Viroses emergentes: ebola é um dos menores problemas que Brasil pode enfrentar

Publicação: 13 de dezembro de 2014

Oropouche, mayaro, Oeste do Nilo e chikungunya são ameaças mais próximas e urgentes para sistema de saúde pública brasileira

Dr. Tadeu 2

Oropouche vem se alastrando e já registra casos no Maranhão e em Minas Gerais. Já o mayaro vem se espalhando também por localidades como São Paulo e Rio Grande do Sul

O Brasil está próximo de enfrentar epidemias de viroses já instaladas no País e outras vindas de fora. Mas quem pensa que o maior perigo emergente é o ebola está enganado. É o que adianta o professor do departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, Luiz Tadeu Figueiredo . Segundo ele, o vírus que vem afetando milhares de pessoas na África Ocidental é um dos menores problemas para o sistema de saúde pública nacional.

“Ebola não é como o influenza, que a pessoa respira, tosse e pode infectar as outras. É preciso um contato mais direto com as secreções. Então dificilmente ele se disseminaria a partir de um caso importado”, explica o médico, que dá aulas sobre doenças infecciosas e tropicais. Para ele, as principais preocupações devem ser com vírus locais, como o oropouche e o mayaro.

Uma das grandes ameaças já existentes no Brasil, segundo o Dr. Tadeu, é a febre do oropouche, que é geralmente benigna e dura de três a cinco dias. Depois da dengue, este é o segundo vírus que registra o maior número de infectados no País. Desde o primeiro surto urbano, na década de 1960, já houve registros de mais 100 mil casos nas regiões Amazônica e Centro-Oeste.

Novas epidemias da doença vêm sendo registradas atualmente e, como o transmissor é um mosquito comum no País, conhecido como maruim (Culicoides paraenses), o oropouche vem se alastrando por outras áreas, com casos relatados no Maranhão e em Minas Gerais. “Ele pode emergir nas regiões Nordeste e Sudeste, onde existe esse mosquito”, alerta.

Outro vírus emergente é o mayaro, transmitido pelo mesmo mosquito que carrega a febre amarela silvestre, o Haemagogus. Causa febre e fortes dores nas juntas, se assemelhando aos efeitos causados pelo chikungunya. “Na Amazônia, a doença já é um problema de saúde pública. Em algumas regiões, por exemplo, na beira do Rio Negro, cerca de 40% das pessoas já foram infectadas por esse vírus”, explica o médico. Ainda de acordo com ele, assim como a febre amarela, o vírus vem se espalhando também por localidades mais ao sul do País, como São Paulo e Rio Grande do Sul.

Além das ameaças internas, os brasileiros também devem ouvir falar muito nos próximos meses de vírus que, aos poucos, estão entrando no território nacional. É o caso do Oeste do Nilo, que chegou à América do Norte em 1999 e se espalhou pelos Estados Unidos. Em três anos, foram registrados milhares de casos naquele país, causando um problema sério de saúde pública devido ao vírus ter sido transmitido até mesmo por transfusão de sangue. E o problema já vem sendo registrado também na América do Sul, apesar de se tratarem de casos isolados.

“A doença é uma zoonose de aves migratórias que fazem viagens longas, como a andorinha, e que vem para o sul quando é inverno na América do Norte. O vírus já chegou à Argentina e ao Brasil, mas com registros isolados em cavalos”, lembra Dr. Tadeu ao acrescentar que o do Oeste do Nilo já está aqui e, a qualquer momento, podemos vir a ter epidemias.

Provável problema sério de saúde nos próximos anos

Apesar do risco eminente desses vírus, o grande “vilão” deve ser o chikungunya. “Essa é uma ameaça real e muito grave. Provavelmente o vírus vai se tornar problema sério de saúde nos próximos anos no País”, afirma o médico. Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 44% de 1453 municípios estão em situação de alerta ou risco para dengue e febre chikungunya. Em 117 dessas localidades, foram encontrados focos do mosquito Aedes aegypti – que transmite ambas as doenças – em quatro de cada 100 casas visitadas em outubro.

A doença, que causa febres e até mesmo inflamações nas juntas do corpo, gerou grandes números de casos na Ásia e na Europa. Recentemente, o vírus foi identificado em ilhas do Caribe e na Guiana Francesa – país este que faz fronteira com o estado do Amapá. “Esse vírus está chegando a uma região altamente infestada pelo vetor. Além disso, nossa população é altamente suscetível aos alfavírus [transmitidos por mosquitos]. Então, são altas as chances de termos epidemias enormes no Brasil nesse verão ou até no próximo”, alertou o especialista.…