Câncer de pele representa cerca de 30% dos tumores malignos do País

Publicação: 8 de janeiro de 2019

O câncer da pele responde por 33% dos diagnósticos de todos os tipos de câncer no Brasil, sendo que o Instituto Nacional do Câncer (INCA) registra, a cada ano, cerca de 180 mil novos casos.

Políticas de saúde voltadas à prevenção e ao tratamento precoce do câncer de pele se fazem necessárias. A doença apresenta alta chance de cura, caso seja diagnosticada precocemente.

O câncer de pele é o mais frequente tipo de câncer, e corresponde a cerca de 30% de todos os tumores malignos registrados no País. De acordo com publicação Incidência de Câncer no Brasil, estimam-se mais de 85 mil casos novos entre homens e mais de 80 mil entre as mulheres para cada ano do biênio 2018-2019. Esses valores correspondem a um risco estimado de 82,53 casos novos a cada 100 mil homens e 75,84 para cada 100 mil mulheres. No mundo, as maiores taxas de incidência de câncer de pele ocorrem em países como Austrália e Nova Zelândia, em populações com predominância da cor de pele mais clara.

A professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) Patricia Henriques Lyra Frasson ressalta que o câncer de pele é o de maior incidência no mundo e que o Brasil apresenta um número considerado de casos. O fato, segundo ela, pode ser explicado porque o Brasil é um país de clima tropical com sol em boa parte do ano. Além disso, o país recebeu no passado um grande número de imigrantes europeus, de pele, olhos e cabelos claros, que vieram trabalhar em lavouras, sofrendo longa exposição ao sol desde a infância. Associado a isso, há a redução da camada de ozônio, o que causa uma diminuição da proteção contra os raios ultravioletas.

O câncer de pele é o mais incidente em homens nas regiões Sul (160,08/100 mil), Sudeste (89,80/100 mil) e Centro-Oeste (69,27/100 mil). Nas demais regiões, Nordeste (53,75/100 mil) e Norte (23,74/100 mil), ele está na segunda posição. Já entre as mulheres, é o mais incidente em todas as regiões do País. De acordo com a especialista, o fato do câncer de pele ser maior na região Sul do que no Nordeste, embora nesta região a incidência da radiação ultravioleta seja maior, é devido à população predominantemente caucasiana na região Sul, mais susceptível ao câncer de pele.

Números preocupam autoridades de saúde e especialistas

Santa Catarina é um dos estados com alto registro. Os maiores números de mortes pela doença estão em Joinville, Florianópolis e Blumenau. Das 1.190 mortes que ocorreram devido ao câncer de pele entre 2010 e 2015, 110 foram em Joinville, 87 em Florianópolis e 66 em Blumenau. Já no Pará, o Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA), em Santarém, registrou 532 casos, segundo balanço de 2012 a 2016. Na Paraíba, por dia, cerca de cinco pessoas descobrem que têm câncer de pele. Já o Rio de Janeiro responde por 13,9% dos casos da doença no País, sendo que do total, 49,18% estão concentrados na capital. O Tocantins registrou mais de 500 casos de câncer de pele entre 2014 e 2017.

Para a professora, que também é cirurgiã plástica, o investimento em programas de prevenção e tratamento precoces pode reduzir a prevalência do câncer de pele. “Campanhas visando ao uso de protetor solar de forma correta, uso de barreiras físicas (camisas de manga comprida, chapéus com aba, calça durante a exposição solar) podem reduzir o surgimento de lesões, pois o câncer de pele é decorrente do efeito cumulativo do sol; o tratamento precoce evita a evolução das lesões e serve de alerta para a população alvo”, destaca. Ainda segundo ela, o protetor solar deveria ser tratado como medicamento, e não cosmecêutico, isto tornaria seu uso mais acessível pela queda de preço. Aliado a isso, ela aponta a busca ativa em comunidades vulneráveis ao câncer de pele. “Quando diagnosticado e tratado precocemente, o índice de cura pode chegar a 95%”, assinala.

Em relação às estatísticas, a médica esclarece que quando se fala em óbitos, o número é muito menor no câncer de pele não-melanoma, pelo crescimento lento e baixa possibilidade de metástases, com alto índice de cura quando ressecado, quando comparado ao melanoma, que embora corresponda de 3 a 5% dos casos, é responsável por 95% dos óbitos. Ela alerta ainda para a falta de notificações, que pode ocorrer por dois motivos: a grande extensão do País e o fato da notificação não ser obrigatória.

Mais de 100 mil agricultores foram salvos do câncer de pele

Um projeto único no Brasil, que conta com a participação de professores e universitários dos cursos de Medicina, Enfermagem e Ciências da Computação e Engenharia da Computação da UFES, já salvou a vida de mais de 100 mil agricultores do câncer de pele. O Programa de Atendimento Dermatológico, criado em 1987, tem contribuído muito para o manejo do câncer de pele nas comunidades Pomeranas do estado. A Dra. Patricia Frasson, uma das autoras do estudo intitulado Panorama do câncer da pele em comunidades de imigrantes Pomeranos do Estado do Espírito Santo, acredita que o projeto pode ser reproduzido em outros estados brasileiros, principalmente em locais com alta incidência solar e com populações vulneráveis que trabalham expostas ao sol.

“Nosso programa une quatro parceiros: a Universidade, que tem no programa um campo de ensino aos nossos alunos,  aproximando-os da realidade da nossa população; as Secretarias de Saúde Estadual e Municipal, que têm como benefício o tratamento in loco com especialistas de seus partícipes, evitando o transporte sanitário destes pacientes para tratamento na capital; e a Igreja Luterana. Cada um tem suas obrigações. É preciso haver o entendimento de que todos ganham, e sem o envolvimento de todos não há como ser feito”, acrescenta. Para saber mais sobre o assunto, assista a reportagem exibida pelo programa ES Rural , uma das finalistas do Prêmio Jornalista Tropical 2018.

Vacina contra o câncer de pele desenvolvida no Brasil

Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma vacina e obtiveram bons resultados nos testes realizados em camundongos. O resultado foi publicado na revista científica “Frontiers of Immunology“. A transferência desta tecnologia para o mercado depende da conclusão dos ensaios pré-clínicos e posterior realização de ensaios clínicos, que seguem requisitos preconizados por comissões e órgãos regulamentadores. Estes ensaios seguem um cronograma padrão, de cerca de 8 anos para chegar ao mercado.

Enquanto a vacina não é uma realidade, a especialista reconhece que novos tratamentos, como a imunoterapia, possibilitam o controle da doença em casos graves. “A imunoterapia tem tido ótima resposta quando a indicação é precisa, mas o alto custo ainda é um empecilho”, lamenta.