Surto de febre amarela com transmissão silvestre é aviso de possível reurbanização?

Publicação: 10 de abril de 2017

A incidência da doença em 2017 está muito maior do que em anos anteriores. O número de mortos só em janeiro de 2017 se igualou ao total de 2016. Em 2015, foram nove mortes

febre-amarela

Este surto de febre amarela deve ser levado a sério pelas autoridades de saúde pública e população deve se vacinar

O Brasil registra atualmente o maior número de casos de febre amarela desde 1980. Segundo dados do Ministério da Saúde, até o dia 05 de abril, foram confirmados 586 casos da doença. Dos 282 óbitos notificados, 138 foram confirmados em Minas Gerais, 43 no Espírito Santo, 4 em São Paulo, 4 no Pará e 1 no Rio de Janeiro. Permanecem em investigação 38 óbitos, sendo 89 em Minas Gerais, 6 no Espírito Santo e 1, respectivamente, em São Paulo, Rio de Janeiro, Tocantins, Pará e Santa Catarina. A possibilidade da doença chegar às cidades deixa autoridades, especialistas e população em alerta. Na opinião do médico virologista Luiz Tadeu Figueiredo este surto com transmissão silvestre é um aviso sobre a possibilidade de reurbanização da doença e precisa ser levado a sério pelas autoridades de saúde pública. Ainda segundo ele, a doença só não se reurbaniza no País porque existe uma barreira imunológica de pessoas vacinadas que impede o ciclo urbano. Mas ressalta a necessidade de imunizar as populações das grandes cidades, particularmente as que estão junto ao foco desta epidemia: Belo Horizonte, Vitória e Rio de Janeiro. Ele enfatiza que vacinas produzidas aqui são adequadas. “A de vírus vivo 17DD é altamente imunogênica, mas não são raros casos de intolerância a ela”, observa.

Enquanto isso, cientistas e autoridades lidam com o desafio de descobrir as causas da doença. O virologista explica que o surto é avisado pela morte de primatas acometidos pela epizootia de febre amarela. “Entretanto, nós só descobrimos a epidemia quando surgem os casos humanos graves (ictéricos)”, completa. O doutor Luiz Tadeu descarta a degradação ambiental, que torna os macacos mais suscetíveis às doenças, e a baixa cobertura vacinal como possíveis causas para o aumento incomum de febre amarela. “Não creio que o problema seja a degradação ambiental. Nos locais onde está ocorrendo o surto atual, houve outros no passado”, relembra. Para ele, os vetores Haemagogus e Sabethes podem ocorrer próximos a cidades que possuem matas pegadas como, por exemplo, o Rio de Janeiro. Entretanto preocupa muito mais a possibilidade de transmissão da febre amarela pelo mosquito da cidade e especialista em homem, o Aedes aegypti, principalmente em locais onde a população não é vacinada contra a febre amarela.

Por desconhecimento e medo da febre amarela, pessoas têm atacado e matado macacos – que são hospedeiros do vírus –, acreditando que esses animais sejam os transmissores da doença. O problema chegou ao Ministério da Saúde, que realizou uma reunião para discutir ações no sentindo de evitar a matança de primatas não humanos (PNH). A ação fará um apelo para que as comunidades “protejam o seu anjo da guarda”.