Sífilis: desconhecimento, comportamento de risco e suas consequências

Publicação: 11 de julho de 2017

Apesar do tratamento rápido e de testes para diagnóstico serem oferecidos gratuitamente nos postos de saúde, os casos da doença continuam aumentando

O não uso do preservativo associado a um comportamento de risco, que implica na rotatividade de parceiros e parceiras, facilita a transmissão da doença

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, todos os dias, sejam diagnosticados pelo menos um milhão de novos casos de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs). Entre elas, uma chama atenção: a sífilis, uma doença que não escolhe idade, sexo nem classe social. Estima-se que, a cada ano, quase seis milhões de pessoas são infectadas pela sífilis. Um dos fatores que fizeram com que o agravo voltasse a ser um dos que mais vitima brasileiros nos dias de hoje é o não uso de preservativo, associado a um comportamento de risco, que implica na rotatividade de parceiros e parceiras, o que facilita a transmissão da doença.

Há indícios de que a população jovem está de fato se descuidando da prevenção às ISTs. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre abril e setembro de 2015, com alunos do 9º ano do Ensino Fundamental de escolas públicas e particulares, mostrou que 33% não tinham utilizado preservativo na última relação sexual. Na prática, um a cada três jovens está se expondo severamente à sífilis quando mantém uma relação sexual desprotegida.

Na opinião do médico infectologista Ralcyon Teixeira, supervisor do Pronto-Socorro do Hospital Emílio Ribas, por um lado há um relativo desconhecimento sobre a doença; por outro, a sífilis é uma doença secular, que vitimou muitos artistas e pessoas conhecidas mundialmente ao longo da história, ou seja, não é uma doença totalmente desconhecida. “A maioria das pessoas, certamente, já ouviu falar e sabe que ela é transmissível sexualmente. Entretanto, falta saber que estamos vivendo uma epidemia da doença, quais são os seus principais sintomas, o nível de gravidade que ela pode atingir e o quão grave ela pode ser para os bebês, quando transmitida durante a gestação. Sífilis pode causar microcefalia nos bebês e, nos adultos, pode causar até cegueira e demência, por exemplo”, alerta.

A sífilis, bem como o HIV e outras ISTs, é uma doença grave , mas absolutamente passível de prevenção ´e tem cura, diferentemente do vírus da Aids. “Isso significa que a infecção está ligada ao comportamento das pessoas, sim. A camisinha hoje segue sendo a melhor forma de prevenção a todas essas doenças, no entanto, as estatísticas só crescem, o que demonstra a necessidade de mais sensibilização para que as pessoas entendam melhor o tamanho do risco ao qual estão se expondo quando fazem sexo sem proteção”, adverte o médico.

O que fazer para tentar frear a doença?

De acordo com a reportagem, o Brasil vive uma epidemia de sífilis. Os casos, entre 2010 e 2015, subiram de mil para 65 mil. De acordo com o Ministério da Saúde, o elevado percentual de aumento ocorre devido às crescentes notificações, e não necessariamente a um aumento do número de casos. Isso acontece porque a notificação da sífilis adquirida somente se tornou compulsória em 2010, antes estados e municípios não eram obrigados a notificar, por isso houve um aumento gradual do número de casos.

Em 2015, o número total de casos de sífilis adquirida notificados no Brasil foi de 65.878. De acordo com o Boletim Epidemiológico 2016 da Sífilis e ações do Departamento de Vigilância, Prevenção e Controle das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais (DIAHV) do Ministério da Saúde, em 2015 observou-se que 55,6% dos casos de sífilis adquirida, no Brasil, eram da faixa etária de 20 a 39 anos. No Distrito Federal, por exemplo, foram 1.288 casos notificados só em 2016.

Um dado interessante chama a atenção: o sexo mudou. Em 2010, a incidência da doença em homens era maior, cerca de 1,8 caso para cada caso entre mulheres – mas essa média caiu para 1,5 homem/mulher em 2015.

Para o doutor Teixeira, o caminho para frear a doença é sensibilizar a população. “Aos governos cabe fazer campanhas. A nós, médicos e profissionais de saúde em geral, cabe muita conversa e orientação. À população cabe o interesse em saber mais e se cuidar. É preciso dar ciência sobre a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do tratamento”, frisa.

A diretora do Departamento das IST, do HIV/Aids e das Hepatites Virais, Adele Benzaken, destaca que o objetivo do Ministério da Saúde é reunir a sociedade no esforço de combate à sífilis. “Pela primeira vez reunimos em um esforço conjunto associações, sociedade e conselhos de classe, governos estaduais e municipais e sociedade civil e pactuamos uma Agenda de Ações Estratégicas para Redução da Sífilis Congênita no Brasil Trazemos soluções factíveis e o compromisso de todos no enfrentamento da doença”, diz,

O Agenda de Ações Estratégicas inclui a ampliação da testagem; a mobilização de gestores e profissionais de saúde para oferecer o exame e o tratamento da sífilis congênita durante o pré-natal; o fortalecimento de ações conjuntas de gestores federal, estaduais e municipais, profissionais de saúde, comunidade e demais atores para a prevenção da sífilis congênita; o incentivo à realização do pré-natal precoce nas gestantes na atenção básica, assim como o envolvimento do seu parceiro no processo; a ampliação do diagnóstico (por meio de teste rápido) e o tratamento tanto da gestante como do parceiro; e o incentivo à administração de penicilina benzatina.

Questionado se o esgotamento do impacto das campanhas de uso de preservativos e da sua ampla disponibilização pode ser um dos fatores do recrudescimento dos casos de sífilis, o Ministério da Saúde argumenta que não existem evidências apoiando esta hipótese, uma vez que “há muito não se fazia campanha” (pelo uso de preservativos).