Segundo caso autóctone de calazar é confirmado em Florianópolis

Publicação: 7 de novembro de 2017

Especialista reconhece a tendência de urbanização da leishmaniose visceral humana

O controle das leishmanioses (canina e humana) requer um esforço integrado dos órgãos de saúde, vigilância epidemiológica e da população

Após três casos confirmados de calazar (leishmaniose visceral humana) em Porto Alegre (RS), a Vigilância Epidemiológica de Florianópolis, Santa Catarina, estado vizinho, confirmou o segundo caso autóctone da doença em 13 de setembro. De acordo com o professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Mário Steindel, a expansão das leishmanioses vem sendo observada nas últimas décadas. Ainda segundo ele, mais recentemente, observa-se também uma tendência a urbanização da doença. Isso decorre de vários fatores, relacionados a atividades antrópicas (desmatamento, construção de habitações em áreas de borda de mata, expansão urbana sem controle, etc), além de possíveis efeitos decorrentes de mudanças climáticas.

Sabendo que a leishmaniose está presente no Brasil desde a década de 50 e que o inseticida que controla o Aedes aegypti, transmissor da dengue, não é eficaz contra o mosquito-palha, até o momento não foram desenvolvidos inseticidas capazes de auxiliar no combate à leishmaniose. “O Aedes aegypti é um mosquito urbano, enquanto o mosquito-palha em geral é encontrado em áreas de mata, ou em áreas de borda de mata. Isso inviabiliza o uso da mesma estratégia de controle já bem estabelecida e utilizada para o Aedes. Além disso, a biologia do mosquito-palha é distinta, onde seus criadouros são difíceis de serem identificados e, em geral, estão relacionados com decomposição de matéria orgânica. Não é que mosquito-palha seja resistente ao inseticida utilizado para o controle do Aedes, mas pelas diferenças na biologia do inseto a estratégia de controle do Aedes não funciona para o flebótomo”, explica.

Após o primeiro caso catarinense de leishmaniose visceral em humanos, registrado em Florianópolis na primeira quinzena de agosto, a Secretaria Municipal de Saúde realizou testes em cães no local onde um homem de 53 anos foi contaminado. Entre os 99 cães examinados, mais de 10 foram confirmados com leishmaniose visceral canina (LVC). O doutor Steindel ressalta que o controle da leishmaniose canina e humana requer um esforço integrado dos órgãos de saúde, vigilância epidemiológica e da população. Esta precisa ser informada e esclarecida sobre esse grave problema de saúde que não é de controle simples. O sacrifício de cães como medida isolada é pouco eficiente, visto que a reposição de animais é muito frequente, o que mantêm o ciclo de transmissão da doença ativo. Cada um precisa fazer a sua parte.

Em Porto Alegre, por exemplo, a Vigilância estipulou a distância de 2,5 km da mata para que os cães fiquem alojados. Essa medida se justifica no fato de que o mosquito-palha tem uma capacidade de vôo bastante limitada. Contudo, é importante salientar que mesmo áreas urbanas, com acúmulo de lixo e presença de vegetação, podem ser locais de criação do mosquito-palha. Além disso, as fêmeas precisam se alimentar de sangue para produzir ovos. Os insetos em geral gostam de se alimentar em aves e, por isso, um galinheiro com galinhas pode ser um fator de risco para reprodução do mosquito-palha. As galinhas são totalmente refratárias ao parasito, mas se tiver cão doente e um grande número de flebótomos, o risco de transmissão do parasito para as pessoas aumenta muito.

A coleira antileishmaniose é o método preventivo mais eficaz para o controle da doença em cães. “As coleiras protegem os animais. O problema é que elas têm uma validade que varia de 3 a 6 meses dependendo da marca e do tipo de inseticida utilizado. A medida que o tempo passa a eficiência diminui. Da mesma forma o contato com a chuva ou o banho do cão também diminui a eficiência de proteção da coleira”, destaca o doutor Steindel ao acrescentar que a utilização da coleira de início, certamente, causa uma impacto positivo, mas é preciso que se faça o acompanhamento e a substituição quando necessário. Essa ação precisa estar muito bem organizada para que os resultados sejam os desejados.

Vale ressaltar que já existe medicamento de uso veterinário registrado no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para o tratamento de cães com LVC, o Milteforan®. Entretanto, em termos financeiros, considerando o cenário atual, é pouco provável que as Secretarias de Saúde propiciem o tratamento dos cães com o medicamento, cabendo ao dono se responsabilizar pela saúde do animal.

“A leishmaniose visceral pode ser considerada o novo ‘pesadelo’ para a saúde pública nas próximas décadas. Os profissionais de saúde devem incluir a leishmaniose visceral no diagnóstico diferencial de pacientes com febre, emagrecimento e visceromegalia. É necessário que a vacina para uso em cães já aprovada pelo MAPA seja efetivamente utilizada em escala. Os testes de diagnóstico em caninos precisam ser melhorados assim como a notificação de casos”, adverte o professor. De acordo com ele, os animais precisam ser monitorados por profissionais habilitados e o dono do cão deve ser responsável pela saúde do seu animal. “É preciso pactuar essas atitudes entre Estado por meio dos órgãos de saúde, os laboratórios de pesquisa, a vigilância epidemiológica, as clínicas veterinárias e a população. O desafio é imenso e só teremos sucesso se o esforço for conjunto”, finaliza.