Síndromes febris agudas: Sabine Dittrich explica quais ferramentas diagnósticas são necessárias

Publicação: 10 de janeiro de 2018

Fundação por Novos Diagnósticos Inovadores (FIND) está desenvolvendo uma plataforma que vai ajudar a diagnosticar melhor os milhões de pessoas que apresentam doença febril grave sem fonte conhecida em países de baixa e média renda

Como chefe deste novo programa de malária e febre, sou responsável por determinar a estratégia integrada e supervisionar a efetiva entrega do trabalho da organização em ambas as áreas

A Foundation for Innovative New Diagnostics (FIND, sigla em inglês) trabalha para enfrentar a falta de diagnósticos para os principais desafios globais de saúde, como a tuberculose, a malária e as febres não-maláricas, o HIV e as doenças tropicais negligenciadas. Ao desenvolver estratégia de febre, a FIND quer concentrar no paciente e nos diferentes locais em que buscam tratamento. Os desafios diagnósticos enfrentados pelos pacientes podem depender de onde eles estão localizados. Por exemplo, quando eles chegam às unidades de saúde, os clínicos devem ter ferramentas simples que lhes digam quem deve receber antimaláricos ou antibióticos, quem pode ir para casa e quem deve ser encaminhado para um centro de saúde melhor equipado, pois a doença pode ser grave. Para saber mais sobre o assunto, a assessoria de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), conversou com a chefe do novo programa de malária e febre do FIND, Sabine Dittrich. Confira abaixo a íntegra da entrevista.

SBMT: Fale pouco sobre o trabalho realizado pela Foundation for Innovative New Diagnostics (FIND) e o seu trabalho na Fundação?

Dra. Sabine Dittrich: FIND é uma parceria de desenvolvimento e entrega de produtos com plataformas de acesso regional na Índia, África do Sul, Uganda e Vietnam, além de atividades em 35 países. A FIND está trabalhando para suprir a falta de diagnóstico para os maiores desafios de saúde globais, como tuberculose, malária e febres não-maláricas, HIV e doenças tropicais negligenciadas. A organização busca transformar desafios de diagnóstico em soluções holísticas simples.

Na última década, a FIND firmou parcerias que entregaram 22 novas ferramentas de diagnóstico, da quais 11 foram aprovadas pela OMS. A equipe também criou um ambiente propenso ao desenvolvimento de muitas outras, com a provisão de banco de espécies, desenvolvimento de reagentes e melhor visão de mercado. Desde a P&D à implementação, a FIND foca no acesso global ao garantir que os produtos que ela apoia são acessíveis, disponíveis em grandes quantidades e apropriados às necessidades do paciente e do usuário. Criar evidências para aprovação de políticas, tanto em níveis globais como nacionais, e informar as estratégias de implementação, também fazem parte do trabalho da FIND.

Dois de nossos programas antes independentes, Malária e Febre, serão unificados em janeiro de 2018 e será uma grande oportunidade para termos uma visão holística, focada no paciente, ao lidar com as necessidades do diagnóstico de malária e febre. Como chefe desse novo Programa de Malária e Febre, estou responsável por determinar a estratégia integrativa e vislumbrar o efeito do trabalho da organização em ambas as áreas.

SBMT: Uma plataforma que ajudará a diagnosticar melhor os milhões de pessoas que apresentam doença febril grave sem fonte conhecida em países de baixa e média renda está sendo desenvolvida. Pode nos contar um pouco mais sobre isso?

Dra. Sabine Dittrich: Como parte do portfólio de febres da FIND, nós estamos trabalhando com vários parceiros em diversos projetos de desenvolvimento visando melhorar os diagnósticos de febre. Por exemplo, projetos variam de melhores testes de triagem para pacientes não-graves na atenção básica até painéis multiplexados e culturas de sangue otimizadas em hospitais. Nossa parceria com o Médicos Sem Fronteiras (MSF) inclui o desenvolvimento de definições de produtos a serem desenvolvidos (Target Product Profiles – TPP) para uma plataforma tecnológica de diagnóstico multi-substancial – essencialmente um teste capaz de detectar uma grande variedade de marcadores de doenças usando uma só amostra de pacientes. A ideia é oferecer suporte às tomadas de decisão clínicas em estabelecimentos do MSF, bem como em hospitais regionais com recursos limitados. É comumente difícil para clínicos decidirem qual o melhor tratamento sem boas ferramentas de diagnóstico e o nosso dispositivo idealizado traria tal capacidade para lugares que hoje não a tem.

SBMT: Que tipo de ferramentas diagnósticas são necessárias para as síndromes febris agudas? Pode nos falar sobre as estratégias que a FIND tem adotado?

Dra. Sabine Dittrich: Ao desenvolver nossa estratégia contra febre, nós tentamos focar no paciente e nos diferentes locais onde eles buscam atendimento. Os desafios de diagnóstico que os pacientes enfrentam podem depender do local onde eles estão, e isso é algo que gostaríamos de ajudar. Por exemplo, quando pacientes buscam atendimento pela primeira vez, os clínicos devem ter ferramentas simples que os auxiliem a receitar antimaláricos ou antibióticos, quem pode ter alta e quem deve ser encaminhado a um estabelecimento melhor equipado, já que a doença pode ser grave. Depois deste primeiro contato, no caso de várias doenças, é importante identificar posteriormente qual tratamento específico ou intervenção é mais adequada, especialmente em casos de patógenos que podem ser resistentes a algumas drogas ou exigir medicamentos diferentes de antibióticos de largo espectro.

Para atender a essas diferentes exigências enquanto nos mantemos fortemente centrados no paciente, nós desenvolvemos um portfólio de projetos que visam auxiliar nos desafios através desta variedade de necessidades e esperamos poder ajudar a comunidade global de saúde em breve com testes novos e melhorados em vários níveis.

SBMT: Quais inovações no manejo das doenças febris agudas podemos esperar nos próximos anos?

Dra. Sabine Dittrich: Pessoalmente, estou muito empolgada com os prospectos de avaliar e desenvolver marcadores de triagem melhorados para diferenciar infecções bacterianas de não-bacterianas, que não só melhorarão o manejo dos pacientes, mas também serão uma ferramenta de combate à resistência antimicrobial. Para isso, estamos trabalhando com uma equipe da FioCruz que nos auxiliará a obter dados relevantes para o Brasil. Na frente de intensificação de patógenos multiplexados, estamos excitados com a colaboração da Chembio e ansiosos pela conclusão do desenvolvimento do novo teste 8-plex e seu uso em ambientes reais.

Em geral tem sido ótimo trabalhar nessa área, onde estamos presenciando muitos avanços nos diagnósticos de febre bem como os dados tem sugerido combinar diagnósticos com ferramentas simples de algoritmo eletrônico. Este último tem um potencial interessante e estamos ansiosos para explorar isso mais a fundo nos próximos anos.

SBMT: Quais as populações mais afetadas por doenças febris agudas?

Dra. Sabine Dittrich: Doenças com febre aguda são uma síndrome universal, e a febre é um dos sintomas mais relatados pelos pacientes, especialmente crianças, quando chegam aos consultórios, independentemente do nível de riqueza do país. A diferença são os agentes causadores da febre, particularmente em áreas com incidência de malária em processo de declínio. Nós sabemos que as causas de febre podem ser bastante diferentes mesmo dentro de um mesmo país, especialmente os grandes, como o Brasil. Outro desafio é a sazonalidade das infecções e os impactos que diferentes intervenções podem ter no aumento ou declínio de uma doença. Isso torna o trabalho com diagnóstico de febres bastante desafiador, mas para mim é o que torna particularmente desafiador.

Muitos grandes estudos na Ásia, África e América Latina continuam a explorar esse problema e nós aguardamos ansiosamente por mais dados de projetos epidemiológicos bem como projetos de mapeamento para melhor direcionar nossos testes multiplexados rumo às necessidades identificadas.

SBMT: Como a senhora vê a situação das arboviroses (dengue, zika, chikungunya, febre amarela, febre do Nilo, Oropouche, febre do Mayaro) que o Brasil tem enfrentado?

Dra. Sabine Dittrich: Arboviroses são desafiadoras por que muitos dos sintomas são parecidos e os médicos podem ter dificuldades ao diferenciar as doenças. No Brasil, muitos dos vetores estão presentes no país – permitindo a circulação de vários arbovírus diferentes – mas ainda existe muita subnotificação de arboviroses devido aos desafios no diagnóstico. Desse modo existe uma necessidade urgente de meios de diagnóstico capazes de diferenciar os vírus (especialmente para confirmar resultados de sorologia de flavivirus) e testes de diagnóstico acessíveis mesmo em áreas remotas, para melhor estimar o efeito de cada infecção de arbovírus e garantir o atendimento ao paciente.

É difícil coordenar a vigilância e a resposta a surtos em um país extenso onde é requerida a abordagem “one health”. Isso mostra que devemos estar alertas e preparados para patógenos reemergentes circulando em novas áreas e provocando sintomas que não haviam sido vinculados a infecção por arbovirus anteriormente, como microcefalia em crianças cujas mães tenham sido expostas ao Zika vírus.

SBMT: A senhora acredita que pode haver disseminação dessas doenças em escala global?

Dra. Sabine Dittrich: Nós vimos que a prevalência do Zika, Dengue, e Chikungunya em especial, cresceu em muitos lugares, e isso provavelmente é provocado pela facilidade com que os patógenos podem viajar na nossa idade moderna. Nós sempre lemos que patógenos não respeitam fronteiras, e no caso de muitos patógenos virais transmitidos por vetores, isso certamente é verdade desde que o vetor também esteja presente no destino.

SBMT: Em sua opinião, como está a saúde do mundo? E o que podemos esperar para um futuro próximo em relação às febres?

Dra. Sabine Dittrich: Essa é a grande questão. Ainda há muita desigualdade no mundo e o acesso a serviços de saúde não é uma exceção. A boa notícia é que muitas pesquisas relevantes estão em andamento em diversos aspectos das febres, como dito acima. Eu tenho esperanças da inserção de um meio de diagnóstico capaz de virar o jogo em um futuro não muito distante. Garantir o acesso a esses meios será o próximo desafio.

SBMT: Para a senhora, qual a relação das febres com a pobreza?

Dra. Sabine Dittrich: Acabar com a pobreza é o primeiro objetivo dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [Sustainable Development Goals – SDGs] que demonstram que dentre as características de pobreza está o acesso limitado a serviços básicos, como saúde. Crianças que nascem na pobreza tem quase duas vezes mais chances de morrer antes dos cinco anos em relação àquelas de famílias mais ricas. Em ambientes com poucos recursos, a febre é frequentemente o primeiro de muitos sinais de doenças infecciosas, apesar de ser frequentemente diagnosticada erroneamente, ou não diagnosticada de forma alguma, levando a dados incompletos para vigilância e tratamento inapropriado para os pacientes. Outro efeito preocupante é que os patógenos com potencial de causar epidemias não são identificados a tempo de conter a epidemia – como foi o caso mais recente do Zika e do Ebola. O acesso a tratamento de saúde é crítico quanto se trata dos desafios da pobreza.

Nossa meta de criar soluções de diagnóstico que permitam reconhecer as diversas causas de febre, e garantir que sejam tratadas adequadamente o quanto antes, permitirá que o mundo alcance as metas de desenvolvimento sustentável para 2030.

SBMT: A senhora gostaria de adicionar algo que não foi contemplado acima e que você considera importante?

Dra. Sabine Dittrich: Gostaria de agradecer por essa oportunidade e dizer que espero continuar trabalhando com tantos cientistas brilhantes e organizações brasileiras para garantir que nosso trabalho seja relevante para o País.