Estudo comprova a efetividade de remédio para tratar o mal de Chagas

Publicação: 13 de dezembro de 2018

Pesquisadores brasileiros descobriram que o medicamento antiparasitário Benzonidazol pode melhorar o prognóstico de pacientes com doença de Chagas na fase crônica

Este é um dos estudos mais abrangentes deste tipo demonstrando um benefício clínico acentuado do Benzonidazol

Importante estudo sobre a doença de Chagas, realizado por um grupo de pesquisadores brasileiros, tendo como primeira autora a professora do curso de medicina da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ/Divinópolis, MG), a Dra. Clareci Cardoso, investigou os efeitos do medicamento Benzonidazol, distribuído gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a portadores da doença de Chagas. A pesquisa foi publicada recentemente pela revista PLOS Neglected Tropical Diseases.

Para a Dra. Clareci, que possui pós-doutorado em Epidemiologia pela Universidade da Califórnia, Berkeley, EUA, e pós-doutorado em Medicina Tropical pela Universidade de São Paulo (USP), o conhecimento científico produzido dentro desse projeto vem reafirmar a importância da parceria entre grupos e instituições para fortalecimento da ciência brasileira. Acreditamos que os resultados das nossas investigações podem representar impacto positivo para a sociedade, contribuindo para a redução da morbimortalidade associada as doenças ainda negligenciadas.

“Os resultados da nossa investigação sugerem que o tratamento com o benzonidazol deve ser realizado o mais precoce possível, antes que o paciente com Chagas desenvolva cardiopatia avançada, ou seja, antes dos 50 anos de idade”, destaca a Dra. Clareci Cardoso, com quem a Assessoria de Comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT) conversou.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

 SBMT: De acordo com a pesquisa em que a senhora é uma das autoras, se usado na fase crônica (inicial) da doença, o tratamento com Benzonidazol pode melhorar os resultados clínicos e parasitológicos em pacientes com mal de Chagas. Há algum estudo sobre o uso da droga na fase aguda da doença?

Dra. Clareci Cardoso: Clinicamente, a doença de Chagas é dividida em fase aguda e crônica. A fase aguda se resolve espontaneamente dentro de 2 a 4 meses. Sem tratamento, torna-se crônico e persiste por toda a vida do indivíduo. Na fase crônica, a principal complicação é a cardiomiopatia chagásica. A maioria dos estudos científicos que apresenta efetividade do benzonidazol tem foco na fase aguda da doença de Chagas. Grande percentual de pacientes na fase inicial responde ao tratamento com bastante sucesso, especialmente as crianças que apresentam maior tolerabilidade ao medicamento quando comparada aos adultos. Já na fase crônica os resultados de efetividade são controversos na literatura, seja em decorrência de diferenças metodológicas nos estudos, pela reinfecção dos pacientes em áreas endêmicas ou pela diversidade das espécies de parasitas circulantes.

As diretrizes clínicas para a doença de Chagas (Ministério da Saúde 2018) recomendam que o tratamento dos pacientes com a forma aguda deve ser imediato. Embora os medicamentos apresentem eficácia semelhante, o benzonidazol deve ser a primeira opção para prescrição, devido à maior experiência de uso em nosso meio, maior disponibilidade, inclusive com apresentações pediátricas, e ao perfil de eventos adversos. O nifurtimox pode ser utilizado nos casos em que o benzonidazol não for adequadamente tolerado.

Vários estudos mostram que ambos medicamentos antiparasitários são efetivos em reduzir a gravidade dos sintomas e a duração da parasitemia detectável, na doença de Chagas tanto na fase aguda quanto congênita. Acredita-se que a cura parasitológica ocorra em 60% a 85% dos pacientes na fase aguda e, em mais de 90% dos recém-nascidos com infecção congênita tratados no primeiro ano de vida.

SBMT: O Benzonidazol fornecido pelo SUS sempre levantou dúvidas na área médica em relação à eficácia. Quais os motivos ou por que dessas dúvidas?

Dra. Clareci Cardoso: Não existe um marcador de cura da doença de Chagas. A evolução da doença é demorada, por este motivo não foram feitos grandes ensaios clínicos demonstrando que o medicamento altera sua evolução clinica em pacientes na forma indeterminada. O único estudo é recente (Estudo BENEFIT) e avaliou pessoa com cardiomiopatia estabelecida. Neste grupo não ocorreu melhora da evolução da doença. Os médicos se sentem inseguros de oferecerem uma droga com muitos efeitos colaterais sem saber exatamente se ela é efetiva. A nossa investigação, recentemente publicada, trata-se de um estudo observacional, porém a análise estatística realizada simula um ensaio clinico e, portando traz dados que podem auxiliar na decisão de tratamento.

No Brasil, o Benzonidazol é fornecido gratuitamente aos pacientes por meio do SUS. Como discutido na questão anterior, ele apresenta resultados mais efetivos se prescrito na fase inicial da doença, ou seja, próximo a contaminação pelo parasita. Porém, no Brasil, muitos diagnósticos da doença de Chagas não são feitos de forma oportuna, tendo em vista o fato de muitos pacientes residirem em regiões remotas e distante dos recursos diagnósticos; assim o tratamento acontece já na fase mais tardia, muitas vezes quando o paciente já está com cardiopatia estabelecida. Nesses casos ele apresenta uma efetividade reduzida.

SBMT: Carlos Chagas anunciou para a comunidade científica a detecção, em humanos, do protozoário Trypanosoma cruzi, agente causador da doença de Chagas em 1909. Mesmo tendo se passado quase 110 anos do anúncio, porque o Benzonidazol continua sendo o único medicamento usado para o tratamento da doença de Chagas no Brasil?

Dra. Clareci Cardoso: De forma geral, o que se observa é o pouco interesse das indústrias farmacêuticas em investimentos nessa área, que por si só, já é considerada negligenciada. A doença de Chagas traz ainda um problema a mais, ensaios clínicos são difíceis porque os desfechos clínicos levam muito tempo para aparecerem e, não existe um biomarcador de cura bem estabelecido. Mesmo desenvolvendo uma droga, fica difícil provar que ela realmente funciona. Hoje os ensaios clínicos usam a PCR como desfecho. Como a PCR pode ser negativa em muitos pacientes que desenvolvem cardiomiopatia, alguns pesquisadores discordam que este marcador seja efetivo para indicar cura da doença.

SBMT: Já nos Estados Unidos, a agência do governo americano para vigilância sanitária de alimentos e medicamentos (FDA), aprovou a solicitação de registro deste medicamento Benzonidazol, feito pelo Chemo Group, apenas em dia 29 de agosto de 2017. Ele foi o primeiro medicamento aprovado pela FDA para o tratamento da doença de Chagas. Em sua opinião, por que eles demoraram tanto tempo para aprovar?

Dra. Clareci Cardoso: A doença de Chagas não era vista como um problema e, como descrito anteriormente, os estudos de eficácia e efetividade do BZN são difíceis. Outro fato a ser considerado, é que os estudos de efetividade na fase aguda são antigos e, não atendiam as regras do FDA que são muito restritas.

SBMT: Podemos dizer que a aprovação do Benzonidazol foi um grande marco nos Estados Unidos, assim como uma resposta global à doença de Chagas? Por quê?

Dra. Clareci Cardoso: Com certeza. A aprovação do BZN mostra que a doença de Chagas passou a ser vista como um problema nos EUA. Ela deixou de ser um problema restrito de alguns países e passou a ser uma preocupação mundial, tendo em vista a imigração de pacientes dentro e ou fora de áreas endêmicas, esse fato tem alterado a epidemiologia da doença, e pacientes com o diagnóstico de Chagas têm sido cada vez mais frequente. Outro fato que tem contribuído para o aumento da prevalência é a implantação de triagem da doença de Chagas nos bancos de sangue americanos. Assim, com o aumento da prevalência, por meio do acesso ao diagnóstico, surge a necessidade de tratamento dessa população.

SBMT: O Benzonidazol produz efeitos colaterais pesados, como náuseas, dores de cabeça e vômitos. Em sua opinião, isso faz com que os pacientes interrompam o tratamento?

Dra. Clareci Cardoso: Sim, com certeza. Essas reações adversas são comuns e, por isso a administração do benzonidazol precisa ser devidamente supervisionada por visitas periódicas ao profissional médico, e se necessário fazer ajuste de dose ou utilizar o medicamento alternativo (benzonidazol ou nifurtimox).

SBMT: Pesquisadores recentemente utilizaram a quinidina, prescrita na abordagem padrão contra a malária, para tratar a doença de Chagas. Em testes, o remédio impediu que o barbeiro repassasse o Trypanosoma cruzi. A senhora acredita que essa será uma opção, com menos efeitos colaterais, aos pacientes acometidos pela doença? Por quê?

Dra. Clareci Cardoso: Felizmente, tem surgido outras possibilidades para o controle da doença de Chagas, nesse sentido, o conhecimento produzido nas universidades é fundamental, considerando ser essa uma área de pouco investimento das indústrias farmacêuticas. Quanto a esse estudo utilizando a quinidina, os resultados foram promissores no controle vetorial da doença, porém, temos que acompanhar com cautela outras investigações para avaliação de sua eficácia e efetividade em modelos animais e humanos.

Se for identificado efetividade da substância no controle da doença de Chagas em humanos será fantástico, pois sabemos que ambos medicamentos disponíveis para uso, o benzonidazol e nifurtimox, apresentam algumas reações adversas graves ocasionando muitas vezes a descontinuidade do tratamento tendo como consequência a persistência do parasita no organismo resultando em danos irreversíveis aos nossos pacientes.

SBMT: A descoberta do seu grupo de pesquisa veio em um momento bastante atribulado da economia nacional, onde o governo realiza cortes de recursos e de repasse de verbas para a pesquisa, prejudicando o avanço da ciência e a produção de novas descobertas. Podemos dizer que os resultados encontrados fortalecem a ciência brasileira, se colocando na contramão do descaso com as universidades públicas e da constante luta por investimento na pesquisa e ganhando assim mais importância e resolutividade?

Dra. Clareci Cardoso: Acreditamos ser um momento importante para a ciência brasileira apresentar resultados inovadores. No Brasil, temos pesquisadores com formação acadêmica reconhecida internacionalmente e importantes instituições de ensino público. Sabemos que o investimento na pesquisa não tem atendido todas as nossas demandas, mas as parcerias institucionais têm favorecido a produção científica. Um exemplo de sucesso tem sido o Grupo de Pesquisa São Paulo & Minas Gerais em Doenças Tropicais (SaMi_Trop), onde pesquisadores da USP, UFMG e UFSJ/Divinópolis e UNIMONTES desenvolvem um grande projeto de pesquisa em doença de Chagas, com acompanhamento de 2.157 pacientes da região Norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha, cujo objetivo do estudo é acompanhar a evolução da doença e identificar biomarcadores de progressão. Esse projeto é financiado com recursos do National Institute of Health dos Estados Unidos (NIH) e alguns outros financiamentos incluindo FAPESP, FAPEMIG e CNPq. Conta ainda com a parceria do Blood Systems Research Institute e Universidade da Califórnia (EUA).

O conhecimento científico produzido dentro desse projeto vem reafirmar a importância da parceria entre grupos e instituições para fortalecimento da ciência brasileira. Acreditamos que os resultados das nossas investigações podem representar impacto positivo para a sociedade, contribuindo para a redução da morbimortalidade associada as doenças ainda negligenciadas.

SBMT: Quais os próximos passos da pesquisa?

Dra. Clareci Cardoso: Os resultados da nossa investigação sugerem que o tratamento com o benzonidazol deve ser realizado o mais precoce possível, antes que o paciente com Chagas desenvolva cardiopatia avançada, ou seja, antes dos 50 anos de idade. Pacientes previamente tratados com benzonidazol apresentaram redução significativa da parasitemia, menor frequência de marcadores de cardiomiopatia grave e redução da mortalidade. Se usado nas fases iniciais da doença de Chagas, o tratamento com benzonidazol pode resultar em melhores indicadores clínicos e parasitológicos.

A contribuição mais importante do presente trabalho é a demonstração de um importante benefício clínico do benzonidazol, que inclui redução em marcadores bem estabelecidos de gravidade da doença como, anormalidades típicas de chagas no ECG, altos níveis de NT¬proBNP ou ambos, assim como a menor mortalidade durante os dois anos de acompanhamento dos pacientes.

Como esses pacientes fazem parte de uma coorte prospectiva, eles serão acompanhados ao longo do tempo para avaliação de outros desfechos como progressão da doença ao longo dos anos, impacto na doença na qualidade de vida dentro outros, assim como observar a manutenção do impacto positivo do uso do benzonidazole por um período maior