nos últimos dez anos, os casos de acidentes com animais peçonhentos aumentaram quase cinco vezes mais no Brasil. Por isso, o tema está sendo debatido no Recife, no Congresso Medtrop, que acontece até amanhã no Centro de Convenções. O mais recente caso de morte por escorpião em Pernambuco, no último final de semana, mostra que a falta de conhecimento, tanto da sociedade quanto da área médica pode causar danos irreparáveis nas pessoas picadas.

Biólogos de quatro Estados do Brasil participaram da mesa-redonda, que abordou a epidemiologia e tratamento dos acidentes por animais peçonhentos no País. O consenso geral foi a escassez de infraestrutura, tecnologia, kit diagnóstico, soros específicos e educação continuada, o que reflete o crescimentos de casos, não só no Norte e Nordeste, mas em todo o País, pontuou Maria da Graça Salomão, bióloga do Instituto Butantã (SP). ͞

“Nos últimos três anos, houve uma queda de investimentos, mas mesmo assim temos quatro institutos produzindo soros no Brasil. O Butantã é o principal, sendo responsável por 80% da produção. Mas para se ter uma ideia, ainda há espécies de cobras que não possuem soros apropriados͟”, relata Maria da Graça.

Segundo ela, ainda é preciso que o poder público dê a devida atenção ao fato de que a pessoa que sofre a picada terá sequelas por toda a vida, pode perder membros, ter de se aposentar e sofre questões psicológicas irreversíveis pela sua situação. Nesse caso, o problema acaba se transferindo para a esfera da Previdência Social.

Dados – Outro participante do Medtrop que faz questão de alertar para a gravidade do aumento do número de casos de picadas de escorpião é o professor de medicina da Universidade de São Paulo (USP) e ex-diretor do Hospital Vital Brazil do Instituto Butantã, Francisco França. No mais recente levantamento de acidentes por animais peçonhentos no Brasil, o crescimento, num período de dez anos, é surpreendente: em 2007, mais de 37.370 mil casos com 71 óbitos em comparação com 124.732 mil de casos com 124 óbitos, em 2017.

O Ministério da Saúde controla toda a compra da produção dos institutos e distribui os soros aos Estados, relatou Cláudio Machado, biólogo e doutro em medicina tropical do Instituto Vital Brazil, mas ainda é pouco investimento neste sentido, não por falta de produção. Cláudio apresentou dados de que a subnotificação é muito grande, graças ao despreparo dos profissionais, tratamentos com soros indevidos e pelo fato das pessoas identificarem esses acidentes, como algo mais do interior distante delas, para ele este quadro está mudando. ͞

“Está havendo uma urbanização de casos ofídicos no Rio de Janeiro, com situação em prédios de bairros como Gávea e Leblon. As pessoas transportam pequenas cobras em plantas e não sabem. Falta educação continuada e campanhas de prevenção, por exemplo, se eu perguntar a uma criança como se prevenir da dengue ela sabe, mas não como identificar um escorpião͟”, disse Machado.

Escorpião – A questão da eficiência do tratamento com o soro escorpiônico está relacionado ao tempo de atendimento e a distância. Cerca de 83% dos pacientes picados por escorpião morrem nas primeiras 48 h, segundo o professor da USP Francisco. Como foi o caso da morte de Kaíque César da Silva, dois anos, picado por um escorpião na cidade de Itambé, na Mata Norte de Pernambuco, no último final de semana. O escorpião é o predador da barata, além dele ser partonogênico, se reproduz por ele mesmo.

De acordo com a Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES), o Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) registrou 674 casos de picadas de escorpião no primeiro semestre de 2018, somando 64 ocorrências a mais que o mesmo período do ano passado. Em 2017 foram realizados 18 mil atendimentos. Só entre janeiro e maio de 2018 foram realizados 5.859.

Distribuição – De acordo com Francisco Duarte Bezerra, médico-veterinário e sanitarista do Departamento de Zoonose, da Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES/PE), no Recife, o atendimento é feito no Hospital da Restauração, que dispõe de soro para atender toda a Região Metropolitana. O soro antiescorpiônico está disponível ainda no Hospital Jaboatão-Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes e no Hospital João Murilo, em Vitória de Santo Antão, além de outros 10 municípios no interior de Pernambuco.

“Mensalmente fazemos monitoramento por meio das fichas de avaliação e para distribuição da soroterapia para todas regionais, o transporte é feito junto com as vacinas do Programa Nacional de Imunização. Nossa preocupação maior de não faltar no Sertão, onde temos todos os tipos de soros, inclusive o antiescorpiônico, é por conta da distância de 700 km do Recife”, relatou Bezerra.…