Medtrop-Parasito 2019: discussão das doenças tropicais negligenciadas reúne mais de 3 mil pessoas

Publicação: 9 de agosto de 2019

Eventos debateram avanços e soluções para doenças que afetam cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, especialmente as populações vulneráveis, com escassos recursos financeiros e acesso limitado aos serviços de saúde

Cerimônia de abertura foi marcada pelo anúncio de recursos para novos editais de apoio a pesquisas, como R$24 milhões em doenças negligenciadas, R$ 10 milhões para pesquisas exclusivamente dedicadas à malária, e R$ 16 milhões para estudos sobre tuberculose

Durante quatro dias, a capital mineira sediou o maior evento médico-científico de sua história: o Medtrop-Parasito 2019. Com mais 495 palestrantes nacionais e internacionais, o Congresso debateu problemas emergentes em saúde pública, em doenças tropicais de populações negligenciadas e doenças emergentes e reemergentes, permeado de compromisso científico e social para políticas públicas. Foram quase 100 horas dedicadas à discussão dessas doenças, que afetam cerca de 1 bilhão de pessoas no mundo, especialmente as populações vulneráveis, com escassos recursos financeiros e acesso limitado aos serviços de saúde. Durante o evento, os palestrantes abordaram resultados de estudos em andamento para o desenvolvimento de vacinas, medicamentos, novos tratamentos e novos testes de diagnóstico para doenças como leishmanioses, hanseníase, dengue, zika, chikungunya, Febre Amarela, doença de Chagas, helmintoses (ascaridíase, teníase e esquistossomose), tuberculose, sífilis, HIV, entre outras.

Com um número expressivo, mais de 3 mil participantes, entre pesquisadores, profissionais de saúde e estudantes de instituições brasileiras e internacionais das áreas de infectologia, epidemiologia, farmácia, biomedicina, biologia, laboratórios clínicos, vigilância epidemiológica, gestão e políticas de saúde, o Medtrop-Parasito 2019 cumpriu o seu objetivo: inclusão e convergência para fortalecer a pesquisa translacional, além da relação entre as instituições e os assuntos abordados. No total, em 13 eixos diferentes, foram realizadas 78 conferências, 65 mesas redondas e 26 miniconferências, número significativo de atividades científicas, que abriram perspectivas para a integração da ciência, educação e tecnologia. Além disso, foram realizados 12 cursos, 7 oficinas, mais o evento da Plos e o Fórum Social Brasileiro para Enfrentamento de Doenças Infecciosas e Negligenciadas. O Congresso contou ainda com 17 stands de instituições parceiras, como Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Ministério da Saúde, Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas, (DNDi sigla em inglês), Organização Pan Americana da Saúde (OPAS), entre outras.

Realizado entre os dias 28 e 31 de julho, no Campus da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a edição deste ano trouxe, pela primeira vez, a realização simultânea de três eventos: 55º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical; XXVI Congresso Brasileiro de Parasitologia; e 34ª Reunião de Pesquisa Aplicada em Doença de Chagas e 22ª Reunião de Pesquisa Aplicada em Leishmanioses, o CHAGASLEISH 2019. Os eventos foram dedicados ao compartilhamento de avanços e soluções para as principais doenças tropicais que afligem o Brasil e as Américas. “Reunir a comunidade científica para que apresentem seus resultados, novos projetos, bem como abrir espaços para discussões que possibilitem novas parcerias e novas colaborações para responder ao grandes desafios de saúde pública representados pelas doenças infecciosas e parasitárias, é o papel do MedTrop”, destaca o Dr. Sinval Pinto Brandão Filho, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

A cerimônia de abertura do maior congresso de Medicina Tropical e Parasitologia do País foi palco do anúncio de aporte financeiro no valor de R$ 50 milhões em pesquisas sobre doenças transmissíveis e negligenciadas feita pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, sendo R$ 24 milhões para estudos sobre doenças negligenciadas; R$ 10 milhões para pesquisas exclusivamente dedicadas à malária; e R$ 16 milhões para estudos sobre tuberculose. “Os recursos são destinados a pesquisadores das doenças que interessam ao Brasil, mas que foram historicamente negligenciadas, como malária, leishmaniose e doença de Chagas. São doenças ainda muito presentes e temos que achar soluções para elas”, afirmou o ministro. Ainda segundo ele, a intenção do governo é mudar o caminho da pesquisa feita no Brasil. Tradicionalmente, o pesquisador escolhe a sua área de interesse e solicita os recursos juntos aos institutos de fomento, desta vez, é o Ministério da Saúde quem está direcionando as pesquisas de interesse prioritário. “Queremos saber se os testes rápidos para doenças como leishmaniose, Aids e sífilis estão funcionando. Queremos saber se a vacina para malária, anunciada há algum tempo, a partir da cepa que não existe no Brasil, serve para acharmos uma vacina para os brasileiros. Queremos soluções práticas, queremos pesquisas vocacionadas para os produtos dos quais o País precisa, sobre as nossas doenças, nossa realidade”, acrescentou. As chamadas serão publicadas no site do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ainda neste ano. Os projetos terão duração de 36 meses e o apoio, para cada pesquisa, poderá variar entre R$ 500 mil e R$ 2 milhões.

Ainda durante a cerimônia de abertura, a SBMT e a SBP homenagearam os pesquisadores ilustres das respectivas sociedades. O Dr. Mitemayer Galvão dos Reis entregou a Medalha do Mérito Científico Carlos Chagas ao Professor Dr. Naftale Katz, um dos mais renomados pesquisadores da esquistossomose no Brasil, que atua há mais de 50 anos no estudo da doença tendo publicado mais de 270 trabalhos científicos. Entre as suas principais contribuições podem ser nomeadas, o método de diagnóstico parasitológico Kato-Katz para exame das fezes, utilizado em muitos países, os primeiros ensaios clínicos com oxamniquina e praziquantel, estudos epidemiológicos e de controle da esquistossomose em zonas endêmicas de Minas Gerais. O Dr. Natftale foi presidente da SBMT e da SBP, por duas vezes, e vice-presidente da World Federation for Parasitologists. Também foram homenageados os doutores Edward Felix Silva, Alejandro Luquetti. Paulo Marcos Zech Coelho e a Doutora Hiro Goto, pela Pesquisa Aplicada em Doença de Chagas e Leishmaniose. Os doutores Luiz Fernando Ferreira e Vicente Amato Neto, falecidos em 2018, foram lembrados In Memorian

Após as homenagens, o evento foi abrilhantado pelas premiações: Prêmio Jovem Pesquisador, dividido em três categorias (graduação, doutorado e mestrado), concedido aos estudantes Caue Benito Scarim; Luiza da Lima Silva Padrão; Luiz Antonio Perfeto Oliveira Silva; Aristeu Mascarenhas da Fonseca; Larissa Mendes Santos; Roberto de Sena Rodrigues Junior; Pedro Santos Muccillo Reis e Filipe Vieira Santos de Abreu; Prêmio Jornalista Tropical 2019, dividido em quatro categorias (Impresso, Online, Rádio e TV), concedido aos jornalistas Luiz Henrique da Silva Gomes, Valéria Dias da Silva, Éricka Flavia Marques de Araújo e Ana Graziela Aguiar; Prêmio NHR de Jornalismo, dividido em cinco categorias (Jornais e Revistas, Online, Rádio, TV e categoria especial Estigma), concedido aos jornalistas Christian Jhon Gomes Sousa, Wendell Rodrigues, Rita Brito, Jane Fernandes e Ludimila Honorato e Prêmio Young Investigators Awards, concedido ao Dr. Rafael Freitas de Oliveira França pelo Institut Merieux.

Ainda na cerimônia de abertura, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou um panorama do novo roteiro 2021-2030 de controle, eliminação ou erradicação de 20 doenças tropicais negligenciadas. O Dr. Pedro Albajar Viñas, oficial técnico de Doenças Negligenciadas Tropicais da OMS, lembrou aos participantes que a Organização estava recebendo contribuições para o roteiro, que será posteriormente finalizado e submetido à aprovação pelos países. O objetivo é que o documento reflita os pontos de vista de todas as partes interessadas que contribuem para a luta contra as doenças tropicais negligenciadas. “Todos juntos tentando propor objetivos, metas, indicadores que possam ser monitorados, pensando nos determinantes sociais; pensando não somente em igualdade, mas em equidade; pensando em todas as oportunidades de integração”, ressaltou o Dr. Albajar. Ele também lembrou a aprovação do Dia Mundial das Pessoas Acometidas pela doença de Chagas, que será comemorado anualmente em 14 de abril, data que em 1909, a primeira paciente, uma menina brasileira chamada Berenice Soares de Moura, foi diagnosticada com a doença por Carlos Ribeiro Justiniano Chagas. O Dia Mundial é um símbolo importante para tornar visível a luta das pessoas acometidas em todo o mundo e um incentivo para o controle da doença, além de uma oportunidade de chamar mais atenção para essa e outras doenças negligenciadas, bem como dos recursos necessários para controlá-las, eliminá-las ou erradicá-las.

Durante o Congresso também foi apresentado, pela primeira vez, os resultados do estudo termoterapia e Miltefosina. O Diretor do programa de leishmaniose cutânea da Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, sigla em inglês) explicou que os estudos começaram há três anos e o tratamento dá mais segurança aos pacientes com taxas mais elevadas de cura. Os resultados mostraram que a combinação apresenta uma taxa de aproximadamente 80% de cura, sendo mais eficaz do que a aplicação de calor e de injeções de antimoniato de meglumina feitos em separado. Na fase 3, os centros brasileiros vão atuar em conjunto com laboratórios da Bolívia, do Peru e do Panamá. Essa etapa complementa o estudo que reúne pesquisadores do Peru e da Colômbia. O projeto foi desenvolvido com 130 pacientes para tratar a leishmaniose cutânea.

Também foi apresentada durante o evento, a Carta de Belo Horizonte, elaborada durante a quarta edição do Fórum Social Brasileiro para Enfrentamento de Doenças Infecciosas e Negligenciadas, expressando as reivindicações debatidas e acordadas entre os participantes. Por meio deste documento, o Fórum apresenta sua agenda político-estratégica e seu compromisso democrático com a transformação das condições que impedem o pleno exercício do direito à saúde no País. O Fórum foi realizado no dia 28 de julho, reunindo estudantes, pesquisadores, lideranças, movimentos sociais e instituições interessadas no debate sobre o acesso à saúde e o desenvolvimento inclusivo. Os momentos de discussão foram liderados pelas organizações parceiras e pelas pessoas acometidas pela hanseníase, doença de Chagas, hepatites virais, esquistossomose, leishmaniose e filariose. Fortalecer uma agenda integrada e ampliar as vozes de quem sofre com as doenças tropicais negligenciadas no Brasil foram alguns dos caminhos reafirmados na quarta edição do Fórum. Confira a íntegra no link: https://www.nhrbrasil.org.br/atividades/noticias/161-carta-de-belo-horizonte-traz-demandas-do-forum-social.html

Com o tema “Convergência e inclusão: em busca de soluções sustentáveis para o diagnóstico, tratamento e controle das doenças tropicais”, a experiência do congresso conjunto Medtrop-Parasito 2019 se consagrou como um grande espaço para a discussão de doenças negligenciadas. Das montanhas de Minas Gerais, o 56º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MedTrop) desembarca, em 2020, em plena Amazônia, em Belém do Pará, conhecida por suas belezas históricas e naturais, sua gastronomia e riqueza cultural, bem como por ser sede do Instituto Evandro Chagas (IEC), renomado centro de pesquisas em doenças tropicais, esperando por você entre os dias 5 e 9 de setembro de 2020. Até lá!