Proposta sobre fim do exame de CD4 no Brasil levanta debate

Publicação: 11 de agosto de 2014

Tema também é tratado entre a comunidade científica internacional

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Para especialista, a realização desses exames é um direito da pessoa soropositiva. ONGs e entidades como a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids deveriam ser ouvidas

O possível fim de novas aquisições do exame de CD4 pelo Ministério da Saúde (MS) a partir de 2015, conforme reportagem da Agência Estado , tem gerado discussões especialmente entre as entidades que lidam diretamente com portadores do vírus HIV. O procedimento é considerado fundamental para que os pacientes saibam as condições imunológicas e virológicas e decidam sobre o tratamento.

Os protocolos atuais do MS indicam início imediato da terapia Os protocolos atuais do MS indicam início imediato da terapia antirretroviral (TARV) independente do resultado da contagem de células-T CD4, que avalia o progresso do vírus – quando abaixo de 200 por microlitro, é apontado oficialmente o diagnóstico de Aids. A não realização do procedimento logo após a vistoria clínica, no entanto, pode interferir negativamente na adesão ao tratamento e no autocuidado de pessoas vivendo com HIV, segundo a Doutora em psicologia pela Universidade de Brasília (UnB), Eliane Seidl .

“Mesmo com esse protocolo, quem decide efetivamente sobre o início ou não da TARV é o paciente. O médico pode prescrever os medicamentos, mas se não houver confiança no profissional, talvez não haja adesão ao tratamento”, explica. A psicóloga, que trabalha com soropositivos há 18 anos pelo Projeto Com-Vivência, acrescenta que a eventual ocorrência de efeitos colaterais está entre as desvantagens do início precoce da TARV, pois o paciente será exposto aos remédios por mais tempo ao longo da vida. “Acredito que a realização desses exames é um direito da pessoa soropositiva. As ONGs e entidades como a Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids (RNP+) deveriam ser ouvidas acerca desse tema”.

Um fator que impossibilita a abolição do exame no País é que o diagnóstico no Brasil ainda é muito tardio, de acordo com o médico Dr. Juan Carlos Raxach, que é assessor de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA). “Há muitas pessoas que só descobrem ter a infecção em fase muito avançada. Logo, precisam do exame de CD4 para saber se é necessário ou não colocar profilaxia (artifício para impedir a instalação ou propagação de doenças) para enfermidades oportunistas. Ainda não há outro método que nos permita ter esse critério e acredito que demorará até ter uma alternativa”, afirma.

O Ministério da Saúde foi procurado durante um mês para tratar sobre o tema, mas até o fechamento desta reportagem não havia se manifestado. Dados do Órgão apontam que o governo federal tem cadastrados 90 laboratórios que realizam exames de CD4 e outros 79 para diagnósticos de carga viral.

Fim do uso do CD4 está longe de ser um consenso

O assunto vem sendo discutido na comunidade científica internacional. Em artigo publicado pela Oxford University Press , o diretor do Programa de HIV e da Divisão de Doenças Infecciosas do Brigham and Women’s Hospital, Dr. Paul E. Sax , afirma que a razão mais importante para não medir CD4 rotineiramente em um paciente estável é que os resultados não influenciarão no tratamento, pois nesses casos raramente os níveis descem abaixo dos limites clinicamente significativos.

Um estudo  publicado no ano passado também aponta que o exame não seria necessário em pacientes estáveis. Para chegar a tal conclusão, pesquisadores analisaram os registros de todos os internados em uma clínica de tratamento de HIV em Washington (EUA) entre setembro de 1998 e dezembro de 2011, com o intuito de identificar pacientes com supressão de carga viral contínua e de longo prazo. Quando aqueles com causa aparente para a alteração na contagem de células CD4 — tais como infecção grave, quimioterapia ou tratamento com interferon (proteína envolvida na resposta imunológica) — foram excluídos da análise, não sobrou nenhuma pessoa com uma queda na contagem de CD4 inferior à 200 células por microlitro após dois anos de controle virológico contínuo.…