Zika vírus chegou ao Brasil possivelmente através da América Central, aponta estudo da Fiocruz PE

Publicação: 12 de setembro de 2018

Ao contrário do que se pensava, o vírus Zika não entrou no País durante a Copa do Mundo de 2014, tampouco durante o Campeonato Mundial de Canoagem, realizado em agosto de 2014 no Rio de Janeiro

Resultados podem embasar gestores de saúde quanto ao monitoramento e detecção precoce de possíveis arbovírus importados da América Central e do Caribe para o Brasil, sobretudo em portos, aeroportos e em regiões de fronteira

Um estudo publicado recentemente no International Journal of Genomics intitulado “Revisiting Key Entry Routes of Human Epidemic Arboviruses into the Mainland Americas through Large-Scale Phylogenomics preencheu uma lacuna na literatura sobre o Zika vírus ao traçar a rota da chegada ao Brasil. De acordo com o pesquisador Lindomar Pena, um dos autores da pesquisa, a importância principal do estudo é que ele identifica a América Central e o Caribe como rotas importantes para a entrada de Zika e outros arbovírus, como dengue e chikungunya, no Brasil. “Essa informação é importante para embasar os gestores de saúde quanto ao monitoramento e detecção precoce de possíveis arbovírus importados dessa região para o Brasil, sobretudo em portos, aeroportos e em regiões de fronteira com outros países”, destaca. O Dr. Gabriel Wallau, que também participou da pesquisa, acrescenta que essas regiões, junto com portos e aeroportos, deveriam ser priorizadas para monitoramento viral tanto em pessoas quanto em vetores que podem ser carregados através de diferentes meios de transporte. “Uma vigilância epidemiológica bem montada poderia detectar rapidamente a passagem de um novo patógeno e então permitiria a tomada de decisão sobre as medidas de controle e contenção para evitar que o novo patógeno se espalhe”, afirma.

Rota de entrada dos vírus

O Dr. Pena explica que, ao contrário do que se pensava, o vírus Zika não entrou no Brasil durante a Copa do Mundo de 2014, tampouco durante o Campeonato Mundial de Canoagem, realizado em agosto de 2014 no Rio de Janeiro. Ainda segundo o Dr. Pena, os resultados indicam que o vírus chegou ao País no final de 2013, vindo da América Central e do Caribe. Assim, o Zika vírus seguiu a mesma rota do genótipo asiático dos vírus chikungunya e dengue: da Ásia para a Oceania, emergindo na América Central e Ilhas do Caribe, e finalmente chegando à América do Sul. “Não sabemos como ele foi importado para o Brasil e talvez jamais iremos saber, pois nunca foi identificado o primeiro paciente que veio infectado para o Brasil antes do início da epidemia. Entretanto, como existe um fluxo de imigrantes ilegais vindos do Haiti e militares brasileiros viajaram em missão de paz para lá até 2017, essa é uma possível maneira pela qual o vírus Zika pode ter chegado ao Brasil”, acrescenta o pesquisador ao observar que outras possibilidades não podem ser descartadas.

O Dr. Wallau reforça a importância de esclarecer que o caminho percorrido pelos vírus zika, dengue e chikungunya teria sido o mesmo, pelos menos para os quatro sorotipos de Dengue, o genótico Asiático de Chikungunya e o genótipo Asiático do vírus Zika, uma vez que existe outra linhagem do vírus Chikungunya que circula no Brasil vindo da África. Ainda segundo ele, outro ponto importante a salientar é que esse caminho foi percorrido em diferentes períodos pelos diferentes sorotipos de Dengue e também para os outros arbovírus. “A relação existente mostra que o fluxo de pessoas entre a América Central e do Sul é intenso possibilitando a rápida disseminação desses vírus entre essas regiões”, observa.

A pesquisa e os próximos passos

O Dr. Pena conta que a ideia da pesquisa surgiu a partir da detecção e sequenciamento pela primeira vez do Zika vírus no estado de Pernambuco em 2016. “Ao sequenciar o vírus circulante em PE, detectamos que se tratava da cepa Asiática e não da Africana. Um pergunta muito importante a ser respondida era a origem do vírus e qual foi a sua rota até o Brasil. Para responder a essa questão, analisamos todas as sequências genômicas do vírus Zika isolados a partir de humanos disponíveis no GenBank, um banco genético mundial, usando ferramentas computacionais de última geração”, completa. Ele detalha que agora é preciso monitorar a evolução do vírus no período interepidêmico para detectar as mutações que ele vem sofrendo durante sua evolução natural e entender o significado dessas mudanças no que se refere à virulência, transmissibilidade, resistência a antivirais e capacidade de escapar do sistema imune. “Entretanto, esses estudos estão severamente ameaçados pelos cortes brutais que o governo vem fazendo no orçamento para pesquisa no Brasil”, lamenta.

Além do Dr. Lindomar Pena e do Dr. Gabriel Wallau, o estudo contou com a participação dos pesquisadores Túlio Campos e Antonio Rezende, da Fiocruz Pernambuco, e de um colaborador da Universidade de Glasgow, Alain Kohl.

Brasil pode voltar a sofrer com epidemias de Zika e Chikungunya

De acordo com o Dr. Pena é possível que tenhamos novas epidemias de Zika, Chikungunya, dengue ou até mesmo outro arbovírus. Segundo ele, a precariedade do saneamento básico no Brasil favorece a gênese e disseminação das arboviroses, doenças contra as quais não temos antivirais nem vacinas disponíveis (exceção de dengue que tem uma vacina aprovada pela Anvisa, mas que ainda não é amplamente utilizada). Para prevenir essas doenças ele é categórico ao afirmar que a melhor estratégia é o investimento em infraestruturas de saneamento básico, que inclui o abastecimento de água potável, o manejo de água pluvial, a coleta e tratamento de esgoto, a limpeza urbana, o manejo de resíduos sólidos e o controle de vetores dessas doenças, como os mosquitos do gênero Aedes e Culex. “As arboviroses são doenças cuja incidência é muito influenciada pelas condições socioambientais. Para controlá-las, é necessário investir em educação em saúde, infraestrutura de saneamento básico e também em políticas de urbanização das cidades de forma sustentável. Infelizmente essas ações não geram votos, gerando pouco interesse dos políticos em implementá-las”, conclui.

O Dr. Wallau admite a probabilidade de que o vírus Zika volte a causar surtos menores à medida que ele mutar ou alcançar populações ainda não infectadas. Essa análise é baseada na experiência com o vírus da Dengue, que se estabeleceu no Brasil há muitos anos, mas que ainda causa surtos anuais em diferentes regiões. “Os dados apontam que é pouco provável termos outra epidemia de escala mundial como foi a de 2015/2016, mas também mostram que o vírus continua circulando e surtos menores devem acontecer com o passar do tempo. Novas pesquisas são necessárias para monitorar a evolução desse vírus e detectar onde podem ocorrer esses novos surtos”, argumenta.

Apesar dos dados atuais demonstrarem que o número de casos de pessoas infectadas por Zika no Brasil diminuiu drasticamente, o que é algo esperado já que a maioria da população já foi infectada e desenvolveu anticorpos contra o vírus, ainda são detectados pacientes infectados com o vírus, o que mostra que o Zika ainda está e provavelmente continuará circulando no País.