A SBMT traduz em carta todo seu pesar e solidariedade diante da tragédia anunciada no Museu Nacional

Publicação: 5 de setembro de 2018

Que essa perda terrível sirva de advertência com um olhar crítico-reflexivo; não é mais possível tolerar o desapreço, o descaso e a negligência para com a educação, a ciência, a cultura e a saúde neste país.

A Assembleia da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), reunida por ocasião do seu 54º Congresso, vem a público manifestar seu mais profundo pesar face ao terrível e irreparável incidente ocorrido na noite deste último domingo, dia 02 de setembro, no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Fundado em 1818 por meio de um Decreto de D. João VI, como primeira instituição museológica e de pesquisa do País, perpassou em sua história eventos desafiadores com significativos ecos, desde a Monarquia até a República. Tornou-se um dos mais expressivos museus e espaços de pesquisa da América Latina, em particular nas áreas das Ciências Naturais e Antropológicas. As chamas que destruíram o prédio secular, testemunha fundamental e insubstituível da memória de nosso país, consumiram um pouco da alma de todos os brasileiros e brasileiras. Em especial a Ciência do nosso país, ainda mais sacrificada nos últimos anos pela insuficiência de ações de priorização por tomadores de decisão, que sofre um duro golpe com esta tragédia, a poucos dias da data em que se comemora a independência do Brasil.

Compreendendo que a pesquisa remete-se diretamente a dimensões de desenvolvimento humano e social, é a humanidade como um todo que perde uma parte de si, com a destruição de um pedaço de sua memória e de um dos mais importantes museus de história natural do mundo, no ano de seu bicentenário, quando deveria estar sendo festejado e celebrado. Que essa perda terrível sirva de advertência com um olhar crítico-reflexivo; não é mais possível tolerar o desapreço, o descaso e a negligência para com a educação, a ciência, a cultura e a saúde neste país. É desrespeito, sobretudo, ao sofrido povo brasileiro e nossas gerações que virão, que veem seu futuro subtraído e sua história vilipendiada juntamente com o Museu Nacional. Colocamos em perspectiva o potencial risco de que a capacidade instalada de pesquisa no nosso País seja fragilizada em níveis insustentáveis em função de uma política de restrição de recursos públicos para Ciência, Tecnologia & inovação.

Por fim, partilhamos o profundo sentimento de tristeza e indignação que congrega a comunidade científica brasileira neste momento especialmente trágico da vida nacional e expressamos, aqui, nossa solidariedade para com funcionários e pesquisadores do Museu Nacional, a comunidade e dirigentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aos quais o Museu Nacional encontra-se vinculado, e o povo do Rio de Janeiro, especialmente suas crianças e jovens, que tinham no Museu Nacional um espaço democrático absolutamente ímpar de educação científica e histórica.

Recife, 03 de setembro de 2018