Silencioso, desconhecido e negligenciado, HTLV requer investimento maciço nas pesquisas, aponta Dr. Bernardo Galvão Filho

Publicação: 8 de janeiro de 2019

Apesar de impactar imensamente a saúde pública, o HTLV permanece negligenciado a ponto de sequer fazer parte da lista de doenças negligenciadas da OMS. A doença é negligenciada até mesmo no quesito notificação

Segundo pesquisas, o vírus pode atingir 1% da população. Entretanto, os dados devem estar subestimados, pois faltam levantamentos amplos e em muitas regiões do mundo a infecção nunca foi investigada

Estima-se que haja entre cinco e dez milhões de pessoas infectadas no mundo pelo vírus linfotrópico da célula T humana (HTLV) e o Brasil provavelmente é o campeão em números absolutos. Segundo projeções matemáticas, o País tem aproximadamente 2,5 milhões de infectados. A maioria das pessoas portadoras é assintomática, somente cerca de 10% desenvolve doenças. O aumento significativo das Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) faz com que o HTLV acompanhe essa tendência.

O professor Dr. Bernardo Galvão Filho, que implantou o Centro Integrativo Multidisciplinar de HTLV-1 da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), em 2001, explica que apesar das evidências de sérios agravos à saúde humana, o HTLV continua pouco conhecido no Brasil devido ao extremo descaso governamental. “O Ministério da Saúde não o inclui em sua agenda de doenças e, consequentemente, não existem políticas públicas que estabeleçam medidas de prevenção e de uma linha de cuidados para os portadores em nosso País. Nos editais de pesquisa, o HTLV não é incluído. Portanto, a infecção causada por ele pode ser considerada a mais negligenciada das negligenciadas”, lamenta.

Passados quase quarenta anos, as pesquisas em relação ao vírus permanecem estagnadas e nenhum país conseguiu desenvolver um antirretroviral capaz de combatê-lo. Na opinião do Dr. Galvão, que também coordena o Centro Integrativo Multidisciplinar de HTLV da EBMSP, o Brasil está muito atrasado na luta contra o vírus, que apesar de afetar mais pessoas do que o HIV e a hepatite C recebe pouca atenção. “Pesquisas desenvolvidas em relação ao HTLV-1, o primeiro retrovírus humano identificado, possibilitou a hipótese de que a AIDS era causada por um novo retrovírus humano, facilitando a identificação do HIV-1. Apesar deste fato, é lamentável que a infecção causada por ele tenha sido negligenciada, muito embora cause doenças graves. Até o momento não existem diretrizes clínicas internacionais ou investimento financeiro para o desenvolvimento de drogas e ensaios clínicos”, assinala.

Estratégias para erradicação do HTLV-1

Para o Dr. Galvão, a primeira medida a ser tomada é a incorporação do HTLV na agenda da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde, indicando a gravidade deste sério problema de saúde pública. Além disso, medidas de prevenção eficazes devem ser implantadas, tais como: triagem mandatória do sangue a ser transfundido, já realizada no Brasil; incorporação universal da triagem do HTLV no exame do pré-natal; suspensão do aleitamento materno em mães soropositivas e fornecimento da fórmula láctea; triagem de doadores de transplantes de órgãos; e uso de preservativos nas relações sexuais.

O especialista é enfático ao observar que uma infecção crônica, que tem entre suas vias de transmissão, a via sexual, não é de fácil controle. Ele reconhece ainda a carência de estrutura para a implantação de uma linha de cuidado eficaz e que são escassas as ações de prevenção. “Entretanto, se medidas preventivas forem implementadas, será possível diminuir consideravelmente a transmissão e controlar este sério e grave problema de saúde pública. Mas para isso, será de extrema importância a implementação de linha de cuidados, bem como o financiamento à pesquisa, que irão contribuir para minorar o sofrimento biopsicossocial de milhares de indivíduos que vivem com o HTLV”, destaca.

Norte e Nordeste são as regiões mais endêmicas

Estudos prévios em doadores de sangue têm demonstrado que as regiões Norte e Nordeste são as que contabilizam mais pessoas com HTLV. Elevadas prevalências foram observadas em Salvador, Bahia, São Luís do Maranhão e Belém do Pará. Segundo o Dr. Galvão, em Salvador e em São Luís, provavelmente esses índices resultam do aporte de africanos durante o tráfico negreiro, numa introdução pós-colombiana do HTLV-1 no Brasil. Enquanto em Belém, poderia se aventar a hipótese de que a introdução ocorreu por meio do povoamento pré-colombiano por migrações de populações asiáticas que constituem as populações indígenas atuais. “Devemos também considerar que as populações do Norte e Nordeste são socioeconomicamente menos favorecidas e que a infecção pelo HTLV-1 ocorre mais frequentemente em indivíduos com menor renda e menor escolaridade”, admite.

A Bahia é o estado com maior número de infecções: a taxa chega a 1,8%, quando nos demais centros urbanos ela é estimada em menos de 1%. De acordo com dados da Secretaria de Saúde da Bahia (Sesab), em 2015, a porcentagem atingiu os 77%, sendo as mulheres as maiores vítimas. A principal via de infecções é o aleitamento materno e o índice de infecção ocorre em até 30% dos casos. A vulnerabilidade social é tida como um dos fatores. Em 2003, pesquisadores da Fiocruz Bahia em conjunto com Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da Universidade Federal da Bahia, realizaram um estudo de base populacional, que apontou Salvador como a cidade com cerca de 40 mil pessoas vivendo com o HTLV-1. Junto com o Laboratório Central de Saúde Pública da Bahia (LACEN BA), outra pesquisa feita pelo IGM aponta que a Bahia tem 130 mil pessoas infectadas. Mais recentemente, em 2017, um estudo mostrou evidências que a via sexual é a predominante em Salvador, não obstante existem também evidências que a transmissão vertical, da mãe para o bebê, tem participação importante na transmissão.

Apenas alguns estados mantêm pesquisas recorrentes em relação ao vírus, a maioria com parcerias financiadas ou com a iniciativa privada. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, integra o Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em HTLV, formado pela Fundação Hemominas, Fiocruz/René Rachou, Hospital Eduardo de Menezes, da Fhemig, e Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação. Os estudos da Universidade geraram patente de teste diagnóstico, com financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS), que está sendo licenciada para uma empresa mineira.

“Em 2015, o Ministério da Saúde, baseado em evidências clínicas de melhor prognóstico dos pacientes que fizeram uso da zidovudina no tratamento de leucemia/linfoma associado ao HTLV-1, incorporou no âmbito do SUS este antirretroviral para o tratamento desta doença que tem elevada mortalidade”, lembra o Dr. Galvão.

O Ministério da Saúde está preparando um estudo nacional para conhecer a prevalência do HTLV-1 em gestantes no Brasil. O resultado deve servir para definir as linhas de ações futuras para combater a transmissão do vírus de mães para filhos. A previsão é que o estudo seja concluído este ano. Além disso, o Ministério também está trabalhando na atualização do protocolo de HTLV-1. O documento deve servir de guia para a capacitação dos profissionais da saúde.

Desconhecimento por parte dos profissionais da saúde e conscientização sobre o vírus

O desconhecimento por parte dos profissionais de saúde contribui para o largo intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico. “Se os profissionais de saúde desconhecem o HTLV, as vias de transmissão e as doenças relacionadas a este vírus, não solicitam os exames sorológicos pertinentes, como por exemplo, no pré-natal e no diagnóstico diferencial”, atenta o Dr. Galvão ao completar que indivíduos assintomáticos não têm necessidade de procurar serviços de saúde para realizar testagem do HTLV, no entanto, a inclusão dos testes de detecção do vírus nos bancos de sangue e nos exames de pré-natal tem identificado grande número de portadores assintomáticos. Uma em cada 20 pessoas infectadas pode desenvolver leucemia e doença neurodegenerativa.

Mesmo tendo sido descoberto antes do HIV, a gravidade da infecção e a velocidade de sua disseminação fizeram com que o foco fosse desviado do HTLV. Embora sejam da mesma família e tenham vias de transmissão semelhantes, existem diferenças marcantes entre o HIV e o HTLV. “O HIV causa uma pandemia, ou seja, está presente em quase todo o mundo, atingindo tanto países desenvolvidos como também países em vias de desenvolvimento. Enquanto que o HTLV, com exceção do Japão, está presente principalmente em regiões em desenvolvimento como a África, as Américas Central e do Sul e em aborígenes australianos atingindo populações desfavorecidas socioeconomicamente sem capacidade de se organizar e pressionar os governos a estabelecerem programa de enfretamento deste sério e grave problema de saúde”, destaca.

O Dr. Galvão acrescenta que devido à gravidade da endemia/epidemia no estado da Bahia e graças à mobilização da sociedade civil, representada principalmente pela Associação de portadores de HTLV, a HTLVIDA, medidas governamentais foram implementadas como a triagem mandatória no pré-natal e o estabelecimento de uma linha de cuidado para as pessoas que vivem com o HTLV.

Não há cura para o HTLV e todos os tratamentos utilizados nos pacientes são paliativos. E, apesar de pertencer à família do HIV, os medicamentos utilizados no tratamento não fazem efeito contra o HTLV. O vírus pode permanecer encubado no organismo por até 30 anos antes que os primeiros sintomas apareçam. O HTLV-1 se concentra na África subsaariana, na América Latina, no Caribe, e em países como Japão, China e Austrália. Já o HTLV-2, infecta cerca de 200 mil pessoas no Brasil, com prevalência maior em grupos como indígenas e usuários de drogas injetáveis.

O Dia Mundial do HTLV, 10 de novembro, foi instituído pela Associação Internacional de Retrovirologia (IRVA, na sigla em inglês) para dar visibilidade ao vírus.