Zika e microcefalia: uma relação que exige ações e cautelas

Publicação: 7 de janeiro de 2016

Mosquito vem adquirindo capacidade de se reproduzir em volumes de água cada vez menores, que não necessita mais ser limpa. Criou resistência a alguns inseticidas e mudou hábitos alimentares passando a atacar também à noite

Aedes aegypti, mosquito cosmopolita, vetor de arboviroses como febre amarela, dengue, zika e chikungunya

Aedes aegypti, mosquito cosmopolita, vetor de arboviroses como febre amarela, dengue, zika e chikungunya

Após o Ministério da Saúde declarar confirmada a relação entre a epidemia de microcefalia identificada no Nordeste e a infecção pelo Zika, todos os entes federativos – União, estados e municípios – se mobilizam na luta contra o mosquito transmissor do vírus, Aedes aegypti. Até mesmo o Exército tem sido mobilizado na luta contra o inseto, em Pernambuco. O momento é de cautela, especialmente com o principal foco de atenção atual: as grávidas e as que desejam engravidar.

Como revelado por uma pesquisa feita pelo Laboratório de Flavivírus do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz), o Zika vírus consegue atravessar a barreira placentária e chegar até o líquido amniótico, fluido que envolve o feto durante a gravidez. A confirmação oficial dessa relação, apresentada no final de novembro pelo Ministério da Saúde, veio após a identificação do Instituto Evandro Chagas, no Pará, da presença do vírus em exames feitos em uma criança do Ceará que nasceu com microcefalia e outras doenças congênitas.

Apesar da preocupação que o tema levanta, a doutora Dorcas Lamounier Costa afirma que muito pouco ou nada poderá ser feito para mudar o curso de fetos afetados pelo vírus Zika. Isso porque o vírus é neurotrópico, ou seja, apresenta uma atração para se multiplicar no sistema nervoso do hospedeiro e pode acarretar a microcefalia no bebê ainda no ambiente placentário. Outros vírus também podem causar a doença, caracterizada pela cabeça e o cérebro serem menores que o normal, como o enterovírus, o poliovírus e a rubéola.

“Crianças nascidas com a síndrome da rubéola congênita eliminam o vírus durante meses, num mecanismo conhecido como tolerância imunológica onde o organismo não é capaz de eliminar o antígeno agressor”, explica a médica, que é doutora em Infectologia e Medicina Tropical pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

 

Informações às mulheres

Para a doutora Dorcas, a decisão de uma mulher engravidar é “intocável”, mas ela deve ser informada das precauções e incertezas que esta epidemia tem gerado. “Recomenda-se cautela para aquelas que planejam engravidar e imensa precaução no sentido de se protegerem do contato com mosquitos para aquelas que estão grávidas”, explica.

Ela destaca ainda a necessidade de esclarecimentos quanto às medidas recomendadas para reduzir a chance de contágio, como o uso de repelentes indicados para o período da gestação. “Ela [a mulher grávida ou que deseja engravidar] deve saber como eliminar os potenciais criadouros do mosquito de sua residência e de seu local de trabalho, mas também deve ser informada que o Aedes, embora com pequena autonomia de voo, pode migrar algumas centenas de metros durante seu ciclo de vida”, alerta.

O Ministério da Saúde aconselha ainda que as gestantes façam todos os exames previstos no pré-natal, além de relatarem aos profissionais de saúde qualquer alteração que perceberem durante a gestação. Além disso, é indicado, no período de gestação, o uso de roupas de manga comprida. O órgão também tem feito recomendações aos profissionais de saúde que estejam atentos à avaliação cuidadosa do perímetro cerebral e à idade gestacional, assim como à notificação de casos suspeitos de microcefalia no registro de nascimento no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC).

 

Pesquisas e casos no País

As investigações sobre o tema continuam, especialmente pelos laboratórios da Fiocruz, para esclarecer questões como a transmissão desse agente, a sua atuação no organismo humano, a infecção do feto e período de maior vulnerabilidade para a gestante.

Pesquisadores da Fiocruz de Pernambuco desenvolveram três frentes para estudar a relação do vírus com a microcefalia. A primeira investigará bebês recém-nascidos com a má-formação comparando-os com crianças nascidas no mesmo período sem microcefalia, um estudo de caso-controle, sendo inquiridos fatos ocorridos durantes a gestação com ênfase na infecção da gestante por Zika para confirmação da associação causal. O órgão ainda tenta desenvolver vacinas e meios de diagnóstico mais rápido para identificar o vírus – atualmente, os testes devem ser feitos em laboratório por meio da técnica de PCR (reação em cadeia da polimerase, na sigla em inglês).

Outra pesquisa será feita com mulheres grávidas que tiveram sintomas de doenças virais, como manchas vermelhas na pele, serão acompanhadas até o parto. O objetivo, segundo os pesquisadores, é observar a taxa de microcefalia entre as que tiveram o Zika vírus e as que não tiveram. Se for permitido, o líquido amniótico será colhido e analisado.

As crianças com diagnóstico de microcefalia serão acompanhadas minuciosamente por pelo menos dois anos para avaliar o comprometimento no desenvolvimento e definição de estratégias de manejo. Outra pesquisa, chamada de estudo de coorte, será feita com mulheres grávidas que tiveram sintomas de doenças virais, como manchas vermelhas na pele, serão acompanhadas até o parto. O objetivo, segundo os pesquisadores, é observar a taxa de microcefalia entre as que tiveram o Zika vírus e as que não tiveram. Se for permitido, o líquido amniótico será colhido e analisado.

Atualmente, cerca de 200 municípios brasileiros estão em situação de risco de surto de dengue, chikungunya e zika, segundo o Ministério da Saúde. Já foram confirmados casos do zika em 18 estados.

Em relação à microcefalia, Pernambuco lidera em número de recém-nascidos com a doença no País, com 646 dos 1.248 casos suspeitos da enfermidade, identificados em 311 municípios de 14 estados.

 

O desafio do (quase) desconhecido Zika

As poucas informações sobre o vírus Zika estão entre as principais dificuldades dos cientistas, atualmente, nas pesquisas sobre o tema. Isso porque haviam poucos casos registrados da doença antes de epidemias recentes.

O vírus foi isolado pela primeira vez em 1947 de um macaco-reso na floresta de Zika, em Uganda, na África, e, em humanos em 1968, pela primeira vez na Nigéria.

O Zika é considerado endêmico no Leste e Oeste do continente Africano. Evidências sorológicas em humanos sugerem que a partir do ano de 1966 o vírus tenha se disseminado para o continente asiático. Fora desses dois continentes, o primeiro caso registrado foi em uma ilha da Micronésia, no Oceano Pacífico, em 2007. Um surto recente ocorreu em 2013, na Polinésia Francesa, onde mais de 10 mil casos foram diagnosticados.

De acordo com o doutor Pedro Fernando da Costa Vasconcelos, do Instituto Evandro Chagas, não existem dados cientificamente obtidos para definir os mecanismos fisiopatológicos envolvidos na patogenia do vírus no organismo humano. “São necessários estudos experimentais em camundongos e, se possível, em primatas não humanos para termos esses dados”, explica.

Não se sabe também, ao certo, o período de maior vulnerabilidade para a gestante em relação ao vírus. Inicialmente, acredita-se que o risco está associado aos primeiros três meses de gravidez. Além disso, ainda não se sabe como exatamente ocorre a atuação do Zika no organismo humano, além da infecção do feto.

 

O surto de microcefalia e a doença

A conversa entre mãe e filha, ambas neuropediatras, foi o início da descoberta do surto de casos de microcefalia, em Pernambuco. Ana Van der Linden, que trabalha no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, contou à filha Vanessa, do Hospital Barão de Lucena, ter atendido sete casos da doença em um só dia. No mesmo dia, Vanessa relatou ter recebido cinco casos.

Após conversas com outros especialistas, em poucos dias, 40 casos já haviam sido identificados. O início da investigação foi feito pelo doutor Carlos Brito, colaborador da Fiocruz-PE, reunindo os dados dos bebês e das mães.

A microcefalia, de acordo com um estudo realizado na Alemanha, com 680 crianças, mostrou que 65% delas apresentavam retardo no desenvolvimento neuropsicomotor ou retardo cognitivo. Entre as crianças que estavam estudando (escola ou pré-escola), 28% estudavam em escolas regulares e 72% recebiam algum suporte educacional especial.

“Problemas visuais, auditivos e menor percepção da dor também tem sido reportado em portadores de microcefalia. Vale ressaltar que as causas de microcefalia são várias e incluem fatores que causam danos diretos no sistema nervoso, como infecções e baixo aporte de oxigênio para o feto, uso de álcool e drogas pela mãe durante a gestação e desnutrição materna, além de problemas de ordem genética, como consanguinidade”, explica o doutor Guilherme de Sousa Ribeiro, da Fiocruz-BA.

Mesmo não havendo tratamento específico para a doença, ações realizadas desde os primeiros anos melhoram o desenvolvimento e a qualidade de vida dos afetados, que pode ser diagnosticada pelo médico durante o pré-natal. A análise mais tradicional é feita após o nascimento do bebê, com o primeiro exame físico de rotina nos berçários sendo feito até 24h após o nascimento – período principal para se realizar busca ativa de possíveis anomalias congênitas.

 

O mosquito e medidas de controle

O A. aegypti, que além do zika transmite dengue e chikungunya, é originário do Egito e vem se espalhando pelas regiões tropicais e subtropicais do planeta desde o século 16, período das Grandes Navegações. A tese é que o vetor foi introduzido nas Américas no período colonial por meio de navios que traficavam escravos.

No Brasil, os primeiros relatos de doença transmitida Poe este vetor – dengue e febre amarela – datam do final do século XIX. O mosquito transmissor chegou até mesmo a ser erradicado do País em 1955, mas o relaxamento nas medidas de controle levou à sua reintrodução em todo o território nacional no final de década de 1960. Agora, os surtos da doença são recorrentes em todos os estados. Apenas entre janeiro e novembro deste ano, mais de 1,5 milhão de notificações foram registradas.

Como a situação do mosquito agora piora o patamar da saúde pública brasileira com as recentes descobertas, o governo federal anunciou recentemente que o combate ao Aedes será o principal foco de atuação da pasta entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016.

Segundo o ministro da Saúde, Marcelo Castro, o objetivo é evitar no próximo verão, especialmente em fevereiro, quando mais chove, o aumento exponencial do número de vetores. Ainda de acordo com ele, o governo federal – a partir do trabalho conjunto de sete ministérios e em parceria com estados e municípios – fará investimentos para combater o mosquito e oferecer o tratamento de saúde a pessoas infectadas e aos bebês que tenham desenvolvido a microcefalia.

“O governo federal disponibilizou o Exército e a Defesa Civil para que o estado de Pernambuco e os municípios eliminem os locais de proliferação do Aedes aegypti. O que vamos fazer, em primeiro lugar, é destruir os criadouros”, disse o ministro.

Apesar da disposição do governo em agir com mais intensidade contra o mosquito, um recente estudo, publicado na revista PLoS One por um grupo de pesquisadores do Instituto Butantan, mostra que o Aedes evoluiu. A espécie vem adquirindo a capacidade de se reproduzir em volumes cada vez menores de água, que nem sequer precisa mais ser limpa, como no passado. Além disso, o inseto adquiriu resistência a alguns inseticidas e mudaram até os hábitos alimentares: se antes só picavam durante o dia, passaram a atacar também à noite. De acordo com os pesquisadores, basta apenas uma luz artificial para revelar o caminho até a vítima.