Acidentes com escorpiões: aumento expressivo preocupa autoridades e população

Publicação: 11 de abril de 2019

Dados do Ministério da Saúde mostram que em 2018 foram registrados 141,4 mil casos de acidentes escorpiônicos no Brasil. Em 2017, um total de 125 mil e, em 2016, foram 91,7 mil casos

Estima-se que no mundo, 2,5 bilhões de pessoas estejam em áreas de risco para escorpiões e em 1,2 milhão os casos anuais de envenenamento, com 3.500 mortes, causadas essencialmente pela demora em buscar o atendimento médico

A incidência de acidentes de escorpiões, apesar de ainda ser recente, tem se intensificado principalmente nas duas últimas décadas. O tema tem chamado a atenção das autoridades e dos pesquisadores. Dados do Ministério da Saúde mostram que em 2018 foram 141,4 mil em todo o País. No ano de 2017, foram 125 mil e, em 2016, um total de 91,7 mil casos. O número representa um aumento de 16 mil ocorrências em relação a 2017, e um crescimento de quase 50 mil em relação a 2016. Tem-se observado que escorpiões estão se adaptando ao ambiente urbano com grande facilidade, fato que colabora para o crescimento populacional da espécie, dada sua biologia e comportamento, e aumenta o potencial de acidentes devido a maior proximidade desses animais com grandes populações humanas.

O biólogo Antonio Carlos Lofego, Professor Doutor do Departamento de Zoologia e Botânica da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em São José do Rio Preto, destaca que o aumento da incidência em áreas urbanas está diretamente relacionado à alta adaptação desses animais ao ambiente antrópico, onde o ambiente favorece a sua proliferação. Ele explica que esses locais oferecem as três condições mais importantes para a sua sobrevivência: abrigo, alimento e ausência de predadores – em ambientes modificados pelo homem existem poucos inimigos naturais, como predadores, que controlam as populações de escorpiões – então eles podem desenvolver suas atividades biológicas e se reproduzir sem controle. O pesquisador da Fundação de Medicina Tropical Doutor Heitor Vieira Dourado e membro da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), Dr. Wuelton Marcelo Monteiro, é categórico ao afirmar que não será possível controlar o problema sem políticas fortes de saneamento. Estima-se em 2,5 bilhões o número de pessoas em áreas de risco para escorpiões no mundo e em 1,2 milhão os casos anuais de envenenamento, com 3.500 mortes, causadas essencialmente pela demora em buscar o atendimento médico. “No Brasil, as picadas de escorpião são um problema de saúde pública emergente e negligenciado, com um número crescente de registros a cada ano”, lamenta o Dr. Monteiro.

Algumas hipóteses têm sido aventadas para explicar o aumento do escorpionismo, entre eles a questão do desmatamento, condições precárias de urbanização, e o aquecimento global, entretanto, parece não haver uma explicação viável. Segundo o professor Lofego, em outras regiões do mundo onde a incidência de acidentes com escorpiões é também importante, como México e norte da África, não tem sido observado esse aumento. Além disso, mesmo no Brasil esse aumento não é uniforme, existem consideráveis variações na progressão dos casos de acidentes de uma região para outra, por exemplo, a região no Noroeste paulista teve um aumento nos últimos dez anos de quase mil por cento, enquanto que a região vizinha (Norte Paulista), com condições climáticas muito semelhantes, teve um aumento bem menor, cem por cento, no mesmo período.

Embora os envenenamentos causados por Tityus serrulatus (escorpião amarelo), que ocorre especialmente no Sudeste, sejam geralmente considerados mais graves do que aqueles causados por outras espécies, o sistema de vigilância oficial mostra que a letalidade na Amazônia brasileira é significativamente maior em comparação com a região extra-amazônica. De 2000 a 2017, foram 122 mortes entre 57.360 casos registrados na Amazônia (0,2%); enquanto na Amazônia extra, foram 1.111 mortes entre 893.177 casos. Entretanto, isso pode ocorrer devido à dificuldade de locomoção nessa região, que pode levar a maior demora no atendimento.

A principal razão por traz do aumento da incidência de acidentes de escorpiões pode ser um fator local, relacionado à maneira particular de se lidar com o problema em cada região, com, por exemplo, as técnicas de controle empregadas. “É muito comum em algumas regiões o uso de produtos químicos, que comprovadamente não são eficazes, e ainda provocam a dispersão dos escorpiões. Além disso, o uso desses produtos pode ainda estar induzindo o processo reprodução, uma vez que muitas espécies em condição de risco de morte aceleram o processo de reprodução como estratégia para garantir as gerações futuras”, comenta o professor Lofego. Para ele, é possível que algo semelhante aconteça com os escorpiões quando se utiliza venenos, ainda mais por se tratar de uma espécie que se reproduz por partenogênese, ou seja, sem necessidade das fêmeas serem fecundadas por um macho, como é caso do escorpião amarelo, onde a indução da reprodução não depende de um parceiro. “Nesse caso a indução poderia ser provocada pelo stress proveniente do produto químico aplicado”, observa ao argumentar que esta é apenas uma hipótese e estudos precisam ser feitos ainda para se comprovar ou refutar essa hipótese. “Enquanto isso, é preciso evitar o uso desses produtos”, conclui.

Em relação ao alto índice de letalidade, o Dr. Monteiro sustenta que pode ser resultado de desafios encontrados em pequenos municípios remotos da Amazônia relacionados à experiência do pessoal de saúde, terapia antiveneno apropriada e qualidade do atendimento, sendo que este último depende da disponibilidade de infraestrutura das unidades de saúde, particularmente UTI pediátrica, já que as crianças formam o grupo mais vulnerável para gravidade. Ainda segundo ele, nesses municípios distantes dos centros de referência, o investimento na formação de profissionais de saúde no manejo inicial do paciente e o acompanhamento de possíveis complicações das picadas de escorpiões é essencial. O pesquisador reconhece que apesar da alta incidência do escorpionismo, falta treinamento sistemático dos profissionais quanto ao diagnóstico, terapia específica e manejo clínico das complicações. “Assim, o mau uso do soro é frequentemente visto, com sub ou superdosagem”, relata.

Para o Dr. Monteiro, os atuais programas de treinamento devem buscar vincular o conhecimento médico à biologia e vigilância das cobras e escorpiões. “No entanto, essa abordagem muitas vezes não reflete a necessidade de algoritmos de diagnóstico e gerenciamento médico coerente e oportuno. Assim, a adesão à formação médica e cursos nesta área tem sido um grande desafio. Além disso, há uma alta rotatividade de profissionais de saúde em pequenas cidades”, admite. Ainda de acordo com o pesquisador, embora as tecnologias de comunicação que facilitam grandemente a disseminação do conhecimento tenham aumentado, elas ainda são pouco aproveitadas. “O uso de meios eletrônicos para treinamento de profissionais (telessaúde) está aumentando e pode ser uma alternativa aos cursos presenciais no futuro”, assinala.

De acordo com o professor Lofego ainda há muito para se conhecer sobre as causas da evolução dos acidentes com escorpiões nos últimos anos, e sobre técnicas de controle da população desses animais. Segundo ele, é preciso sensibilização das autoridades para investimentos em pesquisa. “Apenas como o melhor conhecimento sobre essa questão vamos poder desenvolver estratégias para controlar e diminuir a ocorrência dos acidentes”, atenta.

Sistema de saúde pública e a ameaça de infestação de escorpiões

Na opinião do professor o sistema de saúde brasileiro esta funcionando bem diante da situação que temos no momento, principalmente no estado de São Paulo. Mas tendo em vista as projeções de que a incidência de acidentes continue aumentando nos próximos anos, ele diz que não é possível prever até quando o sistema suportará. Já o Dr. Monteiro lembra que o Brasil é uma referência mundial no estudo dos animais peçonhentos, mas ainda existem muitos gargalos na literatura.

Quanto aos soros atualmente fabricados no Brasil para neutralizar venenos de escorpiões, o Dr. Monteiro, que também é farmacêutico bioquímico, esclarece que são imunoglobulinas derivadas de plasma de cavalos e existem dois tipos disponíveis no Brasil: o soro antiescorpiônico e um soro polivalente contra aranhas e escorpiões. “Um plano para alcançar a autossuficiência na fabricação de soros foi estruturado nos últimos 40 anos no Brasil, no contexto de uma reforma no sistema de saúde. As plantas industriais dos laboratórios públicos nacionais foram modernizadas e um programa para reduzir a morbidade e a mortalidade por acidentes por animais peçonhentos foi criado, como parte do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica”, complementa.

A distribuição do soro é descentralizada para chegar a hospitais em quase três mil municípios e para fornecer tratamento gratuito. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) organizou o ambiente regulatório para implementar normas e supervisionar o cumprimento dos procedimentos de boas práticas de fabricação, elevando a qualidade dos soros produzidos, bem como reduzindo os custos na produção. Entretanto, o Dr. Monteiro lastima que apesar de todos os avanços no sistema de saúde, a disponibilidade e a acessibilidade do soro não são uniformes em relação às partes mais vulneráveis das populações, que habitam áreas remotas. Para ele, melhor logística e transporte de soros é uma questão a ser abordada e programas de saúde realistas e abrangentes para estes grupos vulneráveis devem ser efetivamente estruturados, a fim de reduzir as altas taxas de morbidade e mortalidade.

Diagnóstico de envenenamento escorpiônico pode ser impreciso

O principal efeito clínico das picadas de escorpião é a dor intensa. Além disso, outros sintomas locais observados no local são parestesia, edema, eritema, sudorese, piloereção e sensação de queimação. Como as lesões não possuem uma característica típica que as discrimine de lesões causadas por outros artrópodes, o diagnóstico de envenenamento escorpiônico pode ser muito impreciso, espacialmente aqueles que não apresentam sinais sistêmicos. Este fato contribui para uma demora no atendimento adequado e retarda a soroterapia.

Casos graves de envenenamento são caracterizados por neurotoxicidade sistêmica, com auterações do sistema autônomo. As toxinas circulantes podem estimular um excesso de estímulo adrenérgico (efeitos simpáticos), que inclui taquicardia, hipertensão, miocardite, agitação, convulsões e midríase ou um excesso de estimulação colinérgico (efeito parassimpático), que pode levar a bradicardia, vasodilatação, vômitos, diaforese, miose, broncoespasmo e outros; efeitos neuromusculares também são possíveis através de estimulação excitatória excessiva e podem levar a anormalidades oculomotoras, distúrbios visuais, espasmos musculares, paralisia e atividade neuromuscular descoordenada. A depressão miocárdica resultante pode levar ao choque, coma e falência de múltiplos órgãos; edema pulmonar e insuficiência respiratória são possíveis secundariamente a distúrbios cardíacos e atividade neuromuscular descoordenada, respectivamente.

Em caso de picada, é importante manter a calma e lavar o ferimento com água e sabão. Em seguida, ir imediatamente até um posto de atendimento médico. Também é recomendado, se possível, levar o animal ou uma foto para identificação da espécie. Crianças menores de menores de 10 anos e idosos são mais vulneráveis. Eles devem ser levados o mais rápido possível para um centro de referência. Não se pode aplicar compressa, gelo e nem fazer torniquete (técnica utilizada no controle de hemorragias) próximo ao local da picada, uma vez que isso irá potencializar a ação do veneno. O site do Ministério da Saúde oferece a lista completa por estado na seção “Lista de hospitais – acidentes com animais peçonhentos.