Prêmio Jovem Pesquisador: Estudo de vírus em pacientes com leishmaniose tegumentar fica em segundo lugar

Publicação: 7 de outubro de 2014

Pesquisa aponta que vírus aumenta em três vezes a chance de lesão mucosa (a mais grave) nesses pacientes, mas que este não é o único fator associado ao agravamento da doença

Prêmio Jovem Pesquisador 2

O estudo analisa a associação entre a presença do LRV1 (espécie circulante nas Américas) e as manifestações mucosas em pacientes com leishmaniose tegumentar americana

Após a publicação na revista Science de um estado feito por pesquisadores da Universidade de Lausanne, na Suíça, em 2011, o vírus conhecido como LRV1 (Leishmania RNA Vírus 1) foi associado ao agravamento da leishmaniose tegumentar em humanos. Desde então, pesquisadores da Fiocruz Rondônia e do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), sob coordenação do Dr. Ricardo Godói, têm se debruçado sobre o tema. Uma dessas pesquisas, da doutoranda em Biologia Celular e Molecular, Lilian Motta Cantanhêde, foi a segunda colocada no Prêmio Jovem Pesquisador 2014, concedido durante o 50º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (MEDTROP), que ocorreu entre os dias 26 e 29 de agosto, em Rio Branco (AC).

O estudo de Cantanhêde analisa a associação entre a presença do LRV1 (espécie circulante nas Américas) e as manifestações mucosas em pacientes com leishmaniose tegumentar americana. Ao todo, foram avaliados 156 pacientes do estado de Rondônia entre 2012 e 2013, parte deles com a lesão cutânea e, a outra, com a forma mucosa. Os resultados demonstraram que aqueles com o vírus têm três vezes mais chances para desenvolver a lesão mucosa. Porém, como uma parte das pessoas com a lesão não apresentou o vírus, a presença deste não é o único fator determinante para o desenvolvimento da lesão mucosa.

Entre os demais fatores associados, estão o perfil genético do hospedeiro, fatores de virulência espécie/específicos e, principalmente, o estado imunológico do paciente, uma vez que essa enfermidade pode levar anos até o surgimento de uma lesão mucosa. Além do tempo de desenvolvimento da doença, a limitação também afeta os diagnósticos. “Os pacientes vivem na área rural e têm dificuldade de acesso ao serviço de saúde, retardando o diagnóstico e favorecendo o agravamento da infecção. Lesões mais antigas são dificilmente diagnosticadas pelo exame parasitológico direto e as técnicas de diagnóstico molecular são de alto custo”, lembra a cientista.

Uma das formas de coleta das amostras dos pacientes foi inovadora. Normalmente, pesquisas que trabalham com biologia molecular para detecção de Leishmania utilizam biópsia, método mais invasivo e que só pode ser executado por médicos. “Como sou biomédica e não poderia fazer tal procedimento, comecei a usar uma escova cervical estéril em contato com a borda das lesões”, destacou. A coleta é feita diretamente na lesão dos pacientes, sendo extraído o DNA e, caso haja, o RNA do vírus. Ela diz que os médicos têm aderido ao teste. Por ora, o procedimento de coleta é restrito ao Centro de Medicina Tropical de Rondônia (Cemetron), procurado até por pacientes com plano de saúde para obterem diagnósticos mais específicos da doença.

O laboratório da Fiocruz Rondônia, que tem parceria com o Cemetron, tem liberado os resultados aos médicos, mas fica a cargo deles o que será feito com o laudo. “Nossa proposta é que o paciente com o vírus seja acompanhado mais de perto, para que, quando tenha indício de lesão na mucosa, seja tratado antes do desenvolvimento da doença”, coloca a biomédica.

A leishmaniose tegumentar americana é uma doença de manisfestação cutânea, infecciosa e não contagiosa, transmitida por diversas espécies de protozoários do gênero Leishmania, provocando úlceras na pele e, em casos graves, nas mucosas das vias aéreas superiores (como as nasais) de seres humanos. Como a manifestação grave da doença pode levar anos para manifestar sintomas aparentes, há uma séria dificuldade no diagnóstico. No Brasil, são aproximadamente 20 mil casos notificados anualmente, sendo a região Amazônica a mais afetada e a que contém a maior variedade de espécies do parasita. Apenas no estado de Rondônia, são cerca de mil novos casos por ano, dos quais 12% são de lesão mucosa, forma mais grave da doença.

Prêmio Jovem Pesquisador

Na edição deste ano, foram selecionados 14 trabalhos na primeira fase, dos quais cinco foram finalistas. A premiação prestigia estudantes de graduação e de pós-graduação, com o intuito de estimular a formação de novos tropicalistas. A expectativa é de um número ainda maior de participantes na próxima edição, que ocorrerá durante o 51º MEDTROP, em Fortaleza (CE), entre os dias 14 e 17 de junho de 2015.