Segundo Ulisses Confalonieri, globalização potencializou a velocidade de transmissão de doenças emergentes

Publicação: 10 de janeiro de 2018

Estratégica de pesquisas e vigilância no Brasil são importantes para apontar situações de risco emergentes e indicar medidas de contenção de doenças

A forma de evitarmos sermos reféns de vírus e bactérias que parecem tomar conta do mundo é promover modos de vida saudável e preservar o ambiente natural

Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre as mortes por doenças tropicais negligenciadas no País, entre os anos 2000 e 2011, revelou que 76.847 pessoas vieram a óbito devido a males como a doença de Chagas (que vitimou 58.928 brasileiros), esquistossomose (6.319 mortes) e leishmanioses (3.466 mortes). Ainda de acordo com a OMS, a tuberculose junto com o HIV/Aids, é uma das doenças infecciosas que mais matam no mundo. Mais de 95% dos óbitos causados pela doença ocorrem em países de média e baixa rendas e ela está entra as cinco principais causas de morte entre mulheres de 15 a 44 anos. A maioria dos mortos por Aids, malária, tuberculose, pneumonia, sarampo e diarréia é formada por jovens, de países em desenvolvimento.

Mas esse quadro também afeta países desenvolvidos. Com o aumento da população e a globalização, os agentes causadores de doenças passaram a circular muito mais rapidamente, trocando de continente do dia para a noite. As doenças hoje viajam de avião e são transportadas em passageiros, comida ou animais. Para o pesquisador titular do Centro de Pesquisas René Rachou, Fundação Oswaldo Cruz, Dr. Ulisses Confalonieri, a globalização potencializou a velocidade de transmissão dessas moléstias aumentando o risco de transmissão devido à grande e rápida mobilidade de pessoas e bens. Em sua opinião, a forma de evitarmos sermos reféns de vírus e bactérias que parecem tomar conta do mundo é promover modos de vida saudável e preservar o ambiente natural.

Na influência indireta do clima sobre as endemias, alguns tipos de eventos meteorológicos extremos podem também causar epidemias de doenças infecciosas. De acordo com a OMS, o aquecimento global será a causa de 250 mil mortes adicionais por ano até 2030. Na opinião do doutor Confalonieri, a forma de evitar ou amenizar essa situação é através de estratégias de adaptação às mudanças do clima, como por exemplo melhoria da segurança alimentar, conservação de ecossistemas, segurança hídrica etc.

O pesquisador adverte ainda que a pobreza e o desmatamento, aliados à quebra da resistência orgânica pelo stress, alimentação inadequada, poluição, entre outros, são fatores responsáveis pelo aparecimento de novas infecções e pela volta de surtos que pareciam ter sido erradicados. Ele diz ver com pessimismo a situação de epidemias e da saúde pública no Brasil em virtude da queda geral na qualidade de vida no País, pela governança deficiente e pela ineficiência do sistema de saúde. “Acredito que corremos o risco de ameaças futuras. Sempre há um potencial para emergência de novos problemas de saúde, mas é difícil fazer previsões”, observa ao acrescentar que as estratégica das pesquisas e da vigilância no Brasil são importantes, pois podem apontar situações de risco emergentes e indicar estratégias de contenção de doenças.

Independente das alterações esperadas na dinâmica das doenças tropicais ou infecciosas, ou de suas áreas de ocorrência, a mudança climática e a globalização devem exigir novas maneiras de se pensar o controle e a prevenção dessas moléstias em um futuro próximo.