Uma em cada nove pessoas no planeta passou fome em 2017, aponta relatório

Publicação: 9 de novembro de 2018

Se a fome persistir, a pobreza não será erradicada, os recursos naturais continuarão a se degradar e a migração forçada continuará

Em se tratando de fome, as pessoas mais afetadas são as que vivem em áreas de conflito, como o Iêmen

De acordo com o Índice Global da Fome de 2018 (GHI), o mundo fez progressos graduais e a longo prazo na redução da fome em geral, mas esse progresso tem sido desigual. Áreas de fome severa e subnutrição persistem refletindo a miséria humana para milhões. Os dados do último relatório  da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) revelam que a fome atingiu 821 milhões de pessoas em todo o mundo em 2017. A situação tem um efeito devastador na saúde de crianças: 45% da mortalidade infantil está relacionada à desnutrição. Segundo o documento, cerca de 150 milhões de crianças com menos de cinco anos (22%) eram raquíticas.

Em se tratando de fome, as pessoas mais afetadas são as que vivem em áreas de conflito, como o Iêmen. O país, que já enfrenta a mais grave crise humanitária da atualidade, em meio a um conflito armado, está prestes a enfrentar a maior fome dos últimos 100 anos em todo o mundo, segundo informou a coordenadora humanitária da ONU no Iêmen, Lise Grande. Ainda segundo ela, a situação no país é tão grave que 18 milhões de pessoas já não sabem de onde vem sua próxima refeição e 8 milhões delas são consideradas à beira da fome. Segundo dados da ONU, pelo menos 50% das crianças iemenitas são raquíticas e o número de crianças que sofrem de desnutrição aguda grave aumentou 90% nos últimos três anos.

Alimentos desperdiçados por nações ricas poderiam acabar com a fome do mundo

As nações ricas desperdiçam US$ 750 milhões de dólares em alimentos todos os anos. O valor representa o dobro do necessário para acabar com a fome. A informação faz parte do relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018”, publicado em setembro. Segundo o documento, cerca de um terço da produção global de alimentos é perdida, o que equivale a 1 bilhão e 300 milhões de toneladas, avaliadas em 1 trilhão de dólares. Das frutas, vegetais, raízes e tubérculos, quase metade do que é produzido se perde. A cada ano, consumidores em países ricos desperdiçam 222 milhões de toneladas de alimentos, quantidade equivalente a toda a produção da África Subsaariana, que é de 230 milhões de toneladas.

Conferência pede compromisso global com o fim da fome

Durante a 45ª Comissão de Segurança Alimentar Mundial (CFS, na sigla em inglês), realizada em Roma (Itália), em outubro, o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva, disse que o fracasso na erradicação da fome prejudicará todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Segundo ele, isso significa que a pobreza não será erradicada, os recursos naturais continuarão a se degradar e a migração forçada continuará. Já o diretor-executivo do Programa Mundial de Alimentos (PMA), David Beasley, enfatizou que é preciso levar mais a sério a intenção de colocar fim aos conflitos.

No Dia Mundial da Alimentação, celebrado, em mais de 150 países, no dia 16 de outubro, o secretário-geral da ONU, António Guterres, em mensagem de vídeo, considerou intolerável a morte de metade dos bebês do mundo devido à fome, e apelou que todos façam sua parte para sistemas alimentares sustentáveis.

Mudança climática pode levar milhões de africanos à fome

 Com o aumento da população mundial para 9,5 bilhões até 2050, o desafio de alimentar a todos será maior. Além disso, a mudança climática e o risco de secas, inundações e chuvas irregulares que vêm com ela, representam uma ameaça crescente à capacidade de cultivar alimentos suficientes para todos.

Os países mais pobres provavelmente serão os mais afetados. Na África, onde o crescimento populacional é maior e as temperaturas devem subir mais rapidamente do que em qualquer outro continente, o problema é mais grave, uma vez que os pequenos produtores não serão capazes de acompanhar a crescente demanda e os desafios da mudança climática.

Em meados de outubro, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) divulgou em Nairóbi, Quênia, um relatório detalhando o progresso e os caminhos para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius. Para os cientistas que participaram da elaboração do último relatório sobre mudanças climáticas, a alta de 1,5ºC na temperatura vai aumentar as desigualdades e afetar os mais pobres. O aumento das temperaturas forçará milhões de pessoas na África à pobreza e à fome, a menos que os governos tomem medidas rápidas. Em 5 de julho, a África provavelmente registrou sua mais alta temperatura, 51,3 ° C, em Ouargla, no norte da Argélia.

Há evidências crescentes de que as temperaturas mais altas ligadas às mudanças climáticas agravaram as secas e os desastres humanitários na África Oriental, incluindo a seca do ano passado, que deixou 13 milhões de pessoas em condição de fome extrema.

Embora não seja exclusivamente tropical, como é o Iêmen, a fome incide mais nos Trópicos, onde concentra-se a pobreza do mundo. Assim, a fome é um agravo tropical e está no escopo das áreas de interesse da Medicina Tropical. A Sociedade Brasileira de Medicina Tropical é solidária ao dia 16 de outubro, o Dia Mundial da Alimentação, ao problema da global da fome e, em particular aos povos que passam fome. Por isto, inclui o tema na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, nos seus congressos anuais e em todas as suas demais mídias eletrônicas.